“Última chance”, os fiadores apresentam a conta, por Sergio Saraiva

Com a sutileza dos que costumam mandar e ser obedecidos, o poder econômico põe a faca no pescoço da presidente Dilma. E determina: volta FHC.

Por Sergio Saraiva

Gravíssima crise, corrosão vertiginosa, forma errática e descoordenada, desmantelamento ético, abuso do direito de errar, esgotamento das reservas de paciência, alarmantes dimensões, irresponsabilidade generalizada, degradação econômica, pesadelos ainda piores, fantasma da inflação descontrolada, benefícios perdulários, circunstâncias dramáticas, radicalidade sem precedentes, medidas drásticas, rombo orçamentário”.

Não lembro me de um dia ter lido um texto jornalístico com tamanha concentração de advérbios e adjuntos adnominais de intensidade. Um tijolo de mais de cinquenta linhas em uma única coluna ao longo da primeira página da Folha de São Paulo de 13 de setembro de 2015. Duvido que algo assim seja recomendado pelos manuais de redação.

Tamanha carga emocional já não seria boa conselheira em uma relação amorosa, quanto mais quando se pretende determinar os caminhos econômicos que uma nação deva seguir.

E, no entanto, é um texto dessa ênfase que constitui o ultimato que o dono do jornal – sim, texto assim é coisa do dono – dá à presidente da República através de seu editorial “Última chance”.

Determina que a presidente reintroduza o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias, e imagino que entre os “benefícios perdulários da Previdência” que devam ser cortados também esteja a valorização do salário mínimo. Que corte todos os subsídios e programas sociais, inclusive que deixe de cumprir até com o que a constituição prevê como desembolsos obrigatórios para a saúde e educação públicas. Logo, não se salvam Bolsa Família, Luz Para Todos, Pronatec, FIES e Mais Médicos, entre outros. Que aumente os impostos da população – o imposto de renda descontado na folha de pagamentos e o imposto sobre combustíveis gravando toda atividade econômica. Que desmonte a estrutura administrativa do Estado e comprima os salários do funcionalismo público.

O grau de sofrimento humano contido nessas medidas e mais uma década perdida com a destruição do mercado interno de massa em nada comovem quem as propõem. Já o não cumprimento das determinações custaria o mandato da presidente.

O país não tem escolha e a presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará senão abandonar o cargo”.

E que não se conclua que parou por aqui, no Executivo. Ao Legislativo é determinado também que não se atreva a criar empecilhos na implantação de tal programa de governo.

Os parlamentares, deputados e senadores, não devem imaginar que serão preservados caso o país sucumba”.

Para alguém que tem três senadores da oposição como seus funcionários, essa deve ser a parte mais fácil de se obter obediência.

Do Judiciário nenhuma palavra. E, no entanto, é justamente em uma primeira instância judiciária voluntariosa e hiperdimensionada, que muitos creem partidarizada também, que se encontra parte dos problemas pelos quais passa a nossa economia.

Outra ausente é a crise internacional. A depressão econômica mundial levando à queda do valor das commodities agrícolas, agropecuárias e minerais, carro-chefe das nossas exportações e âncora da nossa estabilidade econômica. Parece que a Folha não crê ser necessário combinar com os russos.

Implícito está que tais sacrifícios garantirão o pagamento dos juros – 14,5% ao ano. Cada ponto percentual nessa taxa custa um Bolsa Família. E nem é cogitado um possível aumento dos impostos sobre os ganhos de capital ou a volta da CMPF.

Não, o setor financeiro rentista é o grande ausente da “carta régia”.

Fácil intuir quem é o ghost writer do dono da Folha. São os que apresentaram se como fiadores da normalidade democrática do país e, agora, menos de trinta dias após, mandam a conta, ou o pedido de resgate.

PS1: se tais medidas resultassem em algo mais que lucros garantidos ao rentismo à custa de desemprego e desmonte do setor produtivo, FHC teria feito seu sucessor, em 2002, e Lula ainda estaria na oposição.

PS2: para quem tem alguns vinténs para manter-se atualizado das determinações de Sua Majestade: ”Última Chance”.

PS3: para os que querem apenas ouvir falar de flores: ”Quem pagará a conta da normalidade democrática?”.

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15 comentários

  1. CarO Nassif e demais
    Isso não

    CarO Nassif e demais

    Isso não é um grande ameaça??!

    Irão prender, matar, processar, dizimar, passar sal grosso??!!

    “Os parlamentares, deputados e senadores, não devem imaginar que serão preservados caso o país sucumba”.

