Uma trilogia contra as ditaduras, por Luiz Kehrle

Em Tiempos Recios, Vargas Llosa defende a curiosa  tese de que a queda  do governo democrático de Jacobo Árbens definiu o destino da América Latina a partir da segunda metade do século vinte.

Uma trilogia contra as ditaduras

por Luiz Kehrle

Tiempos Recios é como se intitula em espanhol a nova  e surpreendente  novela  de Mario Vargas Llosa, lançada há poucos meses na Espanha e que  no Brasil provavelmente  se  denominará  Tempos Difíceis,  a menos da sabida  discricionaridade dos tradutores. Até então, da sua longa obra ficcional  , que junto com os ensaios lhe rendeu os grandes prêmios literários da língua espanhola e  o  Nobel de literatura, somente duas novelas se passavam fora do Peru: A Guerra do Fim do Mundo,  ambientada  no entorno  de Canudos, cuja epopeia descreve com originalidade, mesmo se vista ao sol  portentoso de Os Sertões,  e  A Festa do Bode, uma assustadora   crônica   da ditadura  que vitimou a República Dominicana, por mais de trinta anos , impondo um governo despótico que cultivou um nepotismo extremado, levando   uma família a controlar  a riqueza do pais e sua população,  aterrorizada pela arbitrariedade  do regime comandado por  Rafael Trujillo. Tiempos Recios trata da fracassada tentativa  de implantar, no início  dos anos cinquenta,  uma democracia moderna na Guatemala e agrega uma surpreendente avaliação que faz o autor da decisiva importância desse fracasso, orquestrado pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos,  para o futuro não só da Guatemala e da América Central, mas de toda a  América Latina.

Depois do Nobel , em 2010,  Vargas  Llosa  publicou  dois livros de ensaios, A Civilização do Espetáculo  e O Chamado da Tribo, e mais  Conversas em Princeton, extraído de um curso semestral dado naquela universidade, em 2015. Além disso escreveu duas deliciosas  novelas, passadas  no Peru,  O Herói Discreto e Cinco Esquinas, que se podem classificar de menores no conjunto de sua obra, a despeito da atualidade dos temas e do extremo cuidado de sua composição,  e  cuja fluidez e prazer de leitura se pode  comparar em sua obra a Pantaleão e  as Visitadora e a Tia Julia e o Escrivinhador.  Com Tiempos Recios, sua obra ficcional pós Nobel ganha densidade e retorna a temas muito familiares ao autor,  enfocando  a  ditadura da Guatemala nos anos cinquenta ,  o que o torna o terceiro romance passado fora do Peru,  ao mesmo tempo que compõe   o que é até agora  uma trilogia, cujo tema unificador são as ditaduras militares  latino americanas, trilogia  iniciada em 1969 com  sua obra prima,  Conversas na Catedral, que trata da ditadura de Manuel Odría,  que vitimou o Peru entre 1948 e 1956, continuada em 2000  com a Festa do Bode e provavelmente concluída  em 2019 com Tiempos Recios.

Mesmo que unificados pelo tema, os três livros guardam entre si  muitas diferenças, especialmente Conversa na Catedral, livro da juventude do autor, quando comparado  aos  outros dois, ambos escritos na velhice,  especialmente  Tiempos Recios, que é  uma obra já dos oitentanos.

Conversa na Catedral, um longo romance em quatro partes, expõe  uma  ditadura que manipula  inumeráveis  fios  para  controlar  a vida do país e , com técnica inovadora ,moldada pelo desenvolvimento da narrativa  e  dela inseparável, consegue,  em  suas muitas centenas de páginas, aclarar  o processo de entretecimento desses fios  para  construção da rede de sustentação do regime.  È   certo que muitos novelos de onde são puxados esses fios  estão tingidos pelo sangue derramado nas torturas e vão  sendo a toda hora sendo  retorcidos em   negociações escusas, protegidas de qualquer transparência ou receio de responsabilização. Mas, diferentemente de A Festa do Bobe, Conversa na Catedral  centra-se  na dissolução dos sonhos e esperanças de uma geração e no desmoronamento  da atividade política durante o governo Odría,  de acordo com  o objetivo do autor, que em Conversacion en Princeton afirma ter pretendido   narrar como a ditadura afetava todos os níveis da sociedade. E certamente atingiu seu intento, embora que para tal  se visse obrigado a criar uma quantidade de personagens que raiou o limite do tecnicamente intratável. Aliás, os recursos estilísticos que ainda hoje distinguem o romance decorreram ,  em grande parte,  da necessidade de evitar que se avolumasse em demasia. Mas é inegável que o autor acabou por conseguir, com grande apuro técnico, narrar a mediocrizarão que a ditadura espalhou pelo país durante oito anos.

