‘Vênus Odiomene’ uma adaptação de Rimbaud para satirizar a Globo, por Gustavo Conde

‘Vênus Odiomene’ uma adaptação de Rimbaud para satirizar a Globo

Por Gustavo Conde

A alcunha desbotada de uma emissora de TV que acusa profunda fadiga de material intelectual, outrora “Vênus Platinada”, sofreu algumas transformações ao longo deste golpe interminável que parece ter já seus 20 anos. Da platina que se tornou estética Kitsh e delírio fascista de designer alemão louco por mulatas, ela passou a ser “Vênus Amordaçada”, uma vez que, ali, jornalistas são proibidos de darem opinião. 

Mas o irresistível mesmo é costurar o intertexto com a tão surrada deusa do amor e da beleza, cujo belo significante nomeia de planetas a métodos anticoncepcionais. Ao ler o poema de 1870 de Arthur Rimbaud, “Vénus Anadyomène”, em tradução precisa de Augusto de Campos, antevi o que seria uma suave e delicada trollagem de amor à máfia do Jardim Botânico. 

Convido-vos, portanto, a degustar com moderação desta paródia satírica repleta de enigmas e subtextos alusivos à delinquência existencial de um grupo de comunicação que encarna a mais perfeita musa invertida da história deste país. 

Advirto que respeitei a métrica, a estrutura semântica, sintática, bem como a dicção e tom solene caracterísitico do simbolismo francês. 

Vênus Odiomene (adaptação de Gustavo Conde)

Do verde oliva em meio ao golpe infame
Mascara-se uma fraude e vai ao forno,
De uma velha latrina emerge, em seus reclames
Carnavais e futebóis decorrentes de suborno;

Do classismo torpe em teledramaturgias
Contaminam-se todas as famílias tolas,
Fraudulentas declarações à luz do dia
Parem toscos imbecis em telas doulas;

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O padrão é deprimente, sólido, lustroso e prata
Transpira qualidade mas o núcleo é de lata
Espasmo kitsch de designer alemão…

“Vênus Platinada”, saliva o sorrateiro latim
– Que da subserviência fundou sua razão,
Horrorosamente putrefata, pisca o medo em sublime plim.

Aqui, a versão original, de Arthur Rimbaud:

Vénus Anadyomène

Comme d’un cercueil vert en ferblanc, une tête
De femme à cheveux bruns fortement pommadés
D’une vieille baignoire émerge, lente et bête,
Avec des déficits assez mal ravaudés ;

Puis le col gras et gris, les larges omoplates
Qui saillent ; le dos court qui rentre et qui ressort ;
Puis les rondeurs des reins semblent prendre l’essor ;
La graisse sous la peau paraît en feuilles plates ;

L’échine est un peu rouge, et le tout sent un goût
Horrible étrangement ; on remarque surtout
Des singularités qu’il faut voir à la loupe…

Les reins portent deux mots gravés : Clara Venus ;
– Et tout ce corps remue et tend sa large croupe
Belle hideusement d’un ulcère à l’anus.

E a tradução de Augusto de Campos: 

Vênus Anadiômene 

Como de um verde túmulo em latão o vulto 
De uma mulher, cabelos brunos empastados, 
De uma velha banheira emerge, lento e estulto, 
Com delícias bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas 
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar; 
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas, 
E o redondo dos rins como a querer voar…

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor 
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor, 
Particularidades que demandam lupa…

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS; 
– E todo o corpo move e estende a ampla garupa 
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

 

 

3 comentários

  1. Na linha, sempre verde oliva,

    Na linha, sempre verde oliva, eterna salvadora da sua sobrevivência, ela se escora para costurar suas artimanhas em tramas e teias ardilosas. Em oculta Tri estrutura, para ti, eu digo, que a Vênus que patina gerou um esquecimento engavetador, que some geral com tudo que lhe é adverso, inclusive textos overseas, em vãs tentativas de amenizar a decomposição ética e patrimonial que assola a sua debilitada e bi-exumada existência.

  2. Na linha, sempre verde oliva,

    Na linha, sempre verde oliva, eterna salvadora da sua sobrevivência, ela se escora para costurar suas artimanhas em tramas e teias ardilosas. Em oculta Tri estrutura, para ti, eu digo, que a Vênus que patina gerou um esquecimento engavetador, que some geral com tudo que lhe é adverso, inclusive textos overseas, em vãs tentativas de amenizar a decomposição ética e patrimonial que assola a sua debilitada e bi-exumada existência.

  3. falar com Gustavo Conde

    Caro Gustavo Conde,

    falo com você pelo GGN porque não é mais possível comentar nada pelo 247. Não entendo a lógica do sentido de eliminar os comentários das matérias enquanto o público cresce no youtube, com contribuições no super chat, ou na vinculação enquanto membro pagante. Qual a razão de não haver comentários nas matérias? Buscando alternativas de comunicação com o canal, percebi que Anastasia e Cristovam Buarque fazem parte da lista do blog do 247. Colaboradores do canal (não persegui o alfabeto para não ficar mais brava ou decepcionada). É isso? Quão credíveis vocês são? Por exemplo, seu nome não aparece na lista dos blogs e colunistas do 247. O Anastasia está lá.

    Gosto muito do 247, mas tem havido posições que não correspondem aos “supostos” interesses de um país mais democráticos.

    Nada muda se os sentidos são os mesmos. 

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