Um Oscar para Paulo Guedes, por Lincoln Barros

O rápido resumo do filme vem a propósito da declaração recente do ministro Paulo Guedes, identificando os servidores púbicos como parasitas: “O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita...”).

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Um Oscar para Paulo Guedes, por Lincoln Barros

O filme Parasita, do diretor coreano Bong Joon Ho, grande vencedor do Oscar deste ano e vencedor da Palma de Ouro em Cannes, já teve uma receita de mais de 120 milhões de dólares em todo o mundo, e vem sendo aclamado como uma crítica severa à desigualdade e falta de mobilidade social em um dos países mais ricos da Ásia.

O enredo é direto, relata o encontro entre os Kim, uma família empobrecida da classe trabalhadora de Seul, após o filho Ki-woo receber de um amigo a oferta de um bico, o de dar aulas particulares à filha de uma família rica, os Park. Aproveitando-se da ingenuidade dos Park, os Kim se infiltram no mundo dos ricos através de uma série de golpes. Eles são representantes exemplares da situação da classe trabalhadora sul-coreana. Morando amontoados em um apartamento sombrio em um porão em Seul, a janela de sua cozinha, ao nível da rua, é vítima de bêbados urinando ao lado todas as noites. O filme, ao ressaltar o contraste de sua vida com a dos ricos da família Park, que desfruta do privilégio de viver em uma casa luxuosa, com um amplo jardim bem cuidado, destaca a privação de dignidade e autorrespeito das pessoas da classe trabalhadora, cada vez mais precarizadas pela evolução do capitalismo neoliberal, escancarando a sua consequente desmoralização, presos num ciclo inquebrável de pobreza, vivendo de bicos e em busca de um sinal de Wi-Fi grátis.

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O rápido resumo do filme vem a propósito da declaração recente do ministro Paulo Guedes, identificando os servidores púbicos como parasitas: “O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita…”). Por extensão do significado na biologia, parasita é dito do indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça. Na fala do ministro, os servidores públicos vivem à custa do estado “por pura exploração ou preguiça”. Implícita na fala está a concepção de que os trabalhadores teriam o perfil da família Kim, pessoas que perderam sua dignidade e autorrespeito, desmoralizados e vivendo como parasitas às custas dinheiro público. Nessa concepção, não são os servidores públicos que dão vida ao aparelho de estado, mas o contrário, é o Estado que lhes permite viver. Ideal seria a uberização dos professores, dos médicos, dos técnicos em todos os níveis, de todo o pessoal administrativo enfim.

Não é apenas uma defesa política ou econômica do estado mínimo, da privatização desenfreada das empresas e outros organismos estatais, da destruição dos mecanismos de proteção social pelo seu custo financeiro. Significa mais, o olhar do representante do capital financeiro no desgoverno Bolsonaro, como porta-voz da elite escravagista brasileira, sobre os servidores públicos e os trabalhadores brasileiros no geral, que ganharam direitos demais por culpa do PT.

Será que o ministro Paulo Guedes não andaria buscando uma indicação como o melhor representante do neoliberalismo selvagem?

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