Todas as revoltas e revoluções fracassaram. Mas elas voltarão inevitavelmente, por Wilton Cardoso

Nesta encarnação do capital nos indivíduos, a complexidade humana e sua imensa riqueza afetiva, racional, simbólica e técnica deve se reorganizar de modo a se subordinar a duas características básicas que definem o sujeito automático.

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Todas as revoltas e revoluções fracassaram. Mas elas voltarão inevitavelmente

Por Wilton Cardoso

Do blog do autor

Continuação do texto Todas as revoltas e revoluções fracassaram. E ainda fortaleceram o capitalismo

Em menos de 300 anos o capitalismo criou mais progresso técnico e riqueza material do que toda a humanidade pré-capitalista, além de produzir alimentos, inventar tratamentos médicos e proporcionar confortos cotidianos em quantidade e qualidade inimagináveis antes dele. No entanto, com toda essa exuberância e dinamismo fáustico, o capitalismo é insuportável para os humanos. Por vários motivos.

Um deles, é que se trata do único sistema social inventado pelo homem em que há fome em meio à fartura alimentar. Nas sociedades pré-capitalistas só havia fome quando faltava comida, por conta de pragas ou desastres naturais. A fome em meio à abundância é a expressão de um problema mais profundo do capitalismo, que é sua tendência incontornável à concentração de renda e riqueza, agravada por relações sociais abstratas que constituem os indivíduos como produtores isolados de riqueza, aprofundando o individualismo egoísta e a avareza, e corroendo os laços comunitários a ponto das pessoas não se sentirem responsáveis pelos desgraçados de sua comunidade. Quem se importa com os noias famintos e esfarrapados nas calçadas ou que nos incomodam no sinal pedindo moedinhas?

Além da tendência à concentração de renda e riqueza, que cria tensões sociais e uma luta de classes permanentes, o capitalismo provoca um mal estar constante nas pessoas por outro motivo não tão aparente, mas muito poderoso, que é a redução da imensa complexidade e riqueza espiritual do ser humano ao que Marx chamava de sujeito automático, que é o próprio capital e suas leis mercantis, operando por trás das vontades supostamente livres dos indivíduos.

O sujeito automático/capital precisa se encarnar nas pessoas concretas como sujeito universal abstrato, formal e vazio de conteúdos, concebido como indivíduo isolado (necessário à sua condição de produtor isolado de mercadorias) que vê o mundo, a sociedade e os outros indivíduos como objetos, o que, de início, subordina sua vida concreta à uma existência subjetiva abstrata, adequada à reprodução do capital – valor que se valoriza ou dinheiro que deve gerar lucro, ou seja, uma riqueza também abstrata.

Nesta encarnação do capital nos indivíduos, a complexidade humana e sua imensa riqueza afetiva, racional, simbólica e técnica deve se reorganizar de modo a se subordinar a duas características básicas que definem o sujeito automático. A primeira é racionalidade instrumental que se utiliza da razão como meio para a reprodução do capital. A segunda é a competitividade, necessária à impiedosa guerra entre capitais particulares que acelera a acumulação e que, em nossa época neoliberal, deixou de ser apenas concorrência empresarial e se tornou também uma disputa individual de todos contra todos, na medida em que cada pessoa se torna um capital humano individual.

Esta redução da concretude humana à abstração do sujeito automático e a subordinação de sua complexidade existencial a apenas dois aspectos essenciais (racionalidade instrumental e competitividade), embora naturalizada e, por isso, quase não seja percebida, é responsável por um grande e constante mal estar da civilização moderna, talvez até maior do que o mal estar provocado pela desigualdade, mais evidente no capitalismo.

Em momentos de bonança capitalista, quando a desigualdade pode ser mitigada ou até diminuída, o desconforto da redução do ser humano ao sujeito automático é compensada pela prosperidade relativa das massas. Em momentos de crise, as desigualdades se aprofundam e, primeiramente, a luta de classes se acirra, com a insatisfação dos perdedores (pobres) da luta capitalista. Se a crise não for logo superada, o desconforto com a redução do humano ao sujeito automático logo vem à tona e o que começa como crise econômica se torna uma crise existencial do próprio capitalismo e seus sujeitos, se expandindo para as esferas da política, da moral e da intimidade.

