Vidas divorciadas: Macron e Bolsonaro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Macron não é machista, misógino e racista como Bolsonaro. Uma aproximação entre eles se tornou impossível no exato momento que o presidente brasileiro se reuniu com Steve Bannon.

Vidas divorciadas: Macron e Bolsonaro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

As relações diplomáticas entre o Brasil e a França foram intensas e proveitosas durante os governos Lula e Dilma Rousseff. Elas esfriaram após o golpe de 2016 “com o Supremo com tudo”. E tudo indica que a submissão do Itamaraty ao Departamento de Estado dos EUA não acarretará uma reaproximação dos dois países agora que eles são governados por Macron Bolsonaro.

Além das diferenças entre os presidentes do Brasil e da França serem óbvias. Macron não é machista, misógino e racista como Bolsonaro. Uma aproximação entre eles se tornou impossível no exato momento que o presidente brasileiro se reuniu com Steve Bannon. O presidente francês é pró-europeu e Bannon tem feito tudo que pode para sabotar e destruir a União Europeia.

O ideólogo norte-americano, que já critica abertamente o general Mourão e se apresenta como guru internacional do clã Bolsonaro, está criando movimentos nacionalistas violentos em diversos países europeus. Bannon apoia o movimento dos coletes amarelos que está tentando derrubar Macron.

“In the country of the French revolution, the ‘yellow vest’ movement is currently fighting the mother of all battles. They are an inspiration for the whole world,” disse Bannon ao L’Express.

A situação de Macron é delicada, mas ele tem total apoio das instituições e da elite francesa. Além disso, ao lidar com uma rebelião popular o presidente francês pode recorrer a um imenso repertório político. Com apoio firme dos homens de negócios de seu país, Macron pode se impor pela força como Napoleão ou simplesmente usar o Exército para manter as aparências e fazer algumas concessões à moda de Luís XIV. O grande desafio do Palais de l’Élysée nesse momento é evitar um desnecessário derramamento de sangue que poderia inflamar ainda mais os coletes amarelos.

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Apesar das manifestações de rua contra a reforma da previdência, as coisas no Brasil estão aparentemente tranquilas. Todavia, as aparências enganam. Jair Bolsonaro pode cair antes de Macron.

Há alguns dias, o presidente do Bradesco disse publicamente que Bolsonaro não cumpriu o que prometeu. O general-vice vai se reunir com 500 empresários da Fiesp. O presidente da Câmara dos Deputados já começou a se distanciar de Bolsonaro e insinuou que ele é incapaz de organizar e manter uma maioria parlamentar coesa. As interferências dos filhos do presidente brasileiro quase sempre pioram a governabilidade do país. Os caminhoneiros prometeram parar o Brasil no dia 30 de março.

A saga do clã Bolsonaro parece estar com os dias contados. O repertório político do defensor da Ditadura Militar é limitado ao uso da violência. Entretanto, não me parece que Jair Bolsonaro esteja em condições de se impor como ditador absoluto do Brasil. Ele tem o apoio de uma ala do Exército, a outra está nas mãos do general Mourão. Para complicar a situação de Bolsonaro, existem oficiais subalternos que não esqueceram o que Lula e Dilma Rousseff fizeram pelas Forças Armadas.

O bonapartismo é a última opção que Macron pode utilizar para quebrar a espinha dorsal do movimento dos coletes amarelos. Jair Bolsonaro não pode se comparar a Napoleão. Falta-lhe o apoio firme da elite brasileira e a genialidade estratégica e econômica do general francês.

Impossibilitado de comprar açúcar no Caribe em razão da Inglaterra controlar os mares, o imperador da França estruturou a produção local de açúcar de beterraba. O agronegócio estimulado por Napoleão existe até os dias de hoje em cidades como Guise e Origny Sainte-Benoîte. Em razão de sua política externa errática e baseada em princípios ideológicos ultrapassados, sire Jair Bolsonaro está destruindo os produtores rurais que apoiaram sua candidatura.

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Os dados foram lançados. Qual dos dois presidentes cairá primeiro, Macron ou Bolsonaro? Façam as suas apostas, mas tenham o cuidado de não apostar muito dinheiro no presidente brasileiro.

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