Tempos de escassez, por Cleusa Slaviero

Mas não sei, não está fácil, há uma escassez tão absurda de simpatia, de educação, de respeito, de querideza, de responsabilidade. Porque a gente leva muita paulada.

Tempos de escassez, por Cleusa Slaviero

Que dia triste. Que dia difícil.

Assisti as imagens do ataque na escola Raul Brasil. A perplexidade mascara o pavor. O rapaz atirando e os atingidos indo ao chão foi uma cena bárbara. E o que foi aquele ataque contra os jovens já no chão indefesos? E a menina interceptada, que por sorte conseguiu se soltar e fugir? As cenas de adolescentes fugindo e passando apavorados pela entrada do prédio quando se deparam com um dos atiradores e recebem machadadas é impactante demais. Porque eles estavam fugindo e foram para o lado onde tinha outro atirador, imaginem o pavor? E os outros pulando muros desesperados e correndo tão longe sem a noção do quanto precisa ir pra estar seguros. São cenas muito fortes. E tem os gritos de horror e desespero. É dramático demais. Eu sinto demais por eles todos, pelas vítimas que morreram e os que passaram por isso e terão de encontrar uma forma de superar.

A gente nunca vai esquecer dessas cenas.

Vi um jornalista abordando sem nenhuma compaixão a Tatiana Taucci, mãe do atirador mais novo, mulher bem nova. Aquilo também me deixou muito triste. Ela tinha acabado de perder um filho também, e a situação dela é apavorantemente delicada. Achei hediondo o jeito do repórter. O que a mãe tinha pra dizer se só queria poder chorar? Penso no desespero interior que ela sentia. E a Band só pensando em audiência colocou no ar aquela desumanidade com uma mãe que recém perdeu o filho, que não sabia o que pensar e o que dizer, e numa tragédia de proporções muito acima do que imagino ela terá como bem suportar. Além dos alunos e funcionários, o filho dela matou o próprio tio minutos antes do massacre. Pelo o que entendi, matou o irmão do pai dele.

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Ler todas as histórias me deu um desespero também.

A merendeira que abrigou 50 alunos e usou o freezer como impedimento de acesso e os fez ficar quietos deitados me fez sentir um amor tão grande, porque me emocionam os que conseguem reagir positivamente imediatamente nas situações de extrema tensão.

Brumadinho esfacelou os nervos e ânimos da gente, e hoje vivi intensamente os sentimentos tristes em desacordo com a vontade imensa de reagir e sair desse astral desumanizado e frio no qual estamos mergulhados já faz tanto tempo. Senti um angustia muito forte.

Para complementar revisei a história do gauchinho morto pelo pai e pela madrasta, recordei a monstruosidade dos assassinos, pai, madrasta e um outro casal. Recordei a incapacidade de as pessoas terem reações conexas com os fatos, o que poderia ter salvado o garotinho do que passou e da morte, e tudo isso me faz pensar no que parece normal e eu olho e penso: não! Não era pra ser assim. Desde a indiferença de um familiar, até o voto num homem com comportamento desprezível. A incapacidade de as pessoas terem dado a mão ao menino que tanto implorou ajuda, é igual a capacidade de votar em quem diz as barbaridades que Bolsonaro dizia antes de ser eleito, e mantém, reiterando sempre que pode. Ambas as situações favorecem o cenário trágico de Suzano. Por isso precisamos buscar fazer de nossas mentes, de nossos corações, de nossas abordagens e de nossas relações, mais saudáveis.

Não sei se todo brasileiro morreu um pouco hoje, mas muitos sim. Nos unimos em respeito às vítimas, em solidariedade aos familiares, por Suzano e pela Escola Raul Brasil.

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Mas não sei, não está fácil, há uma escassez tão absurda de simpatia, de educação, de respeito, de querideza, de responsabilidade. Porque a gente leva muita paulada. Num dia como hoje vem um político, um senador que diz uma besteira imensa sobre armar professores com armas de fogo. A discussão séria sobre como conduzir o Brasil pra fora de tanta desgraça não estão fazendo. Só fazem manter presa a esperança de milhões. A falta de liderança é naufrágio certo. Se um lado contribui muito pra entristecer o nosso país, creio ser necessário todos pensarmos sobre se contribuímos e quanto e observarmos como cada um está reagindo. A hora mesmo é de reagir como a Silmara, a merendeira querida. Em vez disso, lá estão uns de um lado e outros de outro, brigando, se agredindo porque uns querem armar e outros querem desarmar. Mas há os que querem amar e serem amados.

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1 comentário

  1. Obrigada por sua reflexão. Suas palavras trazem conforto para os que lutam contra essa violência epidêmica. É preciso reagir contra o fascismo e derrotá-lo, assim nos ensina a história.

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