O fascismo como revolta inconsciente contra o capitalismo

É nesse momento de crise existencial que as revoltas e revoluções acontecem inevitavelmente, como previra Marx. E é neste tipo de crise em que estamos mergulhados desde a explosão da bolha imobiliária de 2008. Os efeitos nocivos do capitalismo emergiram novamente com força, não apenas na forma de desigualdade, mas também e principalmente o problema da desumanização do humano, ou seja, a redução do indivíduo concreto ao sujeito automático abstrato do capital. Este duplo afloramento dos males capitalistas tornam irrespiráveis os ares das cidades e estão provocando insatisfações, revoltas e convulsões sociais por todo o planeta.

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Talvez por faltar-lhes uma teoria do inconsciente, o que todos os utopistas, entre eles Marx e os marxistas em geral, não previram é a forma como as revoltas e revoluções podem se manifestar. Usualmente, concebemos as revoltas do povo como mobilizações coletivas marcadas pela consciência de seu adversário e nobreza em sua finalidade. As massas sabem, ou deveriam saber, que a luta é contra o capitalismo ou, pelo menos, alguns de seus efeitos maléficos, como a desigualdade, a exploração do trabalho, a discriminação das minorias, a destruição da natureza etc. E a finalidade das revoltas é sempre nobre, ou seja, alcançar um mundo em que esses malefícios são minimizados ou mesmo abolidos.

Mas as revoltas podem ser inconscientes e destrutivas, cujos resultados são ainda mais devastadores para o indivíduo e a coletividade do que os provocados pelo capital. Os revoltosos podem não saber que é contra o capitalismo e seus efeitos danosos que se eles se rebelam. E que seus objetivos reais, também inconscientes, não são um mundo melhor e mais justo, mas a destruição pura e simples do mundo. Esta revolta imprevisível, irracional e que irrompe de forma raivosa e quase que espontânea entre as massas, organizando-as como uma horda política implacável e feroz é o que conhecemos por fascismo, em suas várias vertentes e contingências históricas: italiano, nazifascismo, franquismo, bolsonarismo etc.

Como já demonstrei em outro ensaio, o fascismo se opõe ao capitalismo ponto a ponto, como se fosse seu espelho sombrio, mas sem consciência dessa oposição. Às massas capitalistas estratificadas em classes sociais de forma abstrata, pela posse ou não de capital, o fascismo forma uma maioria (comunidade, nação) concreta sob a liderança de um pai implacável (tirano) e definida por critérios não econômicos, como raça, religiosidade, nacionalidade, gênero, orientação sexual etc. À competitividade, os fascistas opõem uma solidariedade doentia, fundada na vigilância paranoica entre os seus membros e no ódio ao inimigo, que servirá de cimento à maioria concreta. E, finalmente, contra racionalidade instrumental do capitalismo, o fascismo opõe, não uma razão alternativa, mas a irracionalidade absoluta que tem como objetivo a destruição pela destruição.

A revolta do fascismo contra o capital, travada de forma inconsciente, aparece na consciência dos sujeitos como uma luta contra a corrupção (econômica, moral, política) e os grupos sociais que supostamente a promovem, e que variam conforme o contexto social: judeus, negros, comunistas, LGBTs, ativistas etc. O objetivo do movimento fascista, de destruição pela destruição, também inconsciente para o sujeito paranóico que ele engendra, é por ele percebido como purgação do mal e da corrupção, para a qual se fazem necessárias a liderança autoritária e a ação violenta do estado (opressão, prisão, tortura, morte) contra os grupos supostamente corruptores da sociedade.

Nos delírios do sujeito paranoico, após a purgação violenta do mal, emergirá um mundo adâmico, purificado de todas as corrupções, uma espécie de éden anterior ao pecado original. Mas no fundo (no inconsciente) seu desejo verdadeiro e verificável, pois é realizado na prática por cada cada avanço do movimento fascista, é a devastação apocalíptica do mundo. O nirvana buscado pelo fascista não é a harmonia primordial do éden, mas a paz dos cemitérios de um mundo distópico, devastado pela morte e a destruição.

O fascismo como revolução imprevista

O capitalismo é uma estrutura que instaura o determinismo econômico em meio à realidade essencialmente indeterminada. Uma boa ilustração disso é o fato de que as tendências espontâneas do sistema, previstas por Marx a partir da lei do valor-trabalho, estão se concretizando independente das vontades políticas democráticas ou de certos grupos dominantes. Como exemplo da realização das tendências espontâneas do capital, pode-se citar a queda da taxa de lucro, a automação crescente, a necessidade de se produzir cada vez mais mercadorias e a expansão do capital para todas as esferas da vida, entre outras.

