…sobre essa entidade sagrada na cultura brasileira, a mãe…, por Eduardo Ramos

Por causa delas, muito provavelmente, teremos hoje um dia de exceção e demonstração de afetos em meio ao horror que vivemos...

Foto: Reprodução

…sobre essa entidade sagrada na cultura brasileira, a mãe…

Por Eduardo Ramos

Um vídeo e uma charge me vêm à cabeça ao iniciar esse texto de homenagem às mães em todo o mundo, mas especialmente a esta ENTIDADE SAGRADA em nossa cultura, a mãe!
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Primeiro, um vídeo sobre os jovens de nossas favelas e periferias que, pelos mais diversos motivos, enxergam no caminho dos assaltos, do tráfico de drogas, um caminho para saírem da miséria, do ostracismo, e terem acesso aos bens materiais que são tanto seu objeto de desejo como os nossos, na estrutura social consumista que vivemos, ou mesmo por mera sobrevivência. Mas não entro aqui em detalhes desse debate, caloroso e complexo.

O caso, é que o documentário que guardei na mente esses anos todos, sobre o que pensam e sentem esses jovens, tanto os presos, como os que seguem em sua vida de crime, tem uma parte em que os documentaristas perguntam a eles se “algo é sagrado para eles, intocável, se algo os comove, os faz ter algum tipo de arrependimento ou que poderia fazer com que procurassem uma vida diferente daquela que viviam…” – e, INVARIAVELMENTE, a resposta era: “a minha mãe! minha culpa é o sofrimento que causo em minha mãe, e ela é a única coisa que eu amo e respeito nessa vida!…” – E muitos, chegavam a dizer de modo cru, sentido: “minha mãe é a única pessoa nesse mundo que pode fazer o que quiser comigo, me escrachar, me bater, que eu abaixo a cabeça na hora, pra mais ninguém faço isso, mas pra minha mãe, sempre!…”
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E, em tons e sentidos diferentes, no fundo todos eles revelavam a mesma essência que nós, que por motivos que também me recuso a debater aqui, agora, “seguimos uma vida normal de pessoas afastadas de condutas criminosas…” – essa “entidade”, esse ser ungido, essas criaturas que intuímos, sabemos, guardamos no fundo do nosso consciente e inconsciente como a fonte do “amor mais puro e verdadeiro que existe”, é a mãe de cada um de nós.

E mesmo em relação “às mães do outro”, essa cultura é tão intensa em nossa psiquê, que seja para ofender alguém num momento de raiva, ou quando respeitamos um amigo querido, imediatamente, se o caso for “ferir os brios do outro”, soltamos o palavrão que atinge o alvo de modo direto e certeiro: “seu filho da……” – e, no modo oposto, procuramos cobrir de respeito e gentilezas as mães dos que nos são queridos, bem como nos identificamos de imediato, quando um deles narra as histórias que os fizeram, como nós, interiorizá-las como “uma entidade acima de qualquer outra…”
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A outra imagem que me veio à cabeça é a de uma charge que virilizou nas redes sociais há uns poucos anos, que achei absurdamente genial sobre “o que representa esse tal do amor de mãe”. Nela, um piloto abre a janela do imenso avião na pista de decolagem, olha para fora e grita à sua mãe, a uns poucos metros de distância, segurando um casaco dele nas mãos: “Mãe, não precisava ter vindo, não se preocupe, eu estou levando casacos comigo para me proteger do frio…” – e, cada um de nós sorri ao ver a charge leve e bem humorada, que sintetiza essa certeza que trazemos em nós de modo natural: “é bem assim!”… – e é essa a nossa convicção íntima, que esses seres nos amam e nos amarão de um modo absoluto, como nenhum outro.
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Às mães que já se tornaram saudade e lembrança para muitos de nós, inclusive esse que escreve o artigo-homenagem, às mães que hoje criam seus filhos em meio ao horror da pandemia, aos que se preocupam com suas mães por esse e outros motivos, idosas ou não, a todas essas “entidades de amor que nos comovem ontem, hoje e sempre”, minha homenagem mais honesta e afetuosa.
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Por causa delas, muito provavelmente, teremos hoje, um dia de exceção e afetos, em meio ao horror que vivemos…..