Também tenho nome: é Mirtes Souza – a mãe negra que luta por justiça

Se sem justiça social não há paz, por outro lado, sem reescrevermos os procedimentos históricos pelos quais a justiça social possa ser justa, não haverá um país distinto daquele do velho e atualizado coronelismo

(Arquivo pessoal de Mirtes Renata Souza)

Também tenho nome: é Mirtes Souza – a mãe negra que luta por justiça

por Mirtes Renata Souza (Ativista por justiça social), Ellen Gonzaga Lima Souza (UFLA), Rosangela Malachias (UERJ) e Alexandre Filordi (UNIFESP)

Na parte em que aborda o sistema coronelista como um dos fundamentos da Velha República brasileira em Os donos do poder, Raymundo Faoro menciona algo que não deixou de ser fato no Brasil contemporâneo. Dentre os muitos agenciamentos de poder do coronelismo mutatis mutandis um se destaca e, provavelmente, transvestido de atualidade: no coronelismo se “converte o freio jurídico do governo no boçal caboclo”.

Em termos simples, o coronelismo é um marcador sócio-histórico de um país cuja justiça é feita para os ricos. Quem é pobre, negro e morador do periurbanismo sabe o que é ser abordado pelo poder policial; sabe o que é ser confundido com o bandido, afinal, bandidos são sempre estimados como negros; sabe também o quanto a sua vida é desprezada, juntamente com sua dignidade humana. Se não fosse assim, por que o caso Marielle Franco continua como está; por que os meninos mortos na Candelária vivificam outras chacinas; por que a polícia quando executa crianças negras, invadindo casas, não é julgada e punida com a mesma celeridade de seu racismo eugenista? Seria por que no coronelismo o freio jurídico do governo se converte no boçal caboclo, como presumia Faoro?

A morte de Miguel Otávio, de 5 anos, vitimado por uma queda do 9º andar do prédio “Torres Gêmeas”, no Recife, filho de Mirtes Renata Souza,  quando esta trabalhava para o casal Sari Mariana Gaspar Corte Real e Sergio Hacker não pode cair na vala comum dos poderosos brancos.

Em que pesem as devidas investigações processuais do caso, contudo, a própria situação já indicia o quanto de coronelismo há na morte de Miguel. Dando palavra à Mirtes Santana ela é enfática: “eles são poderosos, muito ricos e conhecidos”. O silenciamento por racismo de classe encontra-se no que conhecemos cotidianamente: “você sabe com quem está falando?”; “cidadão, não. Engenheiro formado”; “agora a Universidade está cheia de pretos” etc. Ser rico no Brasil é presunção de inocência, pois a riqueza é branca, fruto hegemônico da capitania hereditária que se atualiza de várias formas, porém, sem abrir mão da exploração dos pobre e dos negros, sobretudo.

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Sérgio Hacker contratava Mirtes de modo irregular, bem como a sua mãe, acumpliciado pelo cenário vicioso das correntes exploratórias de nossa sociedade. Claro, como prefeito de Tamandaré é poderoso. Mirtes era remunerada pela prefeitura para trabalhar na residência do prefeito, fato de gritante irregularidade. Sintoma do coronelismo brasileiro ou caso isolado? Mirtes ainda não recebeu o seu 13º salário e tampouco residuais financeiros a que tem direito.

Há mais. Diante de um corpo quase inerte, demandando por emergência, Sari fez escala no térreo para conversar com outra moradora, no lugar de dar ensejo direto à emergência: levar Miguel que ainda estava com vida para o hospital. Vidas negras importam? Mas antes mesmo disso, ela deixou Miguel ao seu próprio destino, em um elevador, contrariando a legislação de Recife: menores de 10 anos não podem usar elevadores sozinhos. Desde quando, porém, uma mulher branca, primeira dama afinal, fará papel de cuidadora de um menino negro, ainda mais filho de sua empregada?

Albert Memmi dizia que o “colonialismo é uma variação do fascismo”. No Brasil, o colonialismo dos coronéis é mais que variação do fascismo: ele é o próprio fascismo, no sentido de que prefigura a superioridade de sua condição e a perseguição dos que ali não se encaixam. Situa-se aí, por exemplo, o fato de a rede social de Mirtes Souza ter sido hackeada e todas as suas fotos com Miguel deletadas.

Mirtes trabalhava para quebrar os circuitos do colonialismo brasileiro. “Meu filho não será como eu, por isso eu fazia questão de pagar a escola para ele”, ela enfatiza. A consciência arguta desta mulher trabalhadora a compelia à valorização da formação de Miguel, pois como negra ela sabe quão árduos são a ascensão e o reconhecimento social, afinal de contas, no colonialismo ser negro é estigma.

