Vida após a morte na Netflix – uma boa pedida para enlutados, por Dora Incontri

O luto do Covid é um luto complicado porque os que ficam quase nunca se despedem e não podem cumprir os necessários e confortadores rituais de velório, enterro ou cremação, que simbolizam uma homenagem ao morto e nos fazem entender que de fato a morte se consumou.

Vida após a morte na Netflix – uma boa pedida para enlutados

por Dora Incontri

Para toda a criatura humana e todo o ser vivente, vai chegar a “indesejada das gentes”, como a chama Manuel Bandeira. Mas nós, os seres humanos, sabemos que morremos e pensamos na morte. Para os que ficam, a dor da perda. O luto é um processo natural que toda pessoa saudável atravessa ao perder um ser amado. Pode ser um luto mais ameno ou mais complicado, se a morte tiver sido inesperada, violenta, se for de uma criança ou de um jovem, se não foi possível fazer uma despedida ou se há culpas justificáveis ou imaginárias em quem ficou. O luto do Covid é um luto complicado porque os que ficam quase nunca se despedem e não podem cumprir os necessários e confortadores rituais de velório, enterro ou cremação, que simbolizam uma homenagem ao morto e nos fazem entender que de fato a morte se consumou.

Mas e quem morre? Para onde vai? Como é que fica? Não existe mais? Desde sempre, a humanidade acreditou em alguma forma de vida depois da morte. Os rituais fúnebres consideram essa crença – com o encaminhamento do espírito que foi, com orações e homenagens.

Por outro lado, a invocação dos mortos, através de pitonisas, xamãs, pajés; a aparição de espíritos, as mensagens que chegam do reino dos mortos e outros fenômenos correlatos – estão em todas as culturas e em todas as épocas: entre gregos, hindus e povos africanos, entre os chineses e povos originários das Américas e da Austrália.

Mas, desde o século XIX, essa questão da vida após a morte deixou de ser apenas um tema específico das religiões e de tradições espirituais milenares. Há 170 anos, há uma tentativa científica de investigação sobre as possíveis evidências de que a vida continua depois da vida. Um dos primeiros a investigar os fenômenos mediúnicos foi Allan Kardec, que se tornou muito popular no Brasil, porque a filosofia que fundou conquistou milhões de adeptos entre nós para uma religião espírita – que a princípio não era o Kardec queria.

Inúmeros cientistas desde seu tempo até hoje têm se debruçado sobre os fenômenos que podem trazer evidências da vida pós-morte: recordações espontâneas de crianças de encarnações passadas, com a confirmação de que as informações trazidas são verdadeiras e não poderiam ter chegado até crianças de 2, 3, 4 anos de idade;  experiências de quase morte, em que a pessoa esteve clinicamente morta e viu com os olhos do espírito o que estava acontecendo na sala de cirurgia (depois confirmado) ou se encontrou com entes queridos ou seres espirituais; comunicações mediúnicas de pessoas do outro lado da vida, que trazem fortes evidências de suas identidades, através de médiuns que não as conheceram e nem sabiam nada a respeito dela ou de sua família…

Um terreno fértil, delicado, que tem a hostilidade de muitos setores da ciência mainstream…

A série documental Vida após a morte, que estreou agorinha na Netflix passeia por esses temas, de forma cuidadosa, empática e honesta. Baseada no livro investigativo Surviving Death da jornalista Leslie Kean, o documentário traz o luto complicado de pais enlutados, de pessoas que vão em busca de respostas para mortes trágicas, mas traz também entrevistas preciosas com pesquisadores de porte de algumas universidades do mundo, que se permitiram a abertura para tais estudos.

Com histórias instigantes e precisas discussões sobre um tema tão difícil, a autora do livro, que aparece também na série, conduzindo entrevistas e participando de sessões mediúnicas, acaba trazendo algumas possíveis certezas e algumas evidências robustas, apesar de ficar claro que nesse assunto, não há como separar a subjetividade dos envolvidos. Sempre há coisas que caem o tempo todo no campo da crença e das expectativas pessoais de gente em profunda dor psíquica. Mas há casos em que só cabe mesmo a explicação da sobrevivência da alma e da reencarnação. O último episódio é o mais consistente, nesse sentido. O pesquisador Jim Tucker na Universidade de Virgínia, continuador das pesquisas do psiquiatra Ian Stevenson, esteve no Brasil em 2010 a convite nosso, no I Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, que a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita promoveu no Centro de Convenções Rebouças. Também Antonia Mills, da Universidade da Colúmbia Britânica, que faz um relevante trabalho de pesquisa de reencarnação entre povos originários do Canadá, esteve nesse congresso.

Ambos são entrevistados no último episódio. Interessante é que no documentário, aparecem casos de crianças que foram investigadas por eles (cujos relatos fizeram em nosso congresso), enquanto elas eram pequenas e tinham essas lembranças espontâneas, e hoje aparecem já adultas e mostram o impacto que tais recordações tiveram em suas vidas.

Outras pesquisas sérias são trazidas ao longo da busca de Leslie Kean, além de sua prolongada visita a uma curiosa “escola de médiuns” na Holanda. São 6 episódios emocionantes e que podem ser um conforto para quem está enlutado nesse momento e gostaria de ter maior certeza de que a vida continua sempre e de que os mortos queridos permanecem em ligação conosco, pelos laços eternos do amor.

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2 comentários

  1. Como não posso comentar lá no facebook, digo aqui, por ver que teve gente que sentiu a ausência de Kardec no documentário:

    As evidências do documentário são muito melhores que as de Kardec. Não precisava mesmo falar dele. Querendo ou não, não se tem no francês nem metade do que eles apresentaram ali (em verdade, nem muito menos, rs)

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