Vamos falar sobre saneamento, por Wanderley da Silva Paganini

O simples ato de lavar as mãos é a mais importante barreira sanitária na proteção contra a covid-19. Mas para lavar as mãos é preciso ter acesso ao saneamento, e sob esse aspecto, o Brasil ainda precisa melhorar.

Agência Brasil

do Jornal da USP

Vamos falar sobre saneamento

por Wanderley da Silva Paganini

 

Mas o momento atual trouxe nova força a essa frase. O simples ato de lavar as mãos é a mais importante barreira sanitária na proteção contra a covid-19. Mas para lavar as mãos é preciso ter acesso ao saneamento, e sob esse aspecto, o Brasil ainda precisa melhorar.

E parece oportuno falar sobre saneamento nesse momento, para que ele ganhe força, como ação prioritária, após a superação da pandemia do novo coronavírus.

Há alguns anos, uma visão mais abrangente do saneamento vem se consolidando, partindo da premissa de que não basta disponibilizar obras para o alcance dos seus benefícios, pois as medidas de saneamento podem ter seus efeitos sobre a saúde minimizados ou até mesmo anulados, por fatores de ordem comportamental ou ambiental.

Essa constatação não é apenas teórica. O setor de saneamento, fortemente ligado ao campo da engenharia, já possui evidências que lhe permitem aceitar essa realidade. As obras e os equipamentos de saneamento só funcionarão como uma efetiva barreira sanitária, interrompendo o processo de transmissão de doenças, a partir de sua correta utilização e da incorporação pela população de hábitos e comportamentos saudáveis.

Apenas o acesso aos serviços de saneamento não é o bastante para promover a melhoria das condições ambientais e da qualidade de vida, se não houver o envolvimento das pessoas. Para que as ações de saneamento tenham êxito, devem ser concebidas e implantadas de forma a respeitar a realidade de cada local, considerando a diversidade cultural das comunidades e populações, que deverão ter uma participação ativa nesse processo, desde a concepção do projeto.

Esse envolvimento vai possibilitar que cada um compreenda e seja parte das transformações que o saneamento pode proporcionar, considerando os direitos e responsabilidades individuais e coletivos envolvidos nesse processo. O saneamento possibilita às pessoas seu crescimento pessoal, traz luz à consciência social, à vida cidadã.

São dois desafios a se enfrentar: promover a universalização do saneamento e orientar a população para que ela faça o uso adequado da infraestrutura disponibilizada. A realidade atual está nos cobrando de forma dolorosa essas providências.

De maneira simplificada, é possível afirmar que as obras são para sanear e a educação e o envolvimento social são para despoluir e promover saúde, e assim é necessário o envolvimento de toda a sociedade, ou seja, não basta a execução de obras e o domínio da tecnologia, pois não há tecnologia capaz de fornecer desenvolvimento e conforto para uma população que ainda carece de acesso aos conceitos fundamentais de educação sanitária e ambiental. Para se usufruir das vantagens que um meio ambiente equilibrado e sadio pode proporcionar é preciso que se invista em educação, pois, como já se sabe, ela é a base que sustenta as transformações e os avanços da humanidade.

Para mudar a cultura de pessoas que, por exemplo, nunca tiveram uma torneira ou banheiro em casa, é preciso ir além da simples transmissão de conhecimento, para a efetiva aplicação de práticas de higiene em cada domicílio. Essas práticas individualizadas podem trazer algum benefício à saúde, mas seu alcance é limitado. Para que os equipamentos de saneamento funcionem como uma efetiva barreira sanitária, interrompendo o processo de transmissão de doenças, é necessário que a população, coletivamente, incorpore em seu cotidiano hábitos e comportamentos saudáveis, conectados ao seu entorno.

“O tempo urge”, e pensar o saneamento como instrumento de mudança e transformação da sociedade é agora mais do que simples reflexão, cabendo a cada indivíduo, profissionais da saúde, imprensa, professores e formadores de opinião contribuir para envolver as pessoas, buscando um mundo melhor para todos.

Neste momento em que o mundo começa a abrir os olhos para o tema da sustentabilidade, da economia verde, energia limpa, reciclagem, etc., somos atropelados e obrigados a pensar o saneamento naquilo que ele tem de mais básico: promover a saúde individual e pública. É como um alerta para que seja dada atenção àquilo que é realmente prioritário. Essa é uma lição a ser aprendida e colocada em prática.

Segue uma citação do professor Samuel Murgel Branco (1930-2003), que expressa esse pensamento de forma didática, quando estabelece a preservação humana como fator primeiro, acima de qualquer outro interesse:

“Não teria qualquer sentido a preservação ambiental independente da preservação humana, porque não é admissível que a sociedade humana pretenda preservar uma natureza onde ela própria não tenha lugar”.

Wanderley da Silva Paganini, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

2 Comentários

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Hildermes José Medeiros

- 2020-04-03 11:50:07

Ora faça-me o favor! Estamos em tempo de coronavírus, não sabe?

alfredo machado

- 2020-04-03 11:43:28

Ao menos até o governo da guerrilheira, sempre existiram recursos para a instalação de redes de água pluvial e esgotamento sanitário, bastando que os $$ sejam solicitados pelos prefeitos, 5.500 deles, de acordo com a elaboração dos necessários Planos de Trabalho, instrumento que também contribui para que o $$ liberado pelo Ministério não venha a ser desviado para outras atividades do interesse local. E o que ocorre é que saneamento básico não dá voto, uma verdade, pois a maioria da sociedade não recebe orientação e nem tem interesse pelo assunto. Se um profissional resolver instalar uma ETE num município com população pouco esclarecida, possivelmente receberá ameaça de morte, não falo apenas por falar. Quanto à falta generalizada de informações para os cuidados de ordem sanitária, cabe exemplificar com a impressionante quantidade de casas que não têm banheiro, os moradores o substituem pelo terreno do lote, os rios, etc... O país gasta diversos bilhões anualmente com doenças de veiculação hídrica, quando seria bem melhor investir tal montanha de $$ com a construção das redes que se fazem necessárias, pois considero a orientação à população algo mais simples, aliás, deveria começar pelas escolas públicas. Considero o assunto, por sinal bastante longo, um dos principais a serem enfrentados por todas as esferas de governo.

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