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Sobre as manifestações contra Bolsonaro, por Vilma Aguiar

Sobre as manifestações contra Bolsonaro, por Vilma Aguiar
NELSON ALMEIDA/AFP/JC

Por Vilma Aguiar

Sobre as manifestações

Concordo que decência é uma palavra fora de moda, mas faz falta. Mais que a palavra, a coisa.

No Brasil, sua falta tem sido endêmica mas, talvez por contágio, anda pandêmica. No Planalto Central e na entourage da Corte, uma calamidade.

Diante dela, o que me ocorre é aquela menina,  Greta Thunberg, gritando na ONU, “how dare you?”. Queria ter a sua potência para dizer, como ousam?

Como ousam deixar morrer aos milhares e cruzar os braços com alegria mórbida mal disfarçada? Como ousam promover a morte, trabalhar por ela, militar por ela?  Festejá-la. A morte devia ser o limite último perto do qual mesmo os homens mais indecentes recuam. Até Maluf, um espécime consagrado da indecência, já disse estupra mas não mata. Parecia ser já o impensável, mas não. Nunca é. Os novos facínoras dizem estupra, tortura, mata, esquarteja e joga aos cães. Tudo isso na praça, que o público que faz fila para ver o espetáculo terá orgasmos coletivos, lubrificados  por sua própria baba. Depois pedirá autógrafo e selfie.

Quando a morte não é mais o limite fatal, a área radioativa, é porque até a natureza foi subvertida. Todos os seres vivos temem e respeitam a morte. Mesmo as plantas se defendem de predadores.  Esses que ousam desdenhar da morte não cabem no reino da natureza, nem tampouco estão dentro da civilização, que esta se fez, como nos ensina a filosofia, pelo medo da morte. Os que ousam transpor o limite do pudor diante da morte são moradores de um limbo, são monstros. Só que não.

Monstros não existem. Esses, pelo contrário, tem nome, sobrenome, conta no Twitter, crachá, voto, cargo público. Como então ousam não temer os corpos insepultos nos hospitais, os corpos empilhados nos cemitérios?  Como ousam desdenhar, embriagados por própria estupidez, da dor dos que perderam para a morte seus pais, seus filhos, seus amores? Como ousam silenciar quanto uns tantos encontram com seus corpos balas perdidas ou são arremessados do novo andar pelo descuido diante de uma vida que  vale nada?

Ousam porque somos indecentes.

Cada um de nós que permite. Que contempla em silêncio, que diz para si mesmo, que horror, mas olha para o outro lado e se distrai esperando o concerto dos astros. A ocasião propícia para o fim da impotência. Nós que estamos loucos para, como eles, ousar ignorar a morte. A dos já mortos, a dos que morrerão e, quem sabe, a nossa própria. Moradores do mesmo limbo, encobertos pelos corpos decompostos, envoltos pela atmosfera pútrida, seguimos, indecentes.

Quando os poucos que são menos indecentes tomarem as ruas e quebrarem vidraças e apanharem da polícia, tenhamos pelo menos a decência de reconhecer que, se a densa noite cair sobre o país, a responsabilidade é, antes, nossa.

Vilma Aguiar é socióloga e feminista. Doutora em Ciências Sociais. Durante a pandemia está escrevendo O livro da quarentena

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2 COMMENTS

  1. Sensacional o texto… mas ele não faz ressalvas. E elas existem
    Cada um que encontre sua forma de lidar com os acontecimentos.. eu não vou colocar a minha vida em risco por essa população mediocre, ignorante, fascista e acomodada de brasileiros
    Eu ão olho para o outro lado. Eu contemplo o calvário merecido
    Lutei, falei, escrevi, palestrei, briguei, fui pra rua… e ainda falo, milito, desafio, debato, contesto, publico e crio resistência
    Mas ir para a rua, sob o risco de ser contagiado por um vírus mortal, expor assim meus filhos e companheira, para defender a população do que ela deveria ter negado desde sempre? Não obrigado.
    Eu avisei. Eu votei no professor.
    Aliás, Dilma também avisou: não ficará pedra sobre pedra
    A minha militância se limitará a minha saúde física e mental permitirem, com segurança.
    Eu não vou vestir a carapuça da responsabilidade dos outros.
    Esse genocida foi eleito. De forma sacana, enviesada, com fake news, com prisão ilegal do Lula… sim é verdade. Mas são incontestes 54 milhões de votos.
    Eles que coloquem a mão na consciência. Eles que repensem seus pontos: “Tiramos a Dilma, tiramos ele também”! Hora de honrar a palavra.
    Eu não quero mais ser para-choque de imbecil
    Hora de pagar pelas escolhas feitas. Que seja pela perda de familiares, pela fome, pela tristeza, pela inépcia, pela sujeira, pelas balas perdidas, pelo racismo.
    O Brasil tinha uma direção que apontava para o caminho onde tudo isso era combatido, mas a população achou engraçado eleger um timoneiro que girou “o volante” em 180ø e agora eu tenho que ir para a rua para concertar?
    Me desculpe Vilma, mas essa responsabilidade não é minha. Aliás não é sua tampouco.

    • Agradeço o comentário e concordo com muita coisa do que você disse, mas estou antes respondendo aos que dizem que não devemos nos manifestar porque isso facilita o golpe. A questão então é o que vamos fazer? Esperar que não haja mais nada a ser salvo? Eu sei que alguns dentre nós estamos fazendo muita coisa, mas a maioria não faz nada a não ser um muxoxo.
      Agora a questão da responsabilidade, acho que sim. Todos somos em alguma medida responsáveis. É a nossa época, é o nosso país. Será que realmente fizemos tudo para evitar o que está acontecendo e o que ainda pode acontecer?
      São questões para pensar.

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