     E tudo isso sem reação, é claro…

    O desespero da direita aumenta  cada dia.

    Saudações

  2. Depois desse editorial nem

    Depois desse editorial nem Uol clico mais. A Folha eu já tinha abandonado faz tempo. O Frias que sobreviva do seu ego e do poder que ele acedita ter poderio para usurpar.

    Ele acredita ter poder para intimar e derrubar uma presidente. Qual o tamanho da edição da Folha? Sabe-se que Otavinho é nanico, mas a medida com que devemos medi-lo é a moral e a ética de um proprietário de um meio de comunicação com relação às instituições e leis do país que lhe dá sustento e poder.  E aí ele não é nanico, é rasteiro. Como os vermes.

  3. Quando o braço da justiça….

    é cotoco???  Aí que não  rola mesmo !!!

    O grande erro de Dilma  foi colocar um ministro sem qualquer iniciativa na área  da justiça.  O cara é  meramente  uma figura decorativa.  Passivo, não fez  p….nenhuma  até  agora !!!   Tô falando do Jose Eduardo Cardoso !!   Um “Zé”  literalmente !!!

    Tá deixando rolar desmando de subordinados,  ofensas  e  até ameaças a presidente  e  fica  por  aí fazendo cara de paisagem !!

    Quase que apanhou dos  fascistas  dias atrás  e  continua  aí brincando de ser ministro… Vamos trabalhar  meu irmão !!!

  4. O que eu não entendo.

    Nassif, o que eu não entendo é que o governo cortou verbas de vários setores, mas não vejo em mídia nenhuma, nem mesmo as do governo, falar sobre cortes nas verbas publicitárias para a grande mídia. Não seria cabível que houvessem cortes nesse setor, até mesmo para que esses “monstrões” (mídia) que atacam ferozmente esse governo, possam bater no peito e dizer que estão dando sua colaboração par o equilíbrio das contas e ajustes na economia do país??? E porque o governo não agiu nessa direção já que tem legitimação para fazê-lo??? Medo??? Pena??? Parceria???

    • Edsonmarcon, há também a

      Edsonmarcon, há também a BOLSA SAÚDE e a BOLSA ESCOLA,  despesas com planos de saúde e com escolas particulares dos filhos que os poderosos descontam do IR.  

      • Tem mais

        Tem o “bolsa empresário” também, que não pagam impostos sobre lucros e dividendos recebidos por donos e acionistas de empresas.

        O Brasil está cheio de PJ’s, porque o cara cria a “empresa do eu sozinho” e os lucros dessa empresa não são tributados.

         

        http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/09/14/imposto-sobre-lucros-e-dividendos-geraria-r-43-bi-ao-ano-diz-estudo

         

        Imposto sobre lucros e dividendos geraria R$ 43 bi ao ano, diz estudo

        Uma receita de mais de R$ 43 bilhões ao ano. É esse o montante que o governo poderia arrecadar com a cobrança de imposto de 15% sobre lucros e dividendos recebidos por donos e acionistas de empresas. A estimativa é dos pesquisadores Sérgio Gobetti e Rodrigo Orair, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que participaram na noite desta segunda-feira (14) de audiência pública promovida pela Subcomissão Permanente de Avaliação do Sistema Tributário Nacional.

        Até 1995 havia tributação sobre dividendos no Brasil. A justificativa para a isenção, à época, foi evitar que o lucro já tributado na empresa, que paga Imposto de Renda da Pessoa Jurídica, fosse novamente taxado quando se convertesse em renda pessoal, com a distribuição de dividendos. Com a isenção, segundo os pesquisadores, grande parte do que ganham os ricos não é tributada. Isso faz com que o topo da pirâmide social pague menos impostos que a classe média no país, proporcionalmente à renda.

        – Pior do que pagar imposto é olhar para o andar de cima, para aquele que é mais rico que a gente, e ver que ele paga menos imposto. Isso é realmente algo de se indignar e é basicamente essa a constatação. Embora a gente pudesse suspeitar, foi algo surpreendente para a gente ao analisar os dados de Imposto de Renda no Brasil – afirmou Gobetti.

        Os dados colhidos pelos pesquisadores mostram que os 71.440 brasileiros que ganham mais de R$ 1,3 milhão por ano declararam uma renda média de R$ 4,2 milhões e pagaram apenas 6,7% sobre toda a sua renda. Já as pessoas que ganham entre R$ 162,7 mil e R$ 325,4 mil pagaram em média 11,8%.