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Por isso mesmo, a morte de Miguel reverbera o descaso do fascismo mencionado por Memmi com essas vidas que não importam aos ricos. Miguel, entretanto, é também João Pedro Mattos, Anna Carolina de Souza Neves, Kauã Vitor da Silva, Arthur Monteiro, Mizael Fernandes da Silva e sucessivamente. São filhas e filhos de trabalhadores honestos, contudo, destituídos do circuito da riqueza, do poder, do compadrio coronelista político-jurídico.

Mas perante os nomes dos poderosos, Mirtes Souza diz em alto em bom tom: “também tenho nome: é Mirtes Souza!”. Isto não é uma afirmação em busca de identidade, é um grito por justiça social. Michel Foucault denominava de “vidas infames” àquelas que são sabedoras do coeficiente de suas dores. No grito de Mirtes há algo sub-reptício: os poderosos não me constrangem e não me calarão, poderíamos dizer. Foucault insistia em afirmar: as vidas infames são justamente as vidas que produzem o real da história e clamam por justiça a todo instante, embora ignoradas pelo sistema de poder vigente. Os poderosos só são capazes de produzir situações para silenciar e tornar invisível a causa das vidas infames senão encabrestando a justiça, reduzindo-a a um “boçal caboclo”.

Mas isso não permitiremos, pois há mais de 500 anos é precisamente o que ocorre no Brasil. Se sem justiça social não há paz, por outro lado, sem reescrevermos os procedimentos históricos pelos quais a justiça social possa ser justa, não haverá um país distinto daquele do velho e atualizado coronelismo.

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Entrementes, já temos bons sinais dessa reescrita. Em entrevista concedida em 5 de julho, ao Fantástico, programa da Rede Globo de televisão, Sari Corte Real afirmou: “fiz o que pude”, respondendo à questão sobre sentir arrependimento ou culpa de ter deixado Miguel sozinho dentro do elevador. À quem assistia coube a indignação manifestada em milhares de twittes na internet e panelaços clamando #Justiçapormiguel.

Miguel não é apenas uma memória latente de nossas injustiças. Miguel é um devir: devir-justiça, devir-igualdade, devir-criança, devir-vida-livre, devir-Brasil-outro, devir-negro, sem perdermos de vista o indicativo de Achille Mbembe: “a vida é aquilo que a luta tiver produzido”.

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5 comentários

  1. Excelente abordagem. Reverência à iniciativa dos pesquisadores que colocaram as Ciências Humanas no seu campo prático na luta por consciência e justiça.

  2. Ampla e conciso trabalho, com detalhes que muitas vezes são ocultado nas narrativas dos fatos imprimindo um tom de naturalidade a essa realudade absurda. Grato pelo trabalho.Reaja a violência de nossa sociedade.

  3. Excelente abordagem! Além do artigo ser objetivo e claro, também traz uma elucidação didática fundamental sem a qual, bem como trata o artigo, não conseguiremos paz. As autoras nos mostram que para haver justiça social precisamos olhar para o passado com a finalidade de entendermos o processo social e histórico que culminou em algo que perdura até hoje: o velho e o novo coronelismo.Ou seja, olhar para o passado não é aperfeiçoar os erros, mas mudarmos o presente e o futuro. Ao olhamos para o passado devemos olhar de forma crítica, ponto que acredito ter sido muito bem levantado pelas autoras. No presente artigo, as autoras colocam a questão fundamental do fascismo que está presente em nossa sociedade através do coronelismo, muito bem citado, que impera livre e impune. Parabéns as autoras que, de forma sucinta nos dizem, através desse texto tão importante, que é imprescindível combater a raiz dessa triste realidade e não as causas. Parabéns!

  4. Excelente abordagem! Além do artigo ser objetivo e claro, também traz uma elucidação didática fundamental sem a qual, bem como trata o artigo, não conseguiremos paz. As autoras nos mostram que para haver justiça social precisamos olhar para o passado com a finalidade de entendermos o processo social e histórico que culminou em algo que perdura até hoje: o velho e o novo coronelismo.Ou seja, olhar para o passado não é aperfeiçoar os erros, mas mudarmos o presente e o futuro. Ao olhamos para o passado devemos olhar de forma crítica, ponto que acredito ter sido muito bem levantado pelas autoras. No presente artigo, as autoras colocam a questão fundamental do fascismo que está presente em nossa sociedade através do coronelismo, muito bem citado, que impera livre e impune. Parabéns as autoras que, de forma sucinta nos dizem, através desse texto tão importante, que é imprescindível combater a raiz dessa triste realidade, isto é, precisamos neutralizar as causas, não as consequências. Mais uma vez, parabéns!

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