Trabalhador perde emprego e renda, mas o banqueiro pode engordar lucros, por Lauro Veiga Filho

Foi a primeira vez que o BB fez uma “cessão” de carteira de crédito a instituição que não faz parte de seu conglomerado.

Tiago Hoisel

Trabalhador perde emprego e renda, mas o banqueiro pode engordar lucros

por Lauro Veiga Filho

Que tal uma pechincha em tempos de pandemia? Quem poderia resistir, não é mesmo? Muitos até se arriscariam a abandonar o isolamento por causa de um bom negócio. Um bom negócio não, um excelente negócio. Afinal, ofereceu-se, no caso em questão, um generoso “desconto” de pouco mais de 87%. Para não restarem dúvidas: o cliente paga menos de 13 reais por algo que vale 100 reais, em valores proporcionais, claro, porque o negócio foi literalmente bilionário. Mas não é para o bico de qualquer um. É necessário ser banqueiro, mas não apenas, precisa ser um banqueiro amigo.

Também é necessário ter, nos postos de comando da economia no País, economistas alinhados com um certo tipo de pensamento ultraliberal, daqueles que acreditam de que tudo o que é público é ineficiente, dá prejuízo e torna a economia como um todo ineficiente. A crença justifica toda a sorte de jogadas e negócios muito especiais, já que se trata de defender um alegado bem maior (ou seja, o enxugamento do Estado e, talvez, sua destruição final).

No dia 1º, em comunicado ao mercado, o Banco do Brasil avisou que estava inaugurando uma nova forma de fazer negócios. Mais precisamente, diz a nota, tratava-se ali de um “piloto modelo de negócios recorrente que o BB está desenvolvendo para dinamizar ainda mais a gestão de seu portfólio de crédito”. Sofisticado, não? Mas de que se trata esse “modelo”? As linhas acima não poderiam ser mais esclarecedoras: o banco público, quer dizer, de todos os brasileiros, decidiu fazer o que o jargão do mercado chama de “cessão de carteira de crédito”, conforme o BB, “majoritariamente em perdas, a fundo de investimento em direitos creditórios não padronizado (ou seja, que pode investir em formatos diversos de crédito e recebíveis de empresas e bancos, incluindo aqueles já vencidos e não pagos) e exclusivo administrado pelo BTG Pactual Serviços Financeiros S.A. DTVM”.

De pai para filho

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Foi a primeira vez que o BB fez uma “cessão” de carteira de crédito a instituição que não faz parte de seu conglomerado. E a novidade não estava apenas no formato da operação. O banco público, vale repetir, de todos os brasileiros, decidiu “ceder” a carteira por meros R$ 371,0 milhões por um conjunto de créditos não liquidados com valor contábil de R$ 2,90 bilhões. Houve, aqui, um deságio (“desconto”) de 87,21% a se considerar a avaliação contábil da carteira. Por que meramente contábil? Porque o banco admite que são créditos de difícil liquidação e que, portanto, muito dificilmente seria possível recuperar todo o valor estimado para a carteira. Então justifica-se o desconto, já que nem o banco acredita que conseguiria reaver aqueles R$ 2,90 bilhões. Supostamente. Mas quem sabe quanto seria de fato possível reaver? O histórico do banco parece contar uma versão diferente.

Baixa inadimplência

Para dar a dimensão do negócio, comparada com a carteira total de crédito do BB, que estava em R$ 662,11 bilhões em março deste ano, a participação da carteira transferida ao BTG Pactual seria de 0,44%. Se for comparada à carteira de títulos e valores mobiliários, que havia alcançado R$ 63,026 bilhões também em março deste ano, a fatia eleva-se para 4,6%.

Ao longo dos últimos trimestres, o saldo das perdas com créditos lançados como de difícil liquidação havia recuado de 3,85% sobre a carteira total de crédito para 1,72% entre o primeiro trimestre de 2018 e o mesmo período deste ano. A inadimplência, considerando operações em atraso com maior de 90 dias, havia evoluído de 3,0% para 3,2%, enquanto os créditos alocados na faixa mais baixa de classificação de risco (aqueles com maior risco de insolvência) variaram de 2,9% para 3,9% do crédito total.

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Os indicadores de insolvência nas operações regulares do BB estão longe de indicar riscos de perda naqueles níveis, quer dizer, ao redor de 87%. Claro, há sempre a possibilidade de que o banco público tenha reunido num mesmo pacote apenas créditos podres, com indicadores de recuperação muito piores do que a média. Ainda assim, os riscos de prejuízo poderiam ser minimizados se a carteira tivesse sido oferecida numa operação mais transparente, por meio de um leilão público, por exemplo.

Num mero exercício hipotético, em caso de o BTG conseguir reaver “apenas” 20% da carteira que assumiu, conseguiria um retorno 56% maior do que o valor pago. Um ganho expressivo para um País que convive com uma inflação de 2,13% acumulada nos 12 meses encerrados em junho. Mas suponha que os risco de perda fique um pouco acima da média registrada pelo BB nos últimos anos, algo em torno de 5%. Neste caso, absolutamente hipotético, os lucros podem ser 7,4 vezes maiores do que o dinheiro desembolsado pelo banco privado.

Arrocho no mundo real

A operação é questionável ainda num momento em que micro e pequenas empresas estão sendo dizimadas pela crise porque perderam receitas drasticamente e não conseguem ter acesso às linhas de crédito criadas para socorrê-las. Conforme já divulgado (Folha de S.Paulo, 05/07/20), de quase R$ 70,0 bilhões anunciados, apenas R$ 12,1 bilhões havia sido liberados, perto de 17% do total, até o começo de julho, quatro meses depois de instalada a crise sanitária. Entre 17 de maio e 13 de junho, segundo o IBGE, foram fechados 1,3 milhão de empregos e mais 1,8 milhão de trabalhadores entraram para a fila do desemprego, amargando perdas de renda e retrocesso social.

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