Sobre o ódio, o Sionismo, a dor, a empatia e a minha nova estadia no Oriente Médio, por Lucia Helena Issa

Jamais deixarei de acreditar nas mulheres judias e palestinas que lutam juntas pela paz e contra o Sionismo que mata.  

Foto Revista Viajar pelo Mundo

Sobre o ódio, o Sionismo, a dor, a empatia e a minha nova estadia no Oriente Médio

por Lucia Helena Issa

Uma pessoa perguntou-me se, depois de toda a dor e de todos os conflitos que testemunhei em Jerusalém, Hebron, Belém e na fronteira da Síria, e depois da imoral atitude de Trump de mudar, contra todas as leis internacionais, contra a própria história do cristianismo e contra  todas as resoluções da ONU, a embaixada americana para Jerusalém (o que acabou gerando o assassinato de centenas de palestinos, inclusive bebês), e depois da atitude insana de Bolsonaro de abrir uma representação brasileira na cidade, como se ela pertencesse apenas a Israel e não fosse sagrada também para nós, cristãos, eu ainda irei para o Oriente Médio e não sinto medo.

Medo dos muçulmanos que conheci na fronteira da Síria e na linda Palestina?

Medo do garoto muçulmano que, no meu primeiro dia em Beirute, atravessou o campo de refugiados inteiro comigo, correndo, só para me ajudar a encontrar a pessoa que eu iria entrevistar? Medo das meninas que corriam para me abraçar e me oferecer um pedaço de pão quentinho, assim que eu chegava no campo?

Medo de pessoas que me protegeram e dedicaram parte de seu tempo a me ajudar a encontrar mulheres que eu pudesse entrevistar para o livro?

Medo de uma senhora muçulmana que perdeu seu filho e seu marido em um bombardeio israelense, mas era a bondade em pessoa e tinha o rosto da paz? Medo das muçulmanas que, quando não aguentei e chorei pelas crianças que morreram na Síria e na Palestina, me abraçaram e me falaram de paz?

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Medo do garoto muçulmano que, quando soube que eu era cristã, veio correndo até mim e disse que a mãe dele se chamava Maryam, em homenagem à mãe de Jesus?

Medo das meninas e mulheres muçulmanas que conheci na fronteira da Síria, num campo de refugiados, e que cuidaram de mim com imenso amor quando tive uma febre muito alta e fiquei muito doente por três dias inteiros?

Medo da mulher judia de 92 anos, que quando soube que era uma cristã de origem árabe, me abraçou  e contou  que, antes que o ódio fosse plantado ali pelo Sionismo, a menina judia que ela foi brincava com “uma menina árabe de olhos grandes como os seus”, antes que a cidadezinha, de maioria muçulmana, fosse completamente destruída por extremistas judeus?

Medo de uma mãe judia que hoje arrisca sua vida lutando contra o Sionismo e que me mostrou o quanto ele se parece com o Nazismo?

Medo de uma mulher judia italiana que, quando soube que era de origem árabe, me deu as mãos e me levou até sua casa para conhecer sua filhinha a quem dera um nome árabe?

Não. Os extremistas de todas as religiões, que não representam nenhuma religião, não farão com que eu, como cristã, tenha medo de minhas irmãs muçulmanas ou judias que lutam pela paz!

Eles jamais farão com que eu deixe de ir a Palestina, Síria, Israel ou Líbano.

ISIS, Al Qaeda e outros grupos terroristas muçulmanos e judeus não farão jamais com que eu perca a empatia pelos maravilhosos muçulmanos que conheci na Palestina e nos campos de refugiados, assim como os terroristas judeus do grupo Price Tag ou os extremistas judeus do grupo cujo membro  assassinou o israelense Itzaak Rabin, jamais farão com que eu deixe de ir a Israel.

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Jamais deixarei de acreditar nas mulheres judias e palestinas que lutam juntas pela paz e contra o Sionismo que mata.

Onde quer que vocês estejam, extremistas pseudo-religiosos que alimentam apenas o ódio, saibam que vocês perderam comigo.

Se vocês queriam que eu, como cristã, sentisse medo ou ódio de minhas irmãs muçulmanas ou judias que lutam pela paz, vocês perderam comigo.

Lucia Helena Issa é jornalista, escritora e embaixadora da paz por uma organização internacional. Foi colaboradora da Folha de S.Paulo em Roma. Autora do livro “Quando amanhece na Sicília”. Pós-graduada em Linguagem, Simbologia e Semiótica pela Universidade de Roma. Atualmente, vive entre o Rio de Janeiro e o Oriente Médio e está terminando um livro sobre mulheres palestinas que lutam pela paz.

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