Um dia em Inhotim, por Walnice Nogueira Galvão

Obra de Edgar de Souza em Inhotim

Um dia em Inhotim

por Walnice Nogueira Galvão

Você já foi a Inhotim? Não? Então vá…

Vá palmilhar as trilhas da Mata Atlântica ali preservada. E não só preservada: bem tratada e multiplicada pelo plantio sistemático de palmeiras, de que se acrescentaram 1.500 espécies. Veja bem: espécies e não espécimes ou especímenes, como reza o dicionário. Ou seja, foram plantadas não 1.500 palmeiras mas incontáveis exemplares pertencentes a 1.500 espécies. Reconhecido oficialmente, este Jardim Botânico oferece ainda vários lagos à apreciação. É uma alegria para os olhos e para o coração ver um esplêndido pedaço da natureza valorizado e merecedor de respeito.

Você pode passar o dia todo andando a pé pelas aléias e alamedas do parque. Mas, se cansar, pode tomar um dos carrinhos elétricos (que não poluem), desses que se vêem em aeroportos e campos de golfe, singrando o parque em todas as direções.

Inhotim é também um museu de arte contemporânea ao ar livre. Distribuídas com critério pelo parque estão as galerias, ou pavilhões de concreto onde se expõem as obras dos artistas. A nova tendência em vista é substituir o concreto por vidro, tornando os pavilhões transparentes. Pode-se ver uma boa mostra da obra de nomes nacionais como Tunga, ou Amílcar de Castro, ou Cildo Meireles. Ou de estrangeiros como Yayoi Kusama, a japonesa das bolinhas. E assim por diante.

Inhotim ultrapassa os 700 hectares, dos quais pouco mais de 100 são abertos à visitação. Fica no município de Brumadinho (de lindo nome), no vale do Paraopeba, perto de Belo Horizonte. Se tiver sorte e levantar cedo, poderá ver o “brumadinho” encobrindo vales e sopé de colinas.

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Tem viveiro, jardins temáticos – de orquídeas ou de plantas do deserto -, espécies raras em destaque, como a flor-cadáver e outras. Com a educação ambiental para a diversidade em mente, recebe escolas para projetos de sensibilização e ensino.

Tais atividades são coordenadas pelo Centro Educativo Burle Marx, muito justamente batizado em homenagem ao botânico brasileiro que foi um dos maiores jardineiros e paisagistas do mundo. Foi ele quem revolucionou o conceito de jardim, detonando as arestas dos tradicionais canteiros retangulares e criando o canteiro amebóide, com manchas de plantas em formato irregular. Foi ainda descobridor sem igual, domesticador e aclimatador de espécies brasileiras, cujo repertório multiplicou e classificou.

De vez em quando o visitante se depara com um dos cerca de 90 gigantescos bancos da autoria do designer Hugo França, feitos com pequi-vinagreiro, árvore nativa da Mata Atlântica, colhida depois que cai e morre. Os bancos são então afeiçoados, respeitando  seu formato original; e é comum ver visitantes neles refestelados, descansando, ou lendo, ou conversando. Ou simplesmente contemplando a imponência da flora enquanto se deleitam com os trinados da passarada.

E o nome, então? “What´s in a name?”, escreveu Shakespeare. A versão mais corrente,  segundo os guias locais, é a de que o antigo dono daquelas terras era um engenheiro inglês chamado Timothy – donde resulta, com a fórmula de cortesia anteposta, Nhô Tim ou Inhô Tim. Mas há outras versões, como a de que derivaria da pronúncia que os escravos davam a “sim senhor”, ou Nhô Sim/Nhô Tim. E outras mais… Versões é que não faltam e é bom lembrar que na Faculdade de Filosofia da USP, na seção de Letras, há uma disciplina chamada Toponímia, que se ocupa dessas coisas.

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Saberia disso Guimarães Rosa, leitor de almanaques e de publicações municipais celebratórias que era? A quem não eram estranhos os 4 volumes daquele extraordinário Efemérides mineiras, de Xavier da Veiga, como apontou Silviano Santiago? Em “Orientação”, conto de Tutaméia, o protagonista, um chinês extraviado no sertão, chama-se Yao Tsing, logo aculturado para Joaquim. Daí para Quim não vai muita distância. Quando sobe na vida e compra uma chácara, receberá o tratamento de cortesia, passando a ser Nhô Quim. Ora, se não é Inhotim, pouco falta, porque se vale de meios semelhantes de composição onomástica. Fica a sugestão.  

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

 

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2 comentários

  1. Está impossível navegar nas páginas do blogue.

    Não sei se o problema é com minha plataforma. Quando vou até o final da primeira página e clico no botão “próxima página”, aparece a mesma primeira página, na verdade quase a primeira página, pois ela aparece sem o botão “próxima página”. 

    O endereço da primeira página é → https://jornalggn.com.br/luisnassif

    O endereço da “nova” primeira página, após clicar no botão é → https://jornalggn.com.br/luisnassif/todas?page=1

    Não adianta trocar o endereço por page=2, 3…, etc, sempre fica na primeira página.

    Grato pela leitura, aguardo a correção.

     

  2. Comigo é exatamente assim.

    Comigo é exatamente assim, Almeida. Será que agora vamos ter que clicar em posts recentes? Mas aí só aparece o título. Será que é uma nova forma do blog economizar? O blog do Azenha também mudou para pior nesse sentido, ia direto nos recentes.

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