Vaza, Moro!, por Francisco Celso Calmon

As revelações do The Intercept são combustíveis à indignação da sociedade e também para a liberdade do Lula; porém, Moro é descartável assim que for incômodo para manter o projeto golpista de desmonte da democracia e da implantação completa do capitalismo de desastre.

Foto: Lula Marques

Vaza, Moro!

por Francisco Celso Calmon

Encontrar a verdade dos fatos é o objetivo de toda investigação, não por qualquer meio. Não pode o Estado e nem o particular apoderar-se de uma prova transgredindo as regras do direito.

Obter provas por meios cruéis, desumanos, mediante tortura, coação, ofensa à integridade física ou moral, abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações, são inconstitucionais.  Indaga-se: as buscas e apreensões, as prisões, preventivas ou cautelares, realizadas pela lava jato, em vários casos, não foram inconstitucionais e ilegais?

Quando interessa ao ex-juiz Moro, ele apela às leis e à Carta Magna, e quando não, ele diz que é normal. Quando interessa, ele lembra, quando não, ele tem amnésia. Quando não consegue negar, ele mente. E quando mente procura se salvaguardar criminalizando as revelações do The Intercept. E o faz a priori, sem provas, como é o seu costume.

Como todos que se acham muito espertos, quando são descobertos, ficam tontos, viram canastrões e desempenham um papel cada vez mais bufão.

Fui pesquisar sobre a mentira e encontrei uma síntese bem apropriada.

A psicologia explica a mentira pelo mecanismo de defesa, a sociologia pela busca do poder, a filosofia pela imperfeição humana e a religião pela compulsão ao pecado. As explicações, entretanto, quase nunca justificam a mentira ou desculpam o mentiroso.” (Deborah Furtado) 

Buscando saber a origem me deparei com o texto: “É impossível saber, mas foi provavelmente quando o homem desenvolveu o neocórtex. Essa parte do cérebro está envolvida em atividades mais sofisticadas, como a linguagem e a consciência, e é importante, porque o processo fisiológico da mentira é complexo. Como o cérebro é programado para sempre dar a resposta mais rápida (que, normalmente, é a verdadeira), ele precisa primeiro eliminar a informação correta para, em seguida, buscar no banco de dados neural uma alternativa plausível. Segundo estudos recentes, a mentira é um comportamento aprendido na infância e repetido com o intuito de escapar de uma punição ou de obter alguma recompensa”. (José Eduardo Coutelle)

A mentira corriqueira ou de forma compulsiva pode ser sinal de um transtorno psicológico denominado mitomania. O mitômano usa a mentira como um instrumento de alívio, mascarando as suas angústias.

No âmbito religioso, a mentira está relacionada com o que é maligno, a mentira é representada pela figura do diabo, considerado o “pai das mentiras”.

No atual governo temos o mentiroso mor, que é o presidente, quantas vezes já disse e se desdisse, e a sua campanha com as fakes news, como se tudo normal.

O ministro Paulo Guedes, com a sua cantilena em favor da deforma da Previdência, falseia dos números às razões do projeto, que tem como objetivo central a capitalização em benefício dos bancos e prejuízo dos trabalhadores.

Como é sabido universalmente a mentira não vai muito longe, em algum momento ela é desmascarada e a verdade se impõe.

Sabíamos que a mentira tem pernas curtas, no presente sabemos que ela tem voz de marreco.

Se com as notícias falsas, a “facada” e outras artimanhas o Bolsonaro foi eleito, com as mentiras do Moro a Justiça tem sido desmoralizada, o Estado de direito desmontado, as empresas nacionais debilitadas, e um inocente, o ex-presidente Lula, condenado sem prova, permanece no cárcere há mais de um ano. E quando o desembargador plantonista, Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), deferiu a liminar concedendo a sua liberdade, o juiz à época, Sérgio Moro, mesmo de férias, em outro país, articulou para que a liminar não fosse cumprida.

Estamos sob um governo de mitômanos, desequilibrados, desqualificados e entreguistas, um desastre para o Brasil.

As revelações do The Intercept estão sendo importantes para provar a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro na condenação ao Lula e pelo projeto de poder que o une a membros do MPF. É uma enorme oportunidade dos procuradores, obedientes ao seu dever de defesa do Estado democrático de direito, e dos policiais honestos da PF tomarem essas revelações como indicativos para buscar a verdade dos fatos, e, sobretudo, ao STF na defesa da Carta Magna brasileira.

A permanência do Moro no Ministério da Justiça é um acinte ao código de ética do servidor público e um foco de mais desgaste internacional do Brasil.

Do Código de Ética, CAPÍTULO I Seção I Das Regras Deontológicas:

VIII – Toda pessoa tem direito à verdade. O servidor não pode omiti-la ou falseá-la, ainda que contrária aos interesses da própria pessoa interessada ou da Administração Pública. Nenhum Estado pode crescer ou estabilizar-se sobre o poder corretivo do hábito do erro, da opressão, ou da mentira, que sempre aniquilam até mesmo a dignidade humana.

O Ministro da Justiça mentiu para o Senado da República. Vaza, Moro!

Vale lembrar que o golpe de 2016 foi dado por todas as instituições da República – com STF e tudo – e nas palavras do ex-senador Romero Jucá, tinha também o objetivo de estancar a operação laja jato, contudo, em parte fugiu do script porque a Globo passou a usar o Moro como um dos cavalos do xadrez da política.    

As revelações do The Intercept são combustíveis à indignação da sociedade e também para a liberdade do Lula; porém, Moro é descartável assim que for incômodo para manter o projeto golpista de desmonte da democracia e da implantação completa do capitalismo de desastre.

A luta de classes continuará tendo como teatro principal de operações as ruas, sem as quais não conseguiremos barrar o que ainda está por vir. Por isso, o eixo condutor da luta contra o “bolsonarismo” e pela liberdade do Lula, como ocorrera com o eixo jurídico, não deve secundarizar as lutas sociais, exatamente quando as manifestações pela educação e contra a deforma da previdência começaram a ocupá-las.    

Quem mandou matar Marielle? Cadê Queiroz? Quem banca Adélio Bispo?      

O Brasil não pode se transformar no país da mentira e na nação dos tolos.       

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).              

 

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