Diferentemente do que acontece em Conversação na Catedral, em  A Festa do Bode  a tortura é uma presença constante e  certas cenas, como as da flagelação   de adversários do regime implicados na eliminação de Trujillo, sob condução de Ramfis Trujillo, seu filho mais velho e seu presumido sucessor,  são de uma ferocidade que pode incomodar mesmo o leitor capaz de realizar uma leitura mais analítica.

Conversa na Catedral acompanha, em  planos ficcionais  paralelos, que se entrelaçam, sem submeter-se ao ordenamento  espacial ou ao sequenciamento temporal característicos da novela do século XIX,  o transcorrer de um período ditatorial de gestação intestina, onde forças externas têm influência reduzida. Isto reflete o fato que no Peru, chegando já à segunda metade do século XX e nos  anos iniciais da década de cinquenta, em plena guerra fria, a  chamada ameaça comunista era praticamente inexistente. A mais forte oposição à ditadura de Odría concentrava-se no APRA, um partido de centro esquerda, dirigido pelo exilado  Haya de  la Torre, que rompido com o marxismo se colocava numa posição de neutralidade, como bem expressava um seu lema    “Ni com  Washington ni com Moscú. Solo el Aprismo salvara  el Peru”;   Por outro lado,  a influência dos comunistas   era  muito restrita, a ponto de um personagem do romance,  Carlitos, um jornalista cínico e poeta frustrado, uma espécie de alter ego de Santiago Zavala, o  Zavalita, personagem principal do romance ,  afirmar que no Peru a esquerda não havia ainda  passado de uma Maçonaria.

Por sua vez, em  Tiempos Recios a presença estrangeira, nomeadamente  a dos  serviços de Informação dos Estados Unidos, é parte fundamental da trama. Esses serviços  são  protagonistas da queda do regime democrático e  responsáveis pela implantação de uma ditadura militar,  sob a alegação de que o governo reformista de  Jacobo Ábenz , escolhido em eleições livres,  que   por ironia   tinha a  democracia americana como modelo a perseguir, era aliado da Uniao Sovietica e se constituía de fato numa   ponta de lança de uma invasão  comunista na América Latina. Uma absoluta fake new, difundida nos Estados Unidos por sua imprensa mais respeitável, incluindo-se ai o New York Times, o Washingtos Post e a então muito prestigiosa revista Time,  e espalhada pelo mundo através das agências de notícias americanas. Uma campanha midiática competentemente  planejada para garantir os interesses da United Fruits, que se percebia ameaçada por um possível avanço da democracia na América Latina. O ápice da campanha contra o governo Árbenz, que na verdade já se havia iniciado durante o governo de seu antecessor   Arévalo, se deu  com a difusão generalizada da intenção da Uniao Sovietica de instalar uma base  de submarinos na Guatemala, o que era absolutamente falso.  Não havia a época um só russo vivendo no país  e a constituição impedia o florescimento de partidos seguidores de   ideologias estrangeiras. Enfim, quem tem interesse em política externa, propaganda e controle de mídias tem logo no inicio do livro, numa parte que o autor denomina de  Antes, uma fonte preciosa. E, surpreendentemente, sob a pena poderosa de Vargas Llosa.

