Um alô de Ubatuba em tempos de Corona na véspera do feriado de páscoa, por Mariana Nassif

o corona, além de um potente vírus que se distancia de uma gripezinha, traz amarrado em si as questões acerca do egoísmo e suas escolhas umbilicais

Um alô de Ubatuba em tempos de Corona na véspera do feriado de páscoa

por Mariana Nassif

desde que a pandemia começou, me sinto segura. apesar do que acontece fora e dentro, confio que o processo de recolhimento para Oyá no candomblé, todo o processo – o resguardo exclusivo no roncó, o quarto de santo, passando pelas expectativas internas, as funções pertinentes à iniciação, os compromissos que fazemos, todos, perante a natureza e nossa participação nesse ciclo mágico, que há de ter o abrilhantamento por meio do desenvolvimento de caráter como meta e pauta constantes – e isso realmente dá trabalho, mas o isolamento em si não vem sendo fator determinante do meu pesar.
 
quando vou ao supermercado sim, entro em pânico.
 
há três semanas isolada, minha rotina se alterou, adequando-se às orientações de saúde da OMS. fim. minha terapeuta vem cuidando da cachola, não fico sem terapia, amo, indico, atuo (se precisar de florais, me chama!). as excelentes pessoas que compõe meu quadro de amizade me cuidam, incentivando que eu cuide de mim, que axé!
 
aqui em Ubatuba, entretanto, a situação é desesperadora: já passamos por momentos de sossego, quando as estradas de acesso foram interditadas, mas foi um alívio breve. hoje, três semanas após o isolamento determinado, véspera de feriado católico, céu acinzentado, a cidade segue borbulhando de turistas e veranistas em busca de desfrute.
 
desfrute sim. caminhar na orla, se exercitar no final de tarde, lotar as filas de padarias, farmácias e supermercados seguindo o desrespeito a qualquer norma de segurança, cafungando em nossos cangotes a menos de 2cm de distância – a recomendação são 2 metros, sabe? – e esbarrando em todos, sorrindo deboche enquanto nos olham mascarados, luvas a querer saltar em sua face desprovida de vergonha.
 
temos a Santa Casa aqui. quantos leitos com respirador? oito. uma cidade com mais de 86 mil habitantes em seus deslumbrantes 87 mil kilômetros litorâneos. penso no respeito que cultivo aos ancestrais dessa terra que me acolhe há três anos, aos caiçaras, à cultura e predileção por contribuir com o que aqui se produz e amplio a consciência de que vivo numa bolha composta de pessoas absolutamente diferentes dessas raízes, porém diversas – o que de fato me acalma e encanta. esses turistas e veranistas que se aboletam em época pandêmica por essas bandas não têm respeito às normas coletivas, como desejar que sejam respeitosos a qualquer grupo ou indivíduo senão eles próprios?
 
o corona, além de um potente vírus que se distancia de uma gripezinha, traz amarrado em si as questões acerca do egoísmo e suas escolhas umbilicais, que definitivamente promovem tristeza e covardia, a ignorância que beira a maldade tamanha falta de filtro e seleção que essa gente carrega consigo.
 
dito isso, o que tenho feito com as compras, pelo visto, não é neurótico ou exagerado, mas sim a orientação básica para o enfrentamento de um período de crise real, e deixo o link da matéria, que diz que “o ideal é utilizar uma solução de 4 colheres de sopa de água sanitária por litro de água, e, com um pano, higienizar produtos de prateleira e embalagens antes de organizá-los (aproveite para higienizar também a sacola ecológica).” – estava borrifando álcool 70 e limpando com um paninho, mas água sanitária é mais barato e poupa o álcool, enfim.
 
aproveito para avisar que as condições climáticas em Ubatuba no feriado são péssimas: céu cinza, chuva na mata atlântica, prisão para quem estiver na praia – já foram dois surfistas – e pessoas mal-educadas por toda a parte. sei que pra quem tem o microcosmo do umbigo como rei o pedido de cuidado não adianta: privilegia-se a todo e qualquer preço e quem sabe só pare quando forem seus próprios corpos lacrados e suspensos em tão pouco tempo que vem sendo necessário um exército para dar conta disso tudo também no plano astral.
 
não há expansão que não seja proveniente de uma quebra e, ao que vem mostrando o comportamento do mundo, em diversos aspectos, enfrentamos o enorme desafio de cuidarmos cada um de si e tanto quanto uns dos outros, ampliando as esferas de contato com respeito ao invés de espremermos as barreiras infecciosas do apego e conceitos de separação.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Leia também:  Os sinais promissores da vacina contra COVID da Universidade de Oxford

3 comentários

  1. Cara Mariana, boa noite, sou espectador assíduo dos debates com seu pai e vc, esses tempos atrás vc chegou a ler uma pergunta minha. Porém, com crianças e etc em quarentena, normalmente não consigo estar no momento da live, vejo depois.
    Sou professor da UFFS e membro da coordenação do FBSSAN (forum bras de soberania e segurança alimentar e nutricional) e fiquei particularmente interessado em te enviar sugestões de ações socioambientais que vcs falaram ontem ou anteontem de levantar. Integro tb a ANA (Artciulação nacional de agroecologia) e acho que destes dois espaços há muito que se aproveitar nesses aspectos. Mas como não consigo estar nas lives, não achei outra forma de me comunicar senão por aqui. Caso seja possível, por favor me envie um email ou me mande o seu e escrevo. Grato

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome