Valo Grande, uma ferida aberta de enorme carga didática, por Álvaro Rodrigues dos Santos

Não se intervém na Natureza sem antes compreender todas as leis, processos e fenômenos naturais geológicos e biológicos que vão sofrer alguma interferência.

Valo Grande, uma ferida aberta de enorme carga didática

por Álvaro Rodrigues dos Santos

Tal como uma ferida aberta e latejante, ainda hoje lá está o canal artificial do Valo Grande, com que a ambição, o descuido e a prepotência humana, para encurtar caminhos, pretenderam um dia ligar o Rio Ribeira ao Mar Pequeno, mas que na verdade constituiu o gatilho de um dos mais trágicos e eloquentes desastres ambientais e econômicos já ocorridos no Brasil. Ao menos exploremos o didatismo desse triste evento.

Nas primeiras décadas do séc. XIX Iguape, município do litoral sul de São Paulo, rivalizava com o Rio de Janeiro em importância portuária e em vida social e cultural, com suas famílias mais ricas brindadas com constantes espetáculos europeus de arte e até com a presença de um Consulado Francês. Toda essa riqueza e ostentação deviam-se à especialização de seu porto na exportação de vários produtos agrícolas da província paulista, destacadamente do famoso “arroz de Iguape”, o que ensejou a instalação no município de perto de uma centena de engenhos de beneficiamento desse produto agrícola.

O arroz e demais produtos agrícolas chegavam ao porto marítimo de Iguape (contíguo à área urbana que faz frente para o Mar Pequeno, esse separando o continente da Ilha Comprida) carregados em canoas que desciam o Rio Ribeira. A partir do porto fluvial de Iguape, duas alternativas eram então utilizadas. Ou os produtos eram descarregados no próprio porto fluvial de Iguape, de onde vinham em carroças e carroções por terra até o porto marítimo, em um percurso de perto de 3 km, ou as canoas seguiam adiante pelo Rio Ribeira entrando no oceano através de sua foz e volteando para o interior do Mar Pequeno até o porto marítimo, em um percurso de algumas dezenas de quilômetros.

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Estava assim logisticamente colocada a pragmática ideia de se escavar um canal de algo em torno de 2 km ligando diretamente o porto fluvial ao porto marítimo. Essa reivindicação, com a força da elite política e econômica de Iguape, foi levada a D. Pedro I e em 1827 eram iniciadas as obras do “Valo”, que por projeto teria pouco mais de 4 metros de largura e 2 km de extensão.

Em 1855, com pompa e circunstância o “Valo” era inaugurado, com o que Iguape se tornava geograficamente uma ilha.

Em menos de 50 anos o pequeno “Valo”, pensado para dar passagem a uma canoa por vez, atingia 200 metros de largura, e mais à frente um pouco, 300 metros, sugando 2/3 do volume hídrico do Rio Ribeira. Era agora já o “Valo Grande”. A força erosiva das águas solapava e carreava os barrancos, invadia e destruía áreas agrícolas e urbanizadas. Os sedimentos carreados para o Mar Pequeno assorearam por completo o porto marítimo inutilizando-o para operações portuárias já ao final do séc. XIX. As mudanças na dinâmica flúvio-marinha da região introduziram radicais variações ambientais na temperatura, salinidade, correntes e turbidez das águas. Formam-se várias novas ilhas de sedimentos no Mar Pequeno. Escasseiam radicalmente a maior parte das espécies de peixes e mariscos que sustentavam uma segunda forte atividade econômica no município e em toda a região. Por sua vez, a foz original do Rio Ribeira, agora dando vazão a apenas 1/3 das águas originais, é também vítima do assoreamento e de outras tantas modificações decorrentes da alteração de sua dinâmica flúvio-marinha. Enfim, uma radical transformação geológica de toda a região. Como se poderia esperar, já sem seu porto Iguape entra em franca decadência econômica, social e cultural. Sua população escasseia e empobrece. Acabava-se melancólica e tragicamente a época áurea.

Em 1978, em atendimento aos reclamos locais, o governo do estado providencia a construção de uma barragem (terra e pedras) para o fechamento do Valo Grande. Com a construção dessa barragem não se deu, no entanto, o milagroso retorno às condições de equilíbrio anteriores à abertura do “Valo”. Muitas décadas correndo com apenas uma pequena parte de sua vazão natural o Rio Ribeira, a jusante da embocadura do “Valo”, assoreou-se e deixou de inundar sazonalmente vastas áreas baixas limítrofes. Essas áreas foram então ocupadas para a cultura da banana, a alternativa econômica que sucedeu a operação portuária/agrícola anterior. A partir dos anos 80 uma sequência de grandes inundações causou prejuízos enormes aos bananais (e também ao cultivo do chá) e a outras atividades agrícolas e sítios urbanos da região.

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A retirada da barragem, apontada então como a responsável pelas grandes enchentes, era agora a reivindicação que se colocava a uma população cruelmente vitimada em suas atividades, economias e patrimônios. As próprias sucessivas enchentes, com o auxílio de ferramentas manuais utilizadas por moradores locais, incumbiram-se do rompimento total da barragem.

