Sobre o “chão” da Justiça — ou “Dai a César o que é de César”, por Eduardo Ramos

Por Eduardo Ramos

A palavra “chão” é pouco notada. Mereceria mais atenção de nossa parte. Não só por seu sentido literal (o pedaço de solo sobre o qual caminhamos em determinado momento), mas pelo imenso sentido metafórico que carrega. Nem percebemos que “buscamos chãos que nos sustentem” a vida toda, através dos afetos, da religião, da luta política, da família, do erotismo, da arte… Mesmo os seres mais revolucionários, criativos, livres, independentes, precisam de “um chão” para vivenciarem sua existência. Hoje quero falar de um CHÃO que só percebemos o quanto é ESSENCIAL À VIDA, quando o tiram dos nossos pés: a justiça! 

É um chão tão óbvio, tão inerente ao viver em sociedade e mesmo em relação à vida de cada um de nós, que não enxergamos que nos apropriamos desse chão – a justiça, suas doutrinas, valores, culturas em determinado tempo e espaço, sua CONSTÂNCIA, a segurança que nos traz, etc. – como nos apropriamos do ar que respiramos – ou seja, é quase uma coisa inconsciente de nossa parte.

O normal nas nações civilizadas é acreditarmos que AO MENOS NA MAIORIA DAS VEZES, juízes, promotores, policiais serão corretos, isentos, republicanos, ou seja, JUSTOS! – é exatamente essa “sensação” que nos faz acreditar de modo natural que se compramos um carro, uma casa, ninguém poderá nos tomar – exceto pela força, e mesmo assim, a Justiça teria ou deveria ter meios – as leis e as instituições a elas devotadas – para que recuperemos a posse do objeto de nós roubado e a pena – punição – do transgressor dos meus direitos.

É acreditar que não serei preso por um policial sem motivos, apenas “porque ele teve o impulso de me prender”, e ainda assim nos sentimos seguros, de que algum juiz nos mandará soltar de imediato e o policial será punido e afastado de suas funções. NÃO EXISTE VIDA SEGURA SEM UM CHÃO DE JUSTIÇA SOBRE O QUAL POSSAMOS VIVER NOSSAS VIDAS, EXISTIR SOCIALMENTE.

Medimos o grau de avanços, educação e civilidade de um país NA MESMA MEDIDA DA SOLIDEZ DO COMPORTAMENTO avançado, educado, civilizado de seus habitantes, tanto quanto na CRENÇA que eles têm e nós temos, na sua JUSTIÇA e em todas as instituições ligadas à sua aplicação. Viralizou nas redes sociais recentemente uma notícia que nos espantou a todos: a Holanda, fechando presídios por falta de condenados. Podemos considerar esse um dos ápices de civilidade, de avanço social – uma sociedade em que as pessoas auto-aplicam em suas vidas esse “ser justo” – cumpridores das leis e normas civilizatórias de convívio social – ao ponto das condenações judiciais caírem drasticamente.

Leia também:  Ascensão e queda do clã Bolsonaro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

No Brasil, vivemos exatamente um momento oposto, na verdade, nosso PIOR momento em relação a esse chão, a Justiça. Não só nas instituições, mas por parte da sociedade civil, tragicamente, um movimento ENCABEÇADO POR NOSSAS ELITES SOCIAIS E NOSSAS CLASSES MÉDIAS, guiados como um rebanho fanático e tosco por uma das mídias mais farsescas, vis e perversas do planeta.

No “mundo-matrix à brasileira” que sintetiza o país que viramos, NÃO HÁ JUSTIÇA EM QUE CONFIAR, salvo em causas do cotidiano, e mesmo assim, uma justiça cara, lenta, em que intuímos que só “receberemos justiça”, se dermos a “sorte” de nossa causa cair nas mãos de um juiz justo – somos o pobre país em que ser tratado com dignidade e seriedade pelo Judiciário e Ministério Público, mesmo pelas polícias diversas, é como uma “loteria” – você pode ganhar, você pode perder… e isso independentemente de todos os direitos eminentes estarem do seu lado em determinada causa.

Foi a Globo principalmente, aliada ao juiz-celebridade Sérgio Moro, quem detonou esse chão bendito, a Justiça, no nosso país. Metódico, frio, calculista e sabendo dar um passo de cada vez, testando o seu poder, que Moro foi construindo a operação mais NEFASTA E PERVERSA montada pelo Judiciário no Brasil, em todos os tempos: A Lava Jato! Um dia, sociólogos, juristas, historiadores, se debruçarão anos a fio, para explicarem às gerações futuras, – perplexas e horrorizadas com o nosso grau de incivilidade… – como e porque chegamos a esse ponto inacreditável, dantesco, de quebra de direitos, perseguição pela sociedade, mídia e instituições, de um líder político, – Lula – seu partido, – o PT – os familiares e amigos do ex-presidente, usando de modo farsesco, cínico e absolutamente deturpado a lei das delações premiadas. Ao mesmo tempo em que políticos como Aécio Neves, Alckmin, Caiado, Temer, e tantos outros corruptos com provas contra si insofismáveis, riam, livres e protegidos por essas mesmas instituições…. – ou seja, quando PERDEMOS DE VEZ O CHÃO DA JUSTIÇA PARA VIVERMOS COMO UMA NAÇÃO CIVILIZADA.