        – O que chama atenção são as alíquotas efetivas de imposto pago por cada faixa de renda. À medida em que você vai subindo na faixa de renda, a renda do capital passa a ser dominante e como não incide imposto, isso faz com que as alíquotas para os muito ricos comece a cair – explicou Orair.

         

        Projeto

        O presidente da subcomissão, senador Lindbergh Farias (PT-RJ), observou que, em todo o mundo, apenas Brasil e Estônia isentam totalmente os dividendos. Para ele, essa isenção gera distorções porque trabalhadores são submetidos à tabela do Imposto de Renda, mas empresários não pagam nada.

        – Hoje, o que acontece é que um servidor público que ganha R$ 5 mil paga imposto de renda de 27,5%. Um grande empresário que recebe R$ 300 mil a título de distribuição de lucros e dividendos não paga nada.

        Lindbergh é autor do Projeto de Lei do Senado (PLS) 588/2015, que prevê a cobrança de Imposto sobre a Renda Retido na Fonte (IRRF) com alíquota de 15% sobre a distribuição de lucros e dividendos a pessoas físicas e jurídicas. A isenção seria mantida apenas para empresários cujas empresas estejam inscritas no Simples.

         

        Ajuste fiscal

        Para os pesquisadores, a criação de novas alíquotas de Imposto de Renda de até 45%, em discussão pelo governo, não corrigiria a distorção porque elas só incidiriam sobre os salários. Uma maior justiça tributária só viria se as novas faixas viessem associadas à taxação sobre os dividendos.

        Durante o debate, os economistas também criticaram a possível volta da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Para Gobetti, esse tipo de contribuição é regressiva, porque, proporcionalmente à renda, os pobres pagam mais que os ricos.

        Isso ocorre porque a renda dos que ganham menos é quase totalmente comprometida com bens de consumo, que tiveram incidência da contribuição em várias fases do processo de produção. Já os ricos têm boa parte da renda livre e pagam a CPMF apenas uma vez sobre essa parcela ao aplicar nos bancos.

  5. Desde quando Jornal tem Poder

    Desde quando Jornal tem Poder de dizer o que uma (m) Presidenta (e) de um País deve fazer?

    Esta gente da velha mídia é pirada.

    A Presidenta Dilma deve fazer o que é melhor para o Brasil e ouvir o que o povo quer e não dar bola para o que a Imprensa quer. 

    Nosso voto, o voto de um beneficiário do Bolsa Família, de um índio do Mato Grosso do Sul, etc. vale o mesmo que o do seu Frias. Ele não vale mais do que ninguém para ditar regras.

    Desde quando um Jornal pode se achar no direito de direcionar os caminhos econômicos e sociais de um País?

    O mesmo Jornal da Ditabranda, dos carros emprestados na repressão da Ditadura Militar e da Ficha Falsa da Dilma está com a moral prá lá de baixa pra dar opinião de alguma coisa sobre os rumos de nossa Democracia.

  6. “Gravíssima crise, corrosão

    “Gravíssima crise, corrosão vertiginosa, forma errática e descoordenada, desmantelamento ético, abuso do direito de errar, esgotamento das reservas de paciência, alarmantes dimensões, irresponsabilidade generalizada, degradação econômica, pesadelos ainda piores, fantasma da inflação descontrolada, benefícios perdulários, circunstâncias dramáticas, radicalidade sem precedentes, medidas drásticas, rombo orçamentário”.

    Infelizmente o parágrafo acima não contem absolutamente nenhuma mentira, essa é a nossa realidade. E a popularidade da presidente é simples reflexo desse fato. O governo, bem como o Legislativo, não se conscientizaram de que o tamanho do Estado é incompatível com nossa pobreza.

  7. O Otavinho pode esquecer.

    O Otavinho pode esquecer. Dilma não renuncia. Se querem tirá-la de qualquer jeito terão que assumir o ônus do impeachment. Terão que se despir da máscara de democratas e fazer campanha pelo golpe como fizeram em 64. E daqui a 40 anos fazer o mea culpa e pedir desculpas.

    Só que não, não tem perdão. Se insitirem vai ter briga. E se vencerem derrubando a Dilma no congresso paraguaio, não terão um minuto de sossego. Não tem mais como chamar pela mamãe, ou seja, as Forças Armadas

  8. Para quem chamou ditadura de

    Para quem chamou ditadura de ditabranda, isso ai é normal…

    Não perco meu tempo com essa empresa, cujo negócio, seria INFORMAÇÃO!

    E informação PRECISA DE TER NO MÍNIMO 1 coisa: VERDADE!

    Não dá mais para ler…

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