Mas isso não quer dizer que o capitalismo seja uma totalidade inviolável, que bloqueie toda e qualquer possibilidade de crítica ou prática emancipatória. Ao se realizar como destino pré-determinado para manter a reprodução do capital, o sistema acumula crescentes contradições internas, que provocam mal estar social e psíquico: fome em meio a abundância de alimentos, desigualdades sociais abismais, sofrimento dos sujeitos perdedores na competição capitalista, mas também sofrimento psíquico de todos os sujeitos, cuja psique se reduz à racionalidade instrumental e à competitividade, para que as pessoas sirvam à reprodução do capital, tornando-se máquinas de trabalhar, negociar e consumir – homo economicus.

O capital necessita das pessoas para se reproduzir e realizar o capitalismo como estrutura determinista. Mas ao servir-se do humano, ele o sufoca enquanto tal. Na esfera subjetiva, a reprodução do capital provoca sofrimento psíquico ao reduzir a alma às abstrações do sujeito automático. Na esfera coletiva, corrói o tecido social ao promover desigualdades abissais e solapar as relações concretas da comunidade. No plano ecológico, destrói o suporte vital da humanidade ao promover a degradação do meio ambiente, decorrente da exigência da produção crescente de mercadorias.

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Estas fissuras do sistema capitalista, cedo ou tarde, começam começam a abalar sua estrutura. Abalo que se explicita em momentos de crise econômica aguda, quando transborda da economia para todas as esferas sociais (política, moral, instituições) e para a subjetividade dos indivíduos. Ocorre, então uma reação aos “abusos” do capital contra a psique e a comunidade humanas. Ao individualismo dos interesses isolados se contrapõem a politização em direção ao destino coletivo; às relações abstratas e impessoais do mercado e do estado, se opõem uma comunidade e indivíduos concretos, não mais definidos pela posse de riqueza abstrata (dinheiro) nem regulados pela burocracia estatal; à competitividade, algum tipo de solidariedade; e à razão instrumental uma outra racionalidade ou a irracionalidade pura e simples.

Os momentos de crise do capitalismo e as revoltas inevitáveis das massas foram previstos por Marx e pelos vários marxismos como oportunidades de emancipação, propícias à tomada de consciência dos malefícios do capitalismo e a ação revolucionária que, para o marxismo ortodoxo, viria dos trabalhadores, que produzem de fato a riqueza (capital) mas não se apropriam dela, tornando-se os perdedores humilhados do sistema.

O que os marxismo não previu é que as revoltas e convulsões sociais contra o capitalismo, embora inevitáveis, poderiam se dar de forma inconsciente, na forma de fascismo. Que as pessoas, independente de classe social e de formação intelectual, poderiam não ver que a causa das crises e do sofrimento social e psíquico da civilização moderna é o capitalismo e sua lógica mercantil introjetada nas pessoas como sujeito automático. Essa impossibilidade da tomada de consciência de que o capital é a causa real do mal estar civilizacional na sociedade moderna e pós-moderna conduz as pessoas, no momento decisivo da crise, a um outro tipo de revolta ou revolução anticapitalista, não emancipatória, mas puramente destrutiva e autodestrutiva, o fascismo.

O fascismo como parasita do capitalismo

O fascismo se torna, então, um movimento com potencial revolucionário, que subverte o capital, suas categorias e leis, não abolindo-as para construir um outro sistema social fundado em novas formas de sociabilidade, mas se instaurando ao lado do capital como um parasita que se alimenta da potência produtiva do capitalismo, cujo fim último deixa de ser a produção de valor e mais valor e passa a ser a produção de destruição, violência e morte.

No plano subjetivo e político, a competitividade é parasitada pela solidariedade doentia que forma uma maioria cuja identidade se constitui pelo ódio ao outro e pela vigilância paranoica entre os seus. Maioria, por sua vez, que não se define primariamente de forma universalista e abstrata como elite econômica que tem a posse do capital, mas de forma hierárquica e por meio caracteres concretos extra-econômicos, para além das divisões de classes, como religião, gênero, sexualidade, raça, engajamento político etc. Por exemplo, para pertencer à maioria bolsonarista, mais importante que ser rico é ser hétero, cristão e “de direita”.

