Um drink no inferno brasileiro?, por Rodrigo Medeiros

A economia sairá da pandemia sob um forte efeito de histerese sobre as empresas e o mercado de trabalho, ou seja, ela sairá em frangalhos.

Um drink no inferno brasileiro?

por Rodrigo Medeiros

No último texto publicado neste GGN, no dia 24 de junho, apontei como já havia uma péssima percepção estrangeira sobre a distopia no Brasil. Essa percepção afetará investimentos produtivos no Brasil e compras estrangeiras. Destaquei então que o número de mortes por Covid-19 já havia atingido o número de brasileiros mortos na Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870. O descaso governamental em relação aos mais vulneráveis, um paradigma que tende a acentuar a desigualdade social, aproxima os dois momentos históricos.

Em relação à Guerra do Paraguai, de acordo com a matéria da Folha de S.Paulo, de 21 de junho, assinada por Naief Haddad, segundo a pesquisadora Adriana Barreto de Souza, “foram para a guerra aqueles que não contavam com redes de proteção, ou seja, amigos e padrinhos. Os filhos da elite, na sua grande maioria, não foram para as batalhas. Por isso, inclusive, muitos escravos foram libertados. Eles substituíram os rapazes bem nascidos. Ou seja, ironicamente, ex-escravos é que foram os defensores do Brasil”. Segundo a pesquisadora, “sabemos hoje que as maiores vítimas da pandemia são (e serão ainda mais) os brasileiros pobres, em sua maioria negra”.

A partir de modelos matemáticos aplicados à saúde, o Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), ligado à Universidade de Washington, que é a principal referência dos órgãos de governo norte-americano para orientar suas previsões, estimou que o Brasil atingirá, em novembro, quase 200 mil mortes por Covid-19, no melhor cenário, 171 mil e, no pior, a 256 mil. Nesse sentido, a contínua má gestão da pandemia não pode ser mais varrida para debaixo do tapete. Tampouco se deve olvidar a abertura prematura de atividades econômicas nas unidades federativas, flexibilizando a política de isolamento social, algo que coloca em risco a vida das pessoas e contribui para a expansão do contágio.

O segundo semestre promete ser infernal, pois não há sinais de que a gestão e a coordenação federativa de ações contra a pandemia melhorem efetivamente. Teremos um drink no inferno, com boas doses de desarticulação federativa e caos social. Segundo a Oxfam, o Brasil está entre os prováveis epicentros globais da fome, juntamente com Índia e África do Sul. A Oxfam afirmou que “apenas 10% do auxílio financeiro prometido pelo governo federal aos trabalhadores e às empresas, via o Programa Emergencial de Suporte ao Emprego (PESE), foi distribuído até junho”. Má gestão, descaso ou ambos?

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Nesse contexto dramático, ainda leremos na imprensa as previsíveis falas da ortodoxia fiscalista. Essas vozes demandarão o que sobrar do sangue do povo brasileiro na pandemia, ou seja, novas rodadas de contrarreformas neoliberais. A agenda nacional regressiva é basicamente a mesma de antes da pandemia. Segundo as informações disponibilizadas frequentemente pelo IBGE, essa mesma agenda vinha fracassando na entrega de resultados positivos desde o governo Temer (2016-2018), sendo que a economia entrou em recessão no primeiro trimestre deste ano.

Em entrevista ao jornal Hora do Povo, publicada no dia 12 de julho, o professor, pesquisador e economista José Oreiro (UnB) afirmou que “a economia brasileira sairá da pandemia com uma enorme capacidade ociosa, com uma taxa de desemprego muito elevada e com empresas altamente endividadas. Nessas condições não devemos esperar que o crescimento seja liderado pelo consumo e pelo investimento do setor privado nacional”. Para Oreiro, “ou o Estado brasileiro puxa o crescimento por intermédio de um programa vigoroso de investimentos em infraestrutura ou ficaremos numa situação de estagnação econômica por anos a fio”.

A economia sairá da pandemia sob um forte efeito de histerese sobre as empresas e o mercado de trabalho, ou seja, ela sairá em frangalhos. A receita da ortodoxia fiscalista, no entanto, permanece a mesma: cortar gastos públicos necessários para a recuperação da economia, gastos de consumo e investimento. Ainda de acordo com o professor José Oreiro, “no pós-pandemia o Estado será o único agente capaz de puxar o crescimento”. Afinal, qual será a coalizão social, econômica e política que sustentará um novo projeto de desenvolvimento brasileiro, mais inclusivo e sustentável? Há uma boa discussão propositiva no livro do professor Bresser-Pereira, “Em busca do desenvolvimento perdido” (FGV Editora, 2018). Infelizmente, o segundo semestre superará todas as nossas piores expectativas coletivas.

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Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

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