Tormentas, por Daniel Afonso da Silva

Tormentas, por Daniel Afonso da Silva

Sim: conflitos e crises continuam em 2016.

Uma rápida sondada no mais recente Crisis Watch do International Crisis Group[1] permite constatar que nenhuma região ou microrregião de qualquer parte de qualquer dos continentes passa incólume a conflitos e crises neste ano que vai começando. A demonstração desse fato não chega a espantar. Muitas das crises estão instaladas ou previstas há anos. Algumas com raízes que enlaçam decênios e até séculos. O novo talvez seja que ao menos desde 2010-2012 elas passaram a ser progressivas e sobrepostas.

De Paris a Macau a Caracas a Damasco a Lisboa a Nova Iorque a Trípoli a Johanesburgo a Brasília a Kabul a Bagdá o “estamos em crise” virou a palavra de ordem de todo cidadão, que em iminente desespero invade ruas ou/e redes sociais demandando de seus mandatários – locais, regionais, mundiais – dias melhores.

O futuro e o passado passaram, assim, a sucumbir diante da ubiquidade da urgência presente.

De 1944 a 1989-1991 havia certo padrão de crises e conflitos ancorados, quase todos, na tensão Leste-Oeste. De 1991 a 2001 esse padrão passou a revelar as fraturas políticas e sociais desse mundo pleno em rugosidades ocultado pela disputa ideológica. De 2003 a 2009 os desvarios da guerra ao terror monopolizaram a cena. Mas depois veio o dilúvio de crises que nos toca viver.

Os escândalos na gestão das crises no Iraque, na Bósnia, em Ruanda sem contar as crises financeiro-econômicas na Rússia e nos tigres asiáticos e suas repercussões em sistemas bancários de países sul-americanos como o Brasil deram uma mostra fiel do novo sentido da História para muito além de seu fim ao longo dos anos de 1990.

A globalização/mundialização virou o mantra de todos. A financeirização ostensiva traduzida em privatizações muita vez ofensivas passou à marca dos tempos. O agrupamento de países em plataformas regionais estilo Mercosul, NAFTA, ASEAN foi se afirmando com estratégia de sobrevivência num mundo pretensamente liderado e conduzido por uma única superpotência, os Estados Unidos da América, creditícia da ideia de um sistema internacional “unipolar”. Mas veio o 11 de setembro de 2001 para demonstrar que tudo era muito mais complexo que as explicações.

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O sentido da “unipolaridade” desapareceu para sempre após 2001 e a desmoralização das Nações Unidas efetuada pelos Estados Unidos que investiu contra o Iraque em 2003 a despeito do veto do Conselho de Segurança foi passageira e o presidente Obama seria eleito em 2008 para afirmar ao menos duas dimensões da ação exterior norte-americana: a) o desengajamento e b) a auto-suficiência energética.

A primeira envolveu essencialmente negar e superar os efeitos do voluntarismo arbitrário e deveras desastroso de seus antecessores e mais precisamente do presidente Bush. A segunda para garantir a manutenção da soberania dos Estados Unidos em médio e longo prazo. Ambas vão entrelaçadas.

A projeção de desengajamento relativo dos Estados Unidos de eixos de crise especialmente na África, no Oriente Médio e na Ásia impôs o retorno imediato das Nações Unidas e demais organizações multilaterais públicas e privadas à resolução de crises locais, regionais e globais. Os fantasmas do Vietnã amplificados pelos do Iraque e do Afeganistão levaram o presidente Obama a ser mais e mais hesitante na autorização de intervenções militares, paramilitares e mesmo não-militares para além de suas fronteiras. Ele aprovaria a participação de seu país na investida na Líbia de Gaddafi em 2011 por pressões até o presente não completa e profundamente explicadas.

Em verdade, o “salve-se quem puder” da crise financeira de 2007-2009 levou os Estados Unidos ao ensimesmo. Os principais países europeus seguiram a mesma tendência. A magnitude e a gravidade dos problemas internos apequenaram a legitimidade para ações externas de todos eles. Isso levou os países emergentes a parecerem, por alguns instantes, os donos do jogo internacional. Essa sensação durou pouco. Entre 2010 e 2012 os países estabelecidos conseguiram estancar sua hemorragia financeira e os países emergentes adentraram no malaise que vivem, uns mais outros menos, até o presente.

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O paradoxo do após 2010-2012 vem sendo o desengajamento voluntário e involuntário de todos. A retração norte-americana dos cenários de crise contagiou os europeus e intimidou os países emergentes. O fenômeno Daech consiste apenas num dos despojos dessa retração.

A sincronia e a sobreposição de crises e conflitos preocupam ou deveriam preocupar. Crises político-econômicas vividas, por exemplo, no Brasil possuem níveis de concomitância com as crises institucionais líbias e sírias; basta observar as demandas permanentes de ingresso de refugiados dessas nacionalidades em território brasileiro e o relativo constrangimento brasileiro em recebê-los.

O grande desafio para 2016 e adiante parece ser concretamente encontrar saídas, políticas e diplomáticas, para ao menos estancar essas tormentas locais, regionais e globais que desde 2010-2012 só fazem aumentar.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

 

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