Técnicos debruçaram-se sobre o problema e propuseram como melhor, e bem pensada, solução para o complexo problema a construção de uma nova barragem, mas agora com vertedouro e comportas de controle de vazão e com eclusa para possibilitar a navegação. A proteção das margens e do fundo do canal contra a erosão constituía parte integrante desse mesmo projeto. Em 1993 as obras civis da nova barragem foram concluídas, porém as instalações hidráulicas (vertedouro, comportas e eclusa) não foram executadas por alegada escassez de recursos financeiros para tanto (quantos votos tem Iguape?). Boa parte dessas obras civis já foi hoje também comprometida.

O Valo Grande continua como uma ferida aberta, de uma pungente carga didática a técnicos e governantes (que incrivelmente continuam a ser tão maus ouvintes): não se intervém na Natureza sem antes compreender todas as leis, processos e fenômenos naturais geológicos e biológicos que vão sofrer alguma interferência. Essa compreensão é essencial para a correta adequação de projeto e plano de obra, de tal forma que não se tenha que inexoravelmente arcar com as consequências de violentas respostas da Natureza. Esta, frente a uma agressão estúpida, buscará sempre, por seus próprios meios, uma nova harmonização de suas forças e agentes naturais. E pobres daqueles que se colocarem à frente dessas forças.

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Vale a propósito lembrar duas sábias afirmações que já lá num tempo bem distante traziam para a Humanidade o âmago dessa mesma mensagem didática. Francis Bacon, em 1620, e Leonardo Da Vinci, em torno de 1.500, respectivamente nos alertavam: “A Natureza para ser comandada precisa ser obedecida”, “Se tiveres que tratar com água, consulta primeiro a experiência e depois a razão”.

Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br) – Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas; Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”; Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia.

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4 comentários

  1. Vocês viram esta semana, a ONÇA PINTADA na beira da estrada em APIAÍ / SP? APIAÍ, pequeno município do sul do estado, limítrofe ao VALE DO RIBEIRA (aqui citado) que faz parte da extensão sensacional da maior área de MATA ATLÂNTICA do Brasil? Mata Atlântica que comporta toda região do Vale do Ribeira, mais restingas, mangues, mares internos, praias, ilhas,…. Tudo isto mais a presença de Onças Pintadas a partir da CIDADE DE SÃO PAULO, passando por CURITIBA, chegando à FLORIANÓPOLIS. Uma mais áreas mais densamente povoadas no Planeta. Cerca de 100 Km de largura, podendo chegar a 300 Km, por cerca de 650 Km de comprimento. Nem por isto com tamanha concentração populacional, atividades industriais, presença humana, Rodovias, atividades agropecuárias,… toda esta Riqueza Natural da Maior BioDiversidade Mundial foi destruída. Pelo contrário, a presença da Onça Pintada nos mostra como foi preservada. Interessante que ‘AMBIENTALISTAS DE SHOPPING CENTER’ sequer conhecem o VALE DO RIBEIRA e suas dezenas de Cidades. VALE DO RIBEIRA que começa praticamente na divisa da Cidade de São Paulo. Uma das maiores cidades do Mundo. O Vale do Ribeira comporta uma das Populações mais pobres da Nação. Não é bem a Humanidade que precisa ser preservada com Nosso Meio Ambiente. Jovens precisam se mudar para Curitiba ou São Paulo, cerca de 200 Km para o sul ou para o norte, para estudar ou trabalhar. Não foi o VALO que destruiu esta região. Foi a Ignorância. Foi o Politicamente Correto. O Estado sem Povo. O AntiCapitalismo de Estado. O Fundamentalismo Ambiental. O Brasileiro não se enxergar. Foi transformar 80% da Ilha Comprida / SP em Parque Estadual e não indenizar seus Proprietários, assim como as grandes áreas do Vale que foram transformadas em Parques. O Brasil é dos Brasileiros. VISITEM O VALE DO RIBEIRA : Onças Pintadas e Pardas(Suçuaranas), Jaguatiricas, Antas, Catetos, Queixadas, Harpias, Botos, Tucanos, Papagaios, Sairás, Veados, Orquídeas, Bromélias, Palmitos, Caiçaras, Sambaquis,…Não precisa ir ao Pantanal ou Amazônia. A NATUREZA começa na BR 116 Regis Bittencourt na Serra do Cafezal.

  2. Você está redondamente enganado, o que preservou o que resta da Mata Atlântica no sudeste brasileiro foi a topografia acidentada da Serra do Mar, o que lhe indispõe para atividades agrícolas e pecuárias. O que havia de topografia mais suave já foi para o brejo há muito tempo, salvando-se apenas as reservas ambientais que foram fruto das pressões do movimento ambientalista.
    Nós não somos bom exemplo para ninguém, especialmente com o atual governo federal, que tem o rabo preso com interesses inconfessáveis e com o agronegócio.

  3. Bom saber.
    Quem sendo de fora olha pra região de Iguape e Ilha Comprida sente um mal estar inexplicável agora já sabe porquê.
    A nova geografia está na história que não se conta para quem se arrisca a adquirir terras por lá.

  4. Agora com vírgulas e respirando.

    Bom saber.
    Quem, sendo de fora, olha pra região de Iguape e Ilha Comprida, sente um mal estar inexplicável, agora já sabe porquê.
    A nova geografia está na história que não se conta, para quem se arrisca a adquirir terras por lá.

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