Três sugestões para os que ainda disseminam o ódio contra o PT, por Álvaro Miranda

A mordida na maçã no mito bíblico de Adão e Eva quer dizer que somos versados no bem e no mal. Ou seja, política não é para ingênuos ou puristas em busca da beatitude celestial.

Três sugestões para os que ainda disseminam o ódio contra o PT

por Álvaro Miranda

Três questões para os que se desencantaram com Bolsonaro e àqueles que também não votaram em Haddad e continuam achando que o problema do país é a “corrupção do PT”. Aqueles que dizem assim: Bolsonaro, não, mas PT nunca mais!

Em primeiro lugar, a crise da representação política não é de natureza moral ou de competência de especialistas. A crise da democracia faz parte da própria crise estrutural do capitalismo. Se acham isso muito abstrato, comecem a pensar na necessidade de se compreender os problemas atuais a partir da conexão entre capital, estado e democracia. Salvadores da pátria não existem nem à esquerda, nem à direita.

Em segundo lugar, em país algum do mundo governos só acertam ou só erram, com exceção, até agora, de Bolsonaro, que parece representar um ponto fora da curva internacional no sentido de só cometer erros, absurdos e vexames.

No lastro do primeiro item, podemos dizer que o problema não são os indivíduos, mas sim as instituições e o modelo de sociedade. Se continuam achando muito abstrato, façam um levantamento dos casos de corrupção e verifiquem como o fenômeno vem acontecendo muito antes dos governos do PT, inclusive desde o período da ditadura (1964-1985).

Nesse sentido, a não ser para ser engolfado pela manipulação golpista, fica injustificável e indefensável esse ódio em relação ao PT, como se fosse o partido demiurgo do sistema da roubalheira. Sem falar que corrupção existe em todos os países – e o exemplo mais eloquente, em conexão com nossos problemas, são as grandes petrolíferas e empreiteiras multinacionais que construíram seu império mundo afora na base sempre da corrupção de políticos, governos locais e empresários.

Só pessoas com tendências messiânicas leriam o parágrafo acima como expressão da leniência ou da contemporização com a corrupção. Isso, no sentido de acreditarem ser possível a purificação de seres humanos na política. Que os problemas políticos teriam a ver com a índole dos indivíduos e não com as instituições ou com o sistema e as contradições decorrentes do conflito de classes no nível nacional e internacional. A mordida na maçã no mito bíblico de Adão e Eva quer dizer que somos versados no bem e no mal. Ou seja, política não é para ingênuos ou puristas em busca da beatitude celestial.

Em terceiro, mas, evidentemente, não esgotando o assunto: nosso presidencialismo de coalizão vive e se reproduz com os partidos que existem hoje formalmente no quadro institucional. Não adianta vir com história de “nova política” ou com a mentira de ser “a-político” ou ainda qualquer outro tipo de cambulhada na carona de celebridades. Estas fazem bem à vaidade de dondoquinhas, mas estão aí para reproduzir os valores do atual sistema. Com o discurso da “nova política”, escamoteiam a postura mais retrógrada do nosso republicanismo trôpego.

No caso da corrupção, a indagação seria: ela é praticada pela voracidade e o poder sedutor de indivíduos ou por um conjunto de elementos da legislação e das instituições? Querem legislação mais incentivadora da corrupção do que a legislação eleitoral no esquema de tempo de televisão e outros elementos relacionados à doação de campanha? Acham que a proibição de doação por empresas privadas acaba com a corrupção?

Para terminar, indo ao cerne da questão com um convite para o necessário exercício da abstração – algo que incomoda, como ruído incompreensível, os ouvidos de muita gente: o sistema capitalista é corrupto por natureza. Concorrência, pernadas em competições desleais, existência “natural” de ricos e pobres, mercado de capitais desregulado, Bolsa de Valores, Banco Central independente, privatizações, sociedades anônimas, flexibilização das leis trabalhistas, guerras fiscais e guerras armadas do imperialismo, colonialismo, câmbio flutuante, diferentes moedas dos países, enfim, esses e outros elementos e fenômenos não são inevitáveis e naturais a exemplo dos frutos que nascem das árvores, como a maçã de Adão e Eva.

Todos esses elementos são possíveis nas suas idiossincrasias graças à atuação do estado, fator estruturante simultaneamente, como causa e efeito, do sistema capitalista. Os bem intencionados e/ou ingênuos que odeiam o PT comecem a pensar nas próximas eleições sobre que tipo de estado desejam. Nem precisem apoiar o PT aprioristicamente. Mas comecem a pensar em vez de reproduzir o ódio disseminado pelos grandes meios de comunicação e pelas redes sociais. Mais ou menos como dizia Michel de Montaigne, no século XVI, “a verdade não é o que é, mas o que os outros possam ser levados a acreditar que seja.”

 

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