Vandalismo cívico de Bozo, Moro, Weintraub e do “Véio da Havan”, por Armando Coelho Neto

Quero falar da perda do senso civilizatório. Não sem antes registrar meu desencanto: infeliz do País cujos meios de comunicação conduzem a maioria de eleitores a legitimar a barbárie.

Vandalismo cívico de Bozo, Moro, Weintraub e do “Véio da Havan”

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Primatas. Com pedido de desculpas aos primatas originais (primata raiz), uso tal expressão para referir-me aos primatas “nutelas” que fugiram da caverna para habitar o Palácio do Planalto. Não sei bem se fugiram da caverna, se saltaram de um disco voador egressos do Planeta Atraso ou mesmo se caíram da goiabeira na qual a ministra Damares viu Jesus. Bozo, Moro e o ministro Abraham Weintraub são exemplos. Eles e não apenas eles, mas também seus admiradores, entre os quais o “Véio da Havan”, simbolizam bem essa subespécie que gravita no Planeta, aterrorizando democracias.

Escarnecido em minha dor civil, por instantes me chegaram à mente cenas do filme Cidade de Deus, marcado pela violência gratuita, com sorridentes assassinatos praticados até por crianças. A exemplo de outros filmes do gênero, com atrocidades até contra animais, constata-se visível esforço e/ou competição da bandidagem para barbarizar. Numa das cenas, um marginal fica enfurecido ao assistir num telejornal que a barbárie por ele praticada fora atribuída a outro meliante pelo jornalista.

A metáfora do cinema, em que marginais querem barbarizar um mais que o outro, muito lembra o corpo ministerial do Palácio do Planalto. Como só entendem a linguagem da barbárie, do vandalismo, preciso por instantes entrar nos seus respectivos submundos para me fazer entender.

Quero falar da perda do senso civilizatório. Não sem antes registrar meu desencanto: infeliz do País cujos meios de comunicação conduzem a maioria de eleitores a legitimar a barbárie. Seja por intermédio do noticiário, comentaristas, articulistas, arautos e doutores nisso e naquilo; seja por meio de seus programas de auditório, novelas, humorísticos. Sem essa de culpar “esse povinho”, que não é dono de escola, rádio, televisão. Pais e mães precisam trabalhar para sustentar famílias, de forma que a educação/formação propriamente dita é fruto (também) da grande mídia. Quem dela foge cai nas garras das redes sociais controladas pelo poder econômico.

Já passei raspando, neste GGN, sobre o tema: Processo civilizatório e a ideia de Estado. Ainda que sobre o império do capital, da ganância e da selvageria a ele inerentes, seja possível ver quase como indiscutível, que os próprios avanços mínimos das esquerdas no mundo soam como concessões do capital. Cai bem permitir oposição, contraditório, admitir protestos que não dão em nada, mas, mesmo assim, torna o capital sedutor e bonito na fita. Há nisso um toque de politicamente correto, capaz de seduzir a “burrice sergiomoriana” que reluz, entre outras, na Vênus Platinada et caterva.

Todo modo, há sinais de avanços civilizatórios que trato por mundo possível. Nele, há consenso entre direita e esquerda baseado num estágio anterior, que deram de chamar: Estado. Enquanto misto de abstrato/concreto, cidadãos abrem mão de parte de sua liberdade em favor de uma entidade chamada Estado. Longe de ser o ideal, soa como forma mínima possível da coexistência dos diferentes. Mas, o que se vê entre os primatas da Corja Presidencial, é a negação do Estado, da História, do processo civilizatório, das conquistas humanizantes.

Tais reflexões me ocorrem, depois de assistir um vídeo no qual o “Véio da Havan” barbariza a sinalização para pessoas com deficiência física, visual e outras. Uma estupidez a mais num lugar cujo “presidente” de um país violento, elegeu-se fazendo “arminha” com criança no colo, e hoje encontra-se envolvido nos mistérios da Casa 58, no Condomínio Barra Pesada. Como “representante de Deus”, está mais para Cidade de Deus – o filme. Seu meliante-mor conjuga às turras o verbo barbarizar, vandalizar. E não sei bem o que pretensos homens éticos, honrados, cristãos fazem nesse contexto de Constituição Federal rasgada e retrocesso civilizatório.

Tenho em mente um livro escolar “cheio de letras”, um jornalista assacado (“pede pra tua mãe o recibo que ela deu pra teu pai”). Como se tivessem nascido do nada, brotado do efeito alucinógeno qualquer, assisto o “fim não fim” do DPVAT, e me ponho a pensar na extinção das faixas de pedestres, sinais de trânsito e de passarelas em rodovias, cintos de segurança, simplesmente porque não acabaram com os acidentes fatais ou não.

Também do nada, inócuo e sem propósito, imagino o fim de filas preferenciais para idosos e gestantes porque não configuram como doenças… O fim do SUS por suas deficiências e não pelas vidas que salva. A extinção do IBAMA. A guerra contra a cultura em lugar da guerra contra a miséria. Imagino o fim de programas e direitos sociais e humanos porque só servem para proteger bandidos e não para proteger o cidadão contra a tirania do Estado.

Na contramão do processo civilizatório, na consolidação da barbárie, um olhar sobre o palhaço-mor da Nação chamou a atenção do jornalista Josias Sousa. Na democracia, diz o repórter, há um adorador da ditadura na Presidência, um antiambientalista no Ministério do Meio Ambiente, um antidiplomata no Itamaraty, um deseducado na pasta da Educação e um inimigo dos artistas na Secretaria de Cultura. De repente, o escárnio: “um negro racista no comando de uma entidade criada para zelar pelos interesses da comunidade afrodescendente”.

O fato é que de lá pra cá, os processos de hominização e humanização trouxeram o ser humano a um estágio mínimo do possível. Surgiram regras básicas a estabelecer que o direito de um termina quando começa o do outro, e que ambos, pelo menos em tese, perante o Estado, são cidadãos sujeitos às mesmas regras. Ora com isonomia – tentando dar a todos o que é de todos -, ora na base da equidade – dando a cada um conforme seu esforço, seu direito etc. Se assim não é, pelo menos se prestam a bandeiras de luta civilizatória. Mas, os atuais gestores do poder perderam, se algum dia tiveram, a noção histórica do processo civilizatório.

Enquanto isso, não mais que isso, a elite moderna, rica e pensante, segue estimulando a barbárie e o vandalismo cívico sob o signo do Bozo, Moro, Weintraub e do “Véio da Havan”.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

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