Vamos pedir piedade, por Tannwander

Vamos pedir piedade (O Blues da Piedade de Cazuza), por Tannwander

Réu confesso, eu assumo:

Sou uma pessoa sujeita a chuvas e trovoadas. Por mais que eu me esforce em manter uma “agenda de compromissos” eu não consigo!

Um dia é porque, decididamente, a neuropatia periférica vem me limitando, ou simplesmente a dor é tão atroz que eu sou forçado a me lembrar de Cazuza e de sua música mais marcante, para mim, o Blues da Piedade (isso é uma indireta para você, solitário leitor) na parte em que ele diz:

“Vamos pedir piedade, Senhor, Piedade (para o Cláudio) …

Em outras circunstâncias é a memória trágica do tempo em que eu morei na Casa de Apoio Brenda Lee e, para não enlouquecer lá dentro, esperando a morte chegar, eu servi como voluntário no CRTA, onde conheci muita gente e tive, assim, o privilégio de servi-las da melhor forma que eu pude e, infelizmente, durante três meses eu fui a pelo menos um funeral por dia, as vezes dois, e perguntando quando seria a minha hora.

Por outro lado, no meio do meu dia, estou aqui, me preparando para pensar no que escrever para o GGN e me lembro de uma pessoa, muito querida, que tem perdido massa cinzenta em um dos hemisférios do cérebro porque o HIV agiu e criou uma relativa impotência em bombear sangue para o cérebro e isso a está matando devagarinho, enquanto ela, um Pilar de Luz, distribui esperanças e sorrisos aos menos felizes e, inclusive a mim, que em determinados momentos tenho vontade de morrer ou sumir…

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Aí recordo-me de minha consorte, um monumento de mulher em forma de amor e dignidade, que enfrenta o HIV há quase trinta anos! …

E, enfim, eu me lembro do Exmo. Sr. Deputado Marco Tebalde, Relator do PL Nº 198/201, que visa transformar em CRIME HEDIONDO a transmissão do HIV.

Ou seja, é bem melhor não fazer o teste, ficar sem saber, sem cuidar-se e não correr o risco de compartilhar espaço com Fernandinho beira-mar e hemoderivados.

Será, Senhor, Piedade, que existe alguém que possa iluminar de uma vez por todas, a mente desta criatura (O Senhor é, sim, o Criador e, portanto, não há nenhuma intenção pejorativa em chama-lo disso) e fazê-lo ver que não é só da pessoa soropositiva a obrigação de cuidar do corpo que habita? Que a responsabilidade é mutua e que tal lei só faria recrudescer o preconceito, a discriminação, o estigma, agravando a epidemia, pondo em risco vinte anos de política de tratamento e conscientização sobre sexo seguro, que evita mão apenas a AIDS mas, também, a deletéria gravidez adolescente (90% das adolescentes que engravida não terminam o ensino médio – Dados estimados com base em pesquisa na internet), bem como a sífilis, a hepatite C e um sem número de outras doenças sexualmente transmissíveis…

Aqui, neste ponto, eu passo a palavra a Paulo Giacomini

 

 

 

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2 comentários

  1. Errata

    O trecho em que se diz:

    “agravando a epidemia, pondo em risco vinte anos de política de tratamento e conscientização sobre sexo seguro, que evita mão apenas a AIDS mas, também, a deletéria gravidez adolescente”

     

    Deve ser lido assim:

    agravando a epidemia, pondo em risco vinte anos de política de tratamento e conscientização sobre sexo seguro, que evita não apenas a AIDS mas, também, a deletéria gravidez adolescente

     

    Alé, disso o treche que cita a mal-fadada lei a que me refiro nesta matéria esta descrito assim:

    ” Exmo. Sr. Deputado Marco Tebalde, Relator do PL Nº 198/201, que visa transformar em CRIME HEDIONDO a transmissão do HIV.”

    deve ser lido assim:

     “Exmo. Sr. Deputado Marco Tebalde, Relator do PL Nº 198/2015 que visa transformar em CRIME HEDIONDO a transmissão proposital do HIV.”

     

    Uma amiga chamou-me a atenção para isso e tivemos um longo debate sobre a questão e, embora eu não possa citar a discussão (conversa) que tivemos, posso aplicar, ainda, algumas coiasas a este doentio projeto de lei.

     

    O que está em questão pode ser explicado pelo momento inacreditáel que uma colega de militância me contou dez anos atrás, quando ela era psicóloga de um município qualquer…

    Era uma dinâmica de gruppo com mais ou menos 30 pessoas e a sala foi dividida em um lado para sim e outro lado para não.

    Hove diversas perguntas e, naturalmente, nunca havia uma unaminidade, sempre lembrando que toda unanimidade é burra (…).

    Entretanto, quando perguntram se a pessoa portdora de HIV que faz sexo com outra sem contar que é soropositiva para HIV devia ir para a cadeia, 29 pessoas foram para o lado que dizia sim!

     

    E é fácil analisar o fenômeno. querem que contemso para que possam cair fora pois, na verdade, a camisinha, no imaginário obtuso das pessoas (inclusive meu no passado) é que a transa sem camisinha é melhor e que o preservativo não é seguro o que eu posso desmentir, com facilidade, neste link adiante: Preservativo, um breve perfil

    O que se quer, na verdade, é o que dizia o velho síndico: O que eu quero, é sossego.

     

    A mim, parece-me que as pessoas consideram que portadores de HIV não merecem amor, carinho e outras coisas boas, como uma simples massagem; ou, como disse, ainda na TV Record, a _apresentadora de TV_ Ana Maria Braga, que, num joguinho de perguntas e respostas onde ela ia perdendo de goleada para o papagaio (para mim a única coisa rekativamente inteligente lá) e ela se saiu com a seguinte pérol:

    Perguntando ao Louro José (SIC) o verdadeiro significado da palavra AIDS, diante do mutismo do papagaio ela disparou:

     

     

    A gora I diota D urm, S ozinho.

     

     

    Causou revolta na comunidade soropositiva e foi devidamente reprochada pelo ministério da Saúde, que a infornou, coisa que ela aparentemente nao sabia, que ela, como ***pessoa formadora de opinião*** devia se informar sobre o que fala antes de falar e colocu-se, o Ministério, à inteira disposição dela para esclarecimentos…

     

    O caso foi esquecido por muitos. Mas nao por todos e muito menos por mim, que já fui chamado, inclusive, de “lixo aidético”{sem comentários, a pessoa que diz isso não é uma pessoa, na acepção da palavra}.

     

    Eu, como soropositivo, em ratamento, com carga viral inbdetectável para HIV posso, segundo um grande órgao de pesquisa suíça, desprezar (e eu não despresaria) o uso do preservativo porque o risco de transmissão é negligenciável, coisa que voc6es pode ver no video que eu tentarei incomoportra a qui e, nao conseguinto, já deixo o lik para o vido aqui mesmo. O video é ingles mas está legendado. Se você não vir as legendas, esperimente usar outro navegador ou atualizr seu sistema.

     

    <iframe width=”640″ height=”360″ src=”https://www.youtube-nocookie.com/embed/i9uCqCrP6X4″ frameborder=”0″ allowfullscreen></iframe>

     

    https://www.youtube.com/watch?v=i9uCqCrP6X4

     

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