Sobre o Poeta Cacaso, por Jorge Alberto Benitz

O fato é que entendo a poesia do mesmo modo que Cacaso. Se ela perder aderência a vida, ao cotidiano, não tem serventia.

Sobre o Poeta Cacaso

por Jorge Alberto Benitz

No documentário sobre o poeta Cacaso que está passando a todo o momento no excelente canal de TV Curta veio a revelação. Revelação de algo nada extraordinário. Algo que só a mim, talvez, interesse. Nesta revelação descobri, também, porque simpatizei logo com a poesia dele apesar de conhecer uma que outra. Não conheço integralmente sua obra. O que importa é que gostei de cara de sua poesia.

Em um dos depoimentos o crítico e professor Paulo Sérgio Duarte comenta que Cacaso depois de ser influenciado por João Cabral de Melo Neto começou a discordar do seu racionalismo construtivo e a defender uma poesia capaz de ser mais afim da fluidez do coloquialismo do cotidiano. Enfim, uma poesia menos empombada, menos metida a sebo e que assim se aparta e se distancia do vulgo, do dia a dia da vida e vira um prazer esotérico de grupos meio maçônicos. Na sequência do documentário, revelam uma frase genial dele acerca da poesia concreta. Frase dura. Ainda mais que dita nos quentes anos da ditadura “A poesia concreta é o AI 5 da poesia”.

Estas críticas feitas por ele ao Joao Cabral de Melo Neto e a poesia concreta tinham todo o sentido quando foram ditas por revelar um caráter aristocrático que a vanguarda sempre assume quando pretende inovar e ir além do cânone e muitas vezes fica só o ranço sem o respectivo avanço pretendido. Hoje, relativizaríamos levando em conta o legado positivo que João Cabral e a poesia concreta por expressar questões importantes e ainda atuais.

O fato é que entendo a poesia do mesmo modo que Cacaso. Se ela perder aderência a vida, ao cotidiano, não tem serventia. Se ela servir apenas para mostrar o quanto o poeta é criativo, inteligente e está além do seu tempo ela pode até me tocar somente se expressar a transcendência de um paradigma ossificado que se esvaziou como expressão, como voz. Agora, se ela ficar expressando mais a vaidade e ambição do poeta não me serve como referência. Sei que é difícil captar esta faceta. Tem vaidosos e ambiciosos que são bons poetas. Enfim, quando o cara pensar em fazer algo que vá no sentido da proposta dos concretistas que queriam matematizar a poes ia, eis um bom sinal. Como já mencionei em outros momentos. Esta foi a senha para o Ferreira Gullar pegar seu chapéu imaginário e se bandear de vez da companhia dos seus então companheiros concretistas.

5 comentários

  1. A matéria parece desmerecer João Cabral de Melo Neto, induzindo o leitor a pensar que sua poesia possui um “caráter aristocrático”, que serve “apenas para mostrar o quanto o poeta é criativo”.
    Quem já leu ou assistiu “Morte e Vida Severina” fica na dúvida se o autor da matéria foi justo com João Cabral de Melo Neto.

  2. Reproduzi a opinião do crítico Paulo Sérgio Duarte sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto ao analisar a obra de Cacaso, que o respeitava. Apenas sua proposta era outra mais comprometida com uma construção poética mais coloquial e espontânea. Ambos os estilos poéticos podem e devem conviver sem problemas. Aliás, comento o valor positivo da poesia concreta e/ou cabralina, sem abdicar de poder exercer a crítica a alguns aspectos delas.

  3. Olá Benitz, não sei se entendi: então para o grande P.S.Duarte a poesia de João Cabral era “racionalismo construtivo”? Pra mim o poeta é muito mais que isso…

    Esclareço ao site que não havia feito esse comentário antes, não.

  4. Cara Maria Rita Kehl. Suponho que ele, Paulo Sergio Duarte, somente comentou acerca de que o Cacaso pensava ao dar um rumo diferente do de João Cabral de Melo Neto na poesia. Acredito que não é um juízo de valor dele sobre o valor, a importância, da poesia do grande poeta pernambucano. Como você sabe melhor que eu, a arte, a poesia não cabe dentro de nenhum espartilho. Ela é polissêmica. Cada leitor, espectador, pode ser um co- autor e co- diretor.
    Cacaso só entendeu, posso estar enganado, que o estilo cabralino não lhe servia. Era diferente demais da sua proposta prenhe de subjetividade e enfronhada da linguagem coloquial sem o distanciamento apurado do olhar do Cabral que depurava seu poema desta. Tanto que dizia colocar o poema em reserva por um longo tempo para vê- lo depois e assim decidir se ele ainda merecia ser trabalhado e publicado. Lembro, também, que Joao Cabral dizia querer ser engenheiro e pensava a poesia como uma construção.

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