Uma questão de repuxo, por João Roque Dias

O propósito deste exercício é estudar a garrafa e não arruinar o precioso vinhinho, que pode ter "pé" (os resíduos existentes no vinho) e que obrigará à sua cuidada decantação

Enviado por Gilberto Cruvinel

Uma questão de repuxo

por João Roque Dias

Peguem vosselências numa garrafa de vinho, esqueçam a parte de cima, o “gargalo”, a “marisa” (aquele anel de vidro no gargalo) e, continuando de cima para baixo, o “pescoço”, o “ombro” (exactamente, a transição entre o pescoço e o “bojo” da garrafa (ou seja, o corpo, a parte principal onde está o vinhinho) e a “base”, que inclui o “rodapé” (a transição entre o bojo e a base).

Esqueçam tudo isso e virem a garrafa de pernas para o ar. Aqui chegados, uma palavra de prudência: não utilizem uma garrafa de vinho muito velho. O propósito deste exercício é estudar a garrafa e não arruinar o precioso vinhinho, que pode ter “pé” (os resíduos existentes no vinho) e que obrigará à sua cuidada decantação (um dia explico-vos como se faz esse bruxedo, que anda por aí muita parra e pouca uva).

Breve interrupção – Quando virem alguém retirar a “cápsula” da garrafa (aquele revestimento do gargalo em estanho, alumínio ou plástico) acima da “marisa”, franzam o nariz e tussam ruidosamente. O energúmeno não sabe o que está a fazer e não sabe que a “cápsula” se remove sempre abaixo da “marisa”. – Fim de interrupção.

Esqueçam então tudo aquilo e concentrai a vossa atenção naquela covinha no rabo da garrafa. Serve para quê o raio da “covinha”?

Aqui chegados, tenho de vos dizer que a doutrina se divide com diversas explicações, cada uma mais esdrúxula do que a outra, desde aumentar o volume útil da garrafa, logo o seu tamanho, para impressionar o comprador (maior é sempre melhor), até ajudar a lavar o interior da garrafa, porque a covinha cria um turbilhão, criar um depósito para o “pé” do vinho e, até, para se meter lá o polegar quando se serve o vinho. Escolham vocês a doutrina que mais vos aprouver.

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Para mim, aceito como boa a explicação do Dr. Vinifera, do Wine Spectator, de que, hoje, a “covinha” é apenas uma reminiscência do tempo em que as garrafas eram todas sopradas contra um mandril, o “pontil”. Esta técnica tem a sua explicação: para diminuir a probabilidade de a garrafa tombar – uma garrafa com o fundo plano precisa apenas de uma pequena imperfeição para a tornar instável – a “covinha” permitia assim uma maior margem de erro na fabricação.

Isto em garrafas de vinhos tranquilos, ou seja não gaseificados, porque no caso dos ‘champagnes’, como a pressão dentro da garrafa anda pelas 5-6 atmosferas, ou seja, 3 vezes mais do que a pressão nos pneus dos vossos carrinhos, a “covinha” é fundamental para distribuir melhor as tensões na zona do “rodapé”. Cantos vivos em recipientes pressurizados são um Deus me livre, e é por isso que aqueles reservatórios de gases muito grandes são esféricos. Não brinquem com a Física pela vossa saúde.

E como se chama então a “covinha”?

Em português, existem dois nomes: “repuxo” (o mais utilizado) e “picura”. E escusam de procurar nos dicionários portugueses. Nenhum conhece nenhum destes termos. Os dicionaristas portugueses parecem ser pouco dados a garrafas.

E para os mais picuinhas, com interesses multilingues: o “repuxo” é “punt”, “kick-up” ou “push-up” em inglês, “piqûre” ou “cul de bouteille” em francês e “picada” em espanhol.

 João Roque Dias, Tradutor, Lisboa, Portugal.