Vidas Paralelas: Antônio e José, por Sr. Semana

Antônio e José foram os principais pilares do primeiro governo progressista após o golpe militar contra João Goulart em 1964. O primeiro no comando da economia, o segundo da gestão e articulação política

Vidas Paralelas: Antônio e José

por Sr. Semana

O filósofo e historiador Grego Plutarco de Queroneia (46-120 d.C.) foi o maior responsável pela imortalização da memória dos grandes políticos da Grécia e Roma antigas traçando, na sua obra Vidas Paralelas, perfis pareados de um Grego e um Romano. Nesta semana busco modestamente imitá-lo, traçando o paralelo de duas vidas políticas brasileiras recentes, uma paulista e outra mineira.

Antônio e José foram os principais pilares do primeiro governo progressista após o golpe militar contra João Goulart em 1964. O primeiro no comando da economia, o segundo da gestão e articulação política, muito contribuíram para o sucesso inegável do governo. Os cargos que ocuparam no primeiro escalão foram o ápice das respectivas carreiras políticas. Ambos começaram na política estudantil e em organizações clandestinas de esquerda durante a ditadura militar. Antônio, quatorze anos mais jovem que José, atuou na fase final de abertura do regime militar. José foi destacado líder estudantil, o que o levou à prisão entre 1968 e 1969, quando foi deportado juntamente com outros militantes em troca da libertação de um embaixador. Com a redemocratização, ambos foram co-fundadores do partido progressista em 1980 que chegaria ao poder em 2003. Antes disto, ambos foram lideranças do partido em São Paulo, pelo qual foram eleitos deputados estaduais e federais.

O sucesso do governo que ajudaram a comandar foi tal que foi preciso encetar uma campanha midiática-judiciária que evitasse a reeleição do presidente. Prática já existente de caixa-dois de campanha usada por todos os grandes partidos foi pela primeira vez criminalizada e acusações falsas de desvio de dinheiro público (https://jornalggn.com.br/justica/o-stf-e-o-dinheiro-da-visanet/) atingiram principalmente José, considerado o mentor intelectual do esquema. José foi execrado publicamente, condenado e preso em 2013 durante um ano, quarenta e cinco anos após a primeira prisão.

O lawfare conhecido como “mensalão”, assim batizado e denunciado por deputado inconformado por não ter um pleito seu atendido por José e que recentemente ostentou um fuzil nas redes sociais ameaçando o STF (https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/09/novo-aliado-roberto-jefferson-pede-a-bolsonaro-golpe-a-constituicao.htm), não foi suficiente para evitar a reeleição do presidente progressista nem que esse fizesse a sua sucessora e essa conseguisse ser reeleita para um segundo mandato. Nova campanha midiática-judiciária, bem mais intensa e articulada do que a anterior, foi então necessária, desta vez atingindo a própria presidenta, destituída do cargo sem crime de responsabilidade, diversos políticos da base parlamentar do governo e causando, enfim, uma grave crise institucional no país. Embora poucos desses políticos atingidos pela operação Lava Jato pertencessem ao partido da presidenta, a operação mirou especialmente o ex-presidente, condenado em tempo recorde em duas instâncias para que ficasse inelegível, e preso para que não participasse da campanha eleitoral de 2018. Atingiu novamente José (que não ocupou nenhum cargo nos governos da ex-presidenta) e desta feita também Antônio. José foi condenado sem provas a mais de 30 anos de prisão, sendo preso em regime fechado em quatro ocasiões entre 2015 e 2019 (https://pt.wikipedia.org/wiki/José_Dirceu). Sofreu violenta tortura psicológica com ameaças e prisões de familiares para que fizesse delação premiada incriminando o ex-presidente (ver entrevista à Carta Capital em https://www.cartacapital.com.br/politica/jose-dirceu-os-que-pedem-frente-democratica-se-recusaram-em-2018/). José resistiu e por uma segunda vez carregou sobre os ombros boa parte do ódio direcionado ao partido. Antônio, contrariamente a José, conseguiu fazer fortuna—não digo que ilicitamente—através de sua empresa de consultoria (http://g1.globo.com/hora1/noticia/2016/09/bc-bloqueia-mais-de-r-30-milhoes-do-ex-ministro-antonio-palocci.html). Foi preso preventivamente em setembro de 2016, condenado a mais de 12 anos de prisão em junho de 2017 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Palocci). Fez uma delação premiada na qual acusa o ex-presidente de receber milhões e de lhe ter dito em conversa privada sem testemunhas ter ciência da corrupção na Petrobrás (http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2017/09/antonio-palocci-acusa-lula-de-receber-r-300-milhoes-para-campanha.html). A delação foi recusada pelo Ministério Público Federal por falta de provas, mas aceita em abril de 2018 pela Polícia Federal, o que valeu a Antônio a liberdade da prisão meses depois. Embora considerando a delação fraca, o juiz do processo tornou-a pública às vésperas do primeiro turno da eleição que derrotaria o partido progressista co-fundado por Antônio e José e levaria o juiz que condenou ambos e o ex-presidente ao primeiro escalão do primeiro governo de extrema direita eleito no Brasil (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/07/moro-achava-fraca-delacao-de-palocci-que-divulgou-as-vesperas-de-eleicao-sugerem-mensagens.shtml).

A operação Lava Jato fez com que as duas vidas paralelas se afastassem ao infinito. Mas não se condene moralmente Antônio. Afinal, a fibra moral necessária para resistir à tortura não é comum. Poucos são como a ex-presidenta que resistiu à tortura física e o ex-presidente que resistiu à prisão por quase dois anos e à várias outras humilhações. Mas que se reconheça que a força moral e política do José não fica atrás da dos varões de Plutarco.

 

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