Uma noite fria e cheia de ilusões, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Bolsonaro provavelmente viu os mesmos programas de TV que eu, mas ele aprendeu a amar vilões como o coronel Ustra e a odiar vítimas de tortura

Uma noite fria e cheia de ilusões

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Perdi o sono. Como estava frio, fiquei imóvel sob as cobertas lembrando da minha infância em Eldorado SP. Na minha casa tinha televisão. Naquela época isso ainda era um privilégio.

O universo em que eu vivia era imenso, maior que o dos meninos que não tinham TV em casa. Todavia, aquele universo era inseguro. Quando a tela de televisão começava a tremular e a imagem começava a desaparecer a frustração era imensa. Quando a energia elétrica acabava a maior parcela do meu mundo entrava em colapso.

No quintal era possível brincar de Tarzan. Exceto quanto eu preferia brincar de Zorro. Mas para fazer isso primeiro era preciso confeccionar uma espada adequada. Uma tampa de lata de manteiga, uma vara da cerca viva de hibisco e voilà. Se os moleques me convidassem para brincar de mocinho e bandido, o sargento Garcia teria que esperar até o dia seguinte.

Minhas memórias estão associadas às séries antigas de televisão. Elas são coloridas, apesar dos programas serem transmitidos em branco, preto e infinitos tons de cinza. As cinzas do passado obviamente contém outros programas: O Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço e Star Trek.

Cada série de TV tinha seu próprio universo, com personagens fixos. Algumas vezes os vilões eram os mesmos, em outras não. Todos eles fizeram parte da minha infância. Entretanto, até ontem a noite eu nunca havia pensado em como e porque cada um deles existia de maneira absolutamente compartimentada dentro da minha consciência.

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Nunca fui capaz de imaginar um personagem de de Star Trek perdido na Terra de Gigantes ou um vilão do Zorro fugindo a nado do Tarzan. Algumas vezes os protagonistas de Viagem ao Fundo do Mar enfrentaram extraterrestres, mas eles nunca convidaram os heróis de Perdidos no Espaço para um piquenique na Enterprise.

Klingons eram mais violentos do que o doutor Alexander B. Fitzhugh. O troféu de vilão mais engraçado, porém, é do Dr. Zachary Smith. Não tema, com ele em cena sempre havia um problema.

A vida não imita a arte. Se ela imitasse, ao fim do teledrama jornalístico “Pandemia 2020” todas as vítimas voltariam para suas casas até serem convocados a encenar os capítulos de uma nova série. Uma que não fosse tão trágica quanto a Lava Jato, seriado jornalístico-jurídico (vagamente inspirado no Mensalão) que levou à destruição da democracia brasileira abrindo caminho para a vitória de um genocida.

Na minha casa tinha televisão. Na de outros garotos faltava até pão. Confesso que eu não pensavam muito nisso não. A política condiciona as vidas de todos, mas ela não ocupa qualquer espaço na infância. Na escola ou no quintal os meninos eram todos iguais.

Bolsonaro provavelmente viu os mesmos programas de TV que eu. Mas os heróis e os vilões dele são diferentes. No Exército, aquele vagabundo aprendeu a amar torturadores como o Coronel Ustra, e a odiar vítimas da tortura como Dilma Rousseff.

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Numa Terra de Gigantes (os pequeninos FHC e Ciro Gomes certamente não estariam entre os tais) o mito seria apenas um personagem secundário pisoteado. Filho da sereia espacial com Fitzhugh, a participação especial de Bolsonaro na política terminaria antes do primeiro capítulo da série eleitoral. Mas nesse Brasil pós-Lava Jato ele vestiu a máscara do Zorro e conseguiu esconder sua verdadeira natureza até controlar os meios de comunicação.

O resto desta história será muito longa e triste. Ela não merece ser contada hoje. Na minha casa não faltava pão. Nem coragem para desligar a televisão.

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