Mais surpreendente ainda é que, em Tiempos Recios, Vargas Llosa defende a curiosa  tese de que a queda  do governo democrático de Jacobo Árbens definiu o destino da América Latina a partir da segunda metade do século vinte.  Mesmo quem não leu Conversa na Catedral pode ter ouvido referências ao seu   parágrafo inicial, no qual, Zavalita,   o personagem que é acompanhado do início ao fim do romance pergunta-se   en que momento se había jodido el Peru, para em seguida perguntar-se em que momento haviam se ferrado ele , seu amigo, o jornalista Carlitos, todos, enfim. Em Tiempos Recios, escrito cerca de meio século depois, Vargas Llosa   acredita que foi capaz de determinar em que momento a  America Latina se había  jodido. E esse momento seria quando o complô armado pela United Fruits, com o apoio explícito do governo americano, utilizando a CIA como formulador e coordenador das ações golpistas,  depôs  o governo legitimo do  bacharel Jacobo  Árbenz e implantou a ditadura comandada pelo general Castillo Armas. E essa conclusão que lhe permite   pressupor que  a decisão de Cuba de alinhar-se ao bloco liderado pela Uniao Sovietica foi diretamente influenciada pelo constatação do que havia ocorrido há então pouco tempo na Guatemala. Os revolucionários cubanos decidiram que não permitiriam que em seu pais se repetisse o ocorrido na Guatemala.

A Festa do Bode  está centrado no ano final  do governo Trujillo, quando os Estados Unidos  já tramavam a queda do ditador, por haver  se tornado uma excrecência, mesmo entre os ditadores da América Latina. Nesse período, a igreja católica e a CIA , que foram  fundamentais para consolidação do regime, já haviam abandonado o barco trujilista e  comandavam a oposição ao regime.  Uma atuação da CIA muito diferente da registrada em Tiempos Recios. Todavia, os dois romances dialogam entre si, com personagens comuns, uma delas o próprio Trujillo, apoiando o golpe com armas e dinheiro, e fornecendo  base territorial para o ataque à Guatemala. Sem falar de John Abbes García, um prosaico cronista de turfe transformado em  chefe da segurança da ditadura Trujillana, o que o torna protagonista fundamental na queda de Arbanez, e o faz um personagem de relevo nos dois livros, embora de escrita separada por vinte anos . Sua dedicação a Trujillo e a seus filhos, além de sua intrínseca crueldade,  o colocam no comando de um aparato  de tortura sem precedentes, comparado com o qual aquele que aparece em Conversa na Catedral ,comandado por Cayo Bermudez, o Cayo Mierda do  governo de Odria, pode parecer  bem menos cruel do que efetivamente foi.

As cerca de mil e quinhentas páginas que compõem  essa trilogia, que tomou meio século para ser escrita, constituem um registro cuja importância não pode ser minimizada. Como obra literária inovadora , especialmente Conversa na Catedral,   merece  ser colocada   em  igualdade com   que de melhor se escreveu nesse continente de ditaduras hediondas e romances extraordinários que têm essas ditaduras como tema. Como libelo contra a ditadura trata-se de  uma obra que deverá por muito tempo encantar  leitores e convence-los  da insânia subjacente a todas elas.

Das interpretações do autor  se pode dizer que guardam uma certa ingenuidade, tal como , em palestra comemorativa do centenário de os Sertões, na Academia Brasileira de Letras,  ele disse , com razão,  de Euclides da Cunha, no caso da guerra de Canudos. Mas, tal como no caso de Os Sertoes, livro que o autor peruano  coloca entre os mais importantes do nosso continente, a grandeza de sua trilogia  deverá  permitir que o   tempo filtre muitos  dos  seus  defeitos, de modo que tal como o próprio  Vargas Llosa previu, nesse caso em relação a  grandiosa obra de Guimaraes Rosa, em prefácio de uma edição francesa,   esse  mesmo  tempo deverá permitir  que se engendrem  novas  possíveis leituras,  com  novos leitores encontrando nela dimensões inéditas. Não parece haver destino maior para uma obra, nem para um autor.

Luiz Kehrle – Professor de Economia de Empresas – UFRPE . Engenheiro Civil- UFPE. Doutor em Economia de Empresas – Fundaçao Getulio Vargas – SP.

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