Leia também:  Lava Jato pode destruir economia brasileira, por Sergio da Motta e Albuquerque

Somos a sociedade que tirou Dilma do poder para colocar em seu lugar Michel Temer e a quadrilha do PMDB associada à quadrilha dos tucanos e assemelhados. Somos a sociedade que passou a chamar nas ruas, gênios aplaudidos em todo o mundo, como Chico Buarque, de “merdas”, “petralhas”, “vendidos”, porque banhados em um nojo e um ódio muito semelhante ao ódio nazista. Somos a sociedade que se espanta, chora, fica de luto, se morre em Ipanema ou Leblon, ou nos Jardins em São Paulo, “um dos nossos”, um “semelhante”, em um assalto, mas ficamos absolutamente indiferentes, se nossas polícias matam uma dezena de jovens negros “numa favela qualquer…”

Somos a sociedade que aceita e festeja a farsa canhestra, nonsense, absurda, canalha, perversa, da condenação de Lula baseada em um triplex que comprovadamente nunca lhe pertenceu. Somos a sociedade que não se importa que as prisões temporárias de centenas de empresários pelas mãos de Moro, prisões nitidamente transformadas em TORTURA FÍSICA E MENTAL, tenham sido usadas como uma chantagem sórdida, para que os presos delatassem EXATAMENTE DE ACORDO COM OS INTERESSES dos procuradores, da mídia, de Moro, da própria sociedade, tornada fanática, enferma, cega, injusta…

Somos a sociedade, por fim, capaz de eleger um dos seres mais BESTIAIS do planeta, desprezado como um lixo humano por todos os intelectuais e estadistas mundo afora, como nosso presidente… Somos a sociedade que não se importou com o “aeroporto do titio” de Aécio Neves, uma vergonha absurda, 14 milhões investidos nas terras de um familiar, e mesmo assim ele teve 50 milhões de votos em 2014. Somos a sociedade que uiva de ódio a qualquer denúncia sem provas contra o PT, e sossega em tranquilidade dominicana, se desaparece o “Queiroz”, o motorista envolvido na lavagem de dinheiro sujo da família Bolsonaro… Ah, se fosse o “Lulinha” a ter um motorista desses, e dona Marisa a receber cheques de 24.000,00 de um laranja…. Haja “indignação” dos “brasileiros de bem”.

Uma das mais perfeitas sentenças sobre “o que é ser justo”, vem do Cristo, nos evangelhos: “Dai a César o que é de César.” Como podemos interpretar essa máxima? Como ela é, genial, humana, e de simplicidade quase absurda!

Dar a César o que é de César e dar a cada ser humano o quinhão que lhe cabe de tolerância, direitos, oportunidades, enfim, JUSTIÇA!

Leia também:  Os relógios e o tempo no Museu Mariano Procópio, por Jorge Sanglard

É dar às mulheres, proteção contra a violência covarde e machista. É dar aos presos, dignidade no cumprimento de suas sentenças e meios concretos de educação e cidadania ao saírem da cadeia. É dar às crianças – via seus pais ou por quaisquer outros meios… – alimentação, uma casa digna, estudo, educação, saúde, para que não cresçam sem esperança, sem futuro, em vidas pré-programadas para uma miséria anunciada… É dar aos cidadãos uma mídia plural, democrática, e não um monopólio cruel de poucas famílias. É dar a todos o mesmo tratamento legal, os mesmos direitos, e não essa vexaminosa blindagem aos políticos ligados à nossa direita e todo o massacre às lideranças de esquerda. É proteger juízes, procuradores, cada cidadão, da perseguição e chantagem que a mídia faz descaradamente quando quer assassinar a reputação de uma autoridade, causando o efeito do medo e criando um curral fiel nas instituições. É dar ao povo o direito soberano de escolher seus governantes e programas de governo e respeitar de fato sua decisão. . Somos esse trágico país a quem foi roubado o chão da justiça. Lula preso e Bolsonaro empossado, com Moro como o novo super-ministro com poderes absolutistas…

Quem mantém a lucidez, a dignidade pessoal e cidadã, está impotente, desamparado, porque aqueles a quem recorreríamos nesses momentos de grande injustiça, FAZEM PARTE DO GOLPE, do massacre, da perseguição ao lado adversário, da blindagem total aos amigos…

Somos o país em que “Dar a César.”

NADA SIGNIFICA! Se César for Lula, o massacre selvagem, que lhe custou inclusive a perda da companheira, que não resistiu a tanto horror. Se César for Aécio, Bolsonaro, ou mesmo um simples motorista, “o Queiroz”, ah…. aí tudo é permitido.

Esse é o motivo do nosso desconforto, nosso desespero. A perda desse chão essencial chamado JUSTIÇA.

Recuperá-lo para os nossos pés, com tudo o que ele representa – democracia, isonomia de tratamento a todos os cidadãos, segurança quanto ao cumprimento das leis… – é pois a nossa mais urgente necessidade. Pessoal e social.

Não há vida possível sem esse chão civilizatório para os nossos pés!

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome