Usurpador, perverso e grotesco, por Arnaldo Cardoso

E se você pensou em um governante com esse lastimável perfil, isso leva a pensar a política como tragédia e a tragédia na política, e como consequência, o infortúnio de um povo sob o governo de um tal homem.

Usurpador, perverso e grotesco

por Arnaldo Cardoso

É muito provável que o título deste texto sugira de imediato ao leitor um destinatário para essa combinação de adjetivos, e que talvez eles não sejam suficientes.

Corrupto, torpe, vulgar, insensível, capaz de qualquer vilania para conquistar e se manter no poder são atributos que complementam a descrição. E se você pensou em um governante com esse lastimável perfil, isso leva a pensar a política como tragédia e a tragédia na política, e como consequência, o infortúnio de um povo sob o governo de um tal homem.

O pensador italiano da política, Nicolau Maquiavel, que viveu entre os séculos XV e XVI, teve seu nome inscrito na escola do realismo político defendendo que a política deve ser entendida como ela é e não como deveria ser. Maquiavel se preocupava com a instabilidade na política, com o ciclo interminável de estabilidade e caos. Na Itália de seu tempo a luta pelo poder dava lugar às traições, aos golpes e às guerras.

A percepção da política como tragédia, que tristemente tem sido adequada aos nossos dias, tem também espaço destacado na obra do dramaturgo inglês e gênio da literatura William Shakespeare, cuja série de dramas históricos de sua autoria trouxeram para o palco do teatro a trama da política sem disfarces. Suas peças, que desde seu tempo ganharam crescente interesse e admiração do público, envolvem a todos nas tramas do poder, tornando-nos mais do que cúmplices, vítimas e culpados pelos rumos da política e de suas consequências sobre todos.

A peça Ricardo III, escrita entre 1592 e 1593 é uma das mais encenadas do dramaturgo inglês. Integrante da série de dramas históricos, ela explora a história do Rei Ricardo III, que governou a Inglaterra entre 1483 e 1485, quando foi morto na Batalha de Bosworth Field. Misturando a vida e a arte, a peça nos põe diante dos traços da personalidade de Ricardo III e sua desmedida disposição para chegar ao poder. Com uma vida sob as sombras e sendo apenas o sétimo na linha de sucessão, portanto fora do grande palco da política, Ricardo III não encontrou barreiras morais e éticas para mentir, caluniar, conspirar e até mesmo matar para chegar ao trono. Sem escrúpulos usou dos falsos mantos da moralidade e da fé religiosa para parecer ao público um homem virtuoso, enquanto cometia atos deploráveis, antes e depois de chegar ao poder.

O crítico literário norte-americano Harold Bloom que em sua obra de quase 900 páginas “Shakespeare: a invenção do humano” expõe resultados de uma profunda e detalhada análise de cada uma das peças de Shakespeare, nas páginas dedicadas à Ricardo III deixa claro não se tratar de um dos melhores trabalhos do bardo inglês, mas chama a atenção para o fato da “surpreendente intimidade que o herói-vilão consegue firmar com o público. Estabelecemos com Ricardo uma relação confidencial”. Bloom ao citar a seguinte fala de Ricardo III ““Basta de público! Cortai-lhes as cabeças!” avalia que “merecemos ser ‘decapitados’, pois somos incapazes de resistir ao terrível fascínio de Ricardo, que faz de cada um de nós um Maquiavel”. Bloom ainda complementa:

“No teatro, divertimo-nos com o sofrimento dos outros. Ricardo nos coopta como torturadores, e dividimos culpa e prazer, sem falar no frisson causado pela ideia de passarmos a integrar o contingente das vítimas, caso o corcunda prepotente detecte alguma falha em nossa cumplicidade”. (2000; 106-7)

Se com essas palavras Bloom denuncia um traço sadomasoquista em cada um dos espectadores da peça Ricardo III, o que dizer hoje dos que apreciam (e até aplaudem!)  performances similares na vida real?

Dentre os estudiosos das relações entre arte e política, e particularmente as existentes entre as obras de Maquiavel e Shakespeare, Miguel Chaia, cientista político e professor da PUC-SP – de quem tive a fortuna de ser aluno – chama a atenção para o exercício do poder, seus paradoxos e tensões. Em seu “A natureza da política em Shakespeare e Maquiavel” (1995) Chaia aponta que “Eles (Shakespeare e Maquiavel) entendem que as diferentes formas de exercício do poder dão significados distintos à vida dos indivíduos, à história de uma cidade ou ao destino de um povo”. (1995; 165)

É também de Chaia a passagem que segue, onde compreende o poder em sua incidência sobre vidas e corpos “A experiência do enfrentamento entre homem e poder é limítrofe, desafiadora e inevitável, dada a condição humana e a vida em sociedade. Shakespeare e Maquiavel são autores que permitem lançar um olhar direto sobre quem governa ou sofre a ação de governo, através da presença corpórea, física, destes sujeitos”. (1995; 167)

O entendimento que esses dois grandes nomes do pensamento ocidental, Maquiavel e Shakespeare, expressaram em suas obras quanto as potencialidades dos indivíduos no mundo e das relações entre poder e indivíduos, nos levam a reconhecer a política como instrumento privilegiado para promover ou obstaculizar a melhoria da condição humana.

Exemplos como o de Ricardo III (“arconte diabólico de sua própria história”) e de outros governantes que fizeram e fazem da política instrumento de destruição e de potencialização de suas pulsões mais sombrias, ao provocarem asco, revolta e por vezes desalento em parte dos que sofrem seu des(governo), não merecem alcançar seu intento de decretar o fim da política, pois fora da política o que há é barbárie e o império do arbítrio.

(E.T.: Só em 2012 a ossada de Ricardo III foi encontrada, enterrada sob um estacionamento de um edifício municipal em Leicester. Exames da ossada identificaram nove fraturas no crânio, confirmando os relatos sobre a batalha em que Ricardo, a pé e após perder o elmo, foi golpeado e morto.) 

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político

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