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Ainda no plano subjetivo-político, a racionalidade instrumental capitalista continua operando no fascismo, mas sua finalidade apenas na aparência é a produção de valor. Na prática, a razão instrumental é parasitada pela irracionalidade absoluta e passa a ser um meio para a produção da destruição, inclusive da própria economia capitalista. Por isso os liberais, que vocalizam os interesses do capital e que inicialmente tentam instrumentalizar os fascistas para combater as esquerdas, acabam se voltando contra o fascismo, quando percebem que ele representa uma ameaça existencial ao próprio capitalismo e suas elites econômicas.

Como toda a revolta fascista, que eventualmente pode descambar para uma revolução apocalíptica, acontece de forma inconsciente para os sujeitos, tudo se passa como se o capitalismo ainda continuasse a operar, com certos capitais particulares mais selvagens ganhando proeminência. Por isso a direita liberal inicialmente vê nos fascistas um aliado tático contra as esquerdas. E estas, em geral, costumam vê-los como fantoches das elites liberais, como sua estratégia violenta para a manutenção do poder político e econômico. Os progressistas e principalmente os liberais têm dificuldade em perceber a natureza irracional e destrutiva do fascismo, o qual, à medida que se fortalece e se consolida como movimento revolucionário, se volta contra o próprio capitalismo e suas instituições, não poupando inclusive a elite liberal.

Conclusão: a revolução apocalíptica do fascismo

As revoltas anticapitalistas fracassam por não questionarem as categorias básicas do capital, como o trabalho e a mercadoria, mas elas sempre voltam em momentos de crise estrutural do sistema, quando a angústia, o medo e o ressentimento afloram e a vida se torna insuportável para as pessoas, reduzidas a sujeitos abstratos do capital. Este ‘eterno retorno’ da revolta do humano reprimido contra o deus frio e abstrato do capital nem sempre se dá pelas vias da consciência e da racionalidade, como tentativa da realização utópica de uma sociedade mais racional e solidária, emancipada da lógica da mercadoria, como desejaram os vários marxismos e a contracultura.

A revolta e as revolução podem ser reacionárias, que anseiam pelo retorno de sociabilidades arcaicas, hierárquicas e opressivas. Ou, pior ainda, pode tomar a forma de fascismo, cujos desejos e desenvolvimentos principais se dão à margem da consciência. E cujo objetivo, também inconsciente, não é a construção de uma sociedade assentada em outra racionalidade, seja ela regressiva ou emancipatória, mas a destruição pura e simples, promovida pela irrupção da fúria irracional: abolição violenta e apocalíptica da sociedade capitalista, de seus sujeitos e da natureza.

A crítica empreendida pelo fascismo contra a corrupção inerente às instituições democráticas liberais e as reivindicações de sua abolição, como o fechamento do parlamento e encerramento do judiciário, são justas e semelhantes às críticas e intenções de todos os revolucionários, sejam eles comunistas, contraculturais ou reacionários. Como são semelhantes, em todas as revoltas com potencial revolucionário, o contágio do povo pelo espírito rebelde e a vontade de mudança, liderada por grupos de vanguarda bastante ativistas e agressivos. Mas o intento da revolução fascista é a instauração de uma tirania centrada no líder, cujo objetivo é apenas a devastação do mundo, sem nenhum projeto de poder a longo prazo. O contrário, por exemplo, do caso iraniano, cuja revolução reacionária instaura uma tirania que busca construir uma nação fundada na restauração de uma sociabilidade islâmica rigidamente hierárquica e diretamente opressiva no plano dos costumes, contraposta às coerções indiretas da democracia liberal, mas sem romper com o capitalismo.

A tirania fascista, apesar de sua megalomania e delírios de eternidade, não visa construir, na prática, nenhum projeto de poder ou forma durável de sociabilidade autoritária. A tirania é apenas a forma política utilizada como instrumento para a condução da guerra infinita contra os inimigos internos e externos, reais ou imaginários. O tirano fascista (o führer, o duce, o capitão), menos que um líder político, é o general grotesco no comando das hordas de guerreiros bárbaros (sujeitos paranoicos) em que as massas se transformam. Sua política é a guerra, sua linguagem é a violência e sua ‘utopia’ é a devastação apocalíptica do mundo.

 

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