Uma conversa com uma filha de estupro, por Matê da Luz

Uma conversa com uma filha de estupro

por Matê da Luz

Conheci Mariela numa casa onde estava tendo música e comida. Ela estava lá, como tantas outras pessoas mas, nem como todas estas pessoas, dançava e dançava sem cansar. Eu, que amo a dança, logo me enturmei com ela e, quando menos percebi, estávamos conversando sobre religiosidades e a vida de forma tão profunda que de forma alguma parecia que havíamos nos conhecido há poucas horas. 

Contei pra ela sobre minhas caminhadas de fé e minha trajetória neste maravilhoso mundo do invisível, que me encanta quase como uma dança, sem previsão de próximo passo mas com certezade que ele vai acontecer. Mariela me surpreendeu, mesmo tendo repetido algo que acredito piamente, quando falou: “especialmente o livre-arbítrio – esta é a coisa mais bonita que alguém pode ter na vida”. 

Parecia óbvio pra mim escutar aquilo, mas os olhos marejados de Mariela adiantavam que vinha por ali algo de confissão ou arrependimento e, então, me coloquei como mais interesada ainda no que estava por vir. Ela não enrolou ou deu voltas e logo contou que era filha adotiva e que, dadas as circunstâncias de sua concepção, durante muito tempo sentiu-se fadada ao fracasso, às maldades da vida e ao não merecimento. Mariela, há alguns anos, contratou um detetive particular, amparada por seus pais, e foi em busca de sua origem. “Uma escolha pra entender e assimilar melhor essas dores que eu não sabia de onde vinham, já que a vida foi muito generosa comigo – meus pais e meus irmãos são meus tesouros, minha base sólida e, então, não havia motivo aparente para tamanho desespero”. 

O detetive apareceu com inúmeros documentos e um enredo e doer o coração: a mãe biológica de Mariela havia sido estuprada por um homem no período do carnaval e, então, aquela mulher tentara abortar algumas vezes, sem sucesso (o que ocasionou numa lesão nos dedos de suas mãos, com movimentos limitados e alguma má-formação). Logo esta mulher conheceu alguém que conhecia alguém que pegava os bebês destas mães e os encaminhava para adoção, nem sempre num processo legal mas que, naquele caso, acabou chamando atenção dada a rapidez do encontro com os pais de Mariela: ainda na barriga, Mariela encontrou seus pais de vida e a aceitação de crescer em ambiente seguro. A mãe biológica se acalmou e, sabendo que aquele bebê estaria encaminhado, não cometeu mais nenhum equívoco enquanto a esperava. Se despediu, tomou as vitaminas que devia e, então, no dia de seu nascimento, seguiu livre, libertando também Mariela daquelas escolhas. 

Curiosamente, pelo menos pra mim, Mariela é favorável à legalização do aborto. “Mas se ela tivesse abortado, você não teria nascido”. – a beleza do livre-arbítrio mora aí: ele só não é superior ao que tem que ser. Mariela sabe, hoje, encaminhada pelo poder das escolhas em tempos difíceis, que tinha que nascer. Tinha e desejava tanto quanto sua alma, aquela que a fez sentir dores físicas, inclusive, e então num trabalho árduo e sem canseira, fez escolhas atrás de escolhas em prol da própria vida. “Não sou filha de estupro, sou filha do amor – um amor que a gente sabe que está lá mas que, por não vermos o tocarmos, mesmo sentindo, vez ou outra a gente acaba duvidando. Não dá pra duvidar de algo tão forte que, mesmo com a escolha oposta de outra pessoa, se faz presente e faz acontecer”. Percebi que ela estava falando das vontades de Deus e, apesar de ter tantas perguntas sobre como esta vontade maior impacta no livre-arbítrio de cada um, como isso pode ser coerente com a escolha por levar ou não uma gravidez adiante, enfim, apesar de desejar questioná-la sobre tantas nuances acerca do que ela estava dizendo e desdizendo, escolhi acolher aquela história como alguém que recebe um presente compartilhado e simplesmente desfruta. Acho que foi o mais respeitoso e justo a fazer e, no mais, desejo encontrá-la mais vezes para que, naturalmente e se for assim mesmo, estas respostas se revelem. 

Mariela estudou ciências da computação e se promove como gestora de pessoas em empresas onde a tecnologia pode abrandar os sentimentos. Ela diz que gosta muito de contar pra estas pessoas que máquina alguma consegue superar a inteligência de quem as opera, porque quem escolhe os processos, afinal, somos nós. Mariela me encantou em igual proporção ao tamanho choque que me trouxe, o tal choque de realidade, por ser exemplo vivo e atuante sobre como minhas próprias crenças devem ser encaradas: com verdade e, especialmente, ações. 

Ela conta que doeu, sim, conhecer essa parte de sua história e que se engajou ferozmente na luta bonita do feminismo, afim de esclarecer auto-estima e amor-próprio em pessoas que, como ela, não são fruto de um romance de novela – mas que é tão complexo quanto praticamente inviável encontrar estas pessoas assim, identificando-se e prontas para a troca. “Machucados na alma são, normalmente, premissas para couraças agressivas e tempestades internas que moldam pessoas duras, mais fechadas e, então, estou tendo um tremendo insucesso nesta procura. Mas não desisto, não: quero que o maior número possível de pessoas saiba que a vida é viável e só depende sim das escolhas que a gente faz com e para ela”.

Eu choro, já falei, né? E foi chorando que me comprometi a contar pra tantas pessoas quanto eu pudesse a história de Mariela, uma moça com tamanha consciência e sensibilidade sobre o que foi ser transformado no que queremos que seja que não tem como deixar de dançar. Que ela nos inspire a ter coragem de agir em prol de nossa própria vontade. Baila, Mariela! 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora