Vigiar e vender: quando você se torna o produto, por Arnaldo Cardoso

Embora seja bem-vindo o documentário “O Dilema das Redes Sociais” dado ao seu potencial alcance e repercussão, ele não trouxe propriamente nenhuma grande revelação, nem tampouco propostas para domar o monstro criado.

Vigiar e vender: quando você se torna o produto

por Arnaldo Cardoso

A avaliação de que as redes sociais, considerando seu modelo de negócios, se tornaram ameaças à democracia já vem sendo discutida em meios acadêmicos e políticos desde algum tempo e está ganhando nova escala com o recente lançamento pela Netflix do documentário “O Dilema das Redes” (The Social Dilemma) que apresenta de forma contundente a acelerada evolução de tecnologias digitais que tiveram expandidas suas possibilidades de manipulação e indução de comportamentos através dos algoritmos das mídias sociais levando as chamadas Five Big Techs ao centro do debate.

Reunindo informações e depoimentos de especialistas em tecnologia do Vale do Silício e ex-executivos de empresas como Google, Facebook, Twitter, Instagram e Pinterest o documentário nos coloca diante de alertas (um tanto tardios) como “se você não está pagando pelo produto, você é o produto” exposto por Tristan Harris, que foi especialista em Ética de Design no Google. Esse alerta é reforçado por Jaron Lanier, especialista em realidade virtual, ao salientar que a mudança em comportamentos e percepções é o produto ofertado pelas big techs a corporações de diferentes segmentos econômicos. Além desses clientes, esse mesmo “produto” tem sido utilizado em processos políticos eleitorais pelo mundo, alimentando estratégias de grupos políticos com os mais sinistros projetos de poder, descomprometidos com valores democráticos e alheios a parâmetros éticos e legais.

Olhando em retrospectiva, é espantoso constatar a velocidade em que evoluiu esse fenômeno. Em 2006 quando integrei um grupo de pesquisadores liderado pela professora Vera Chaia no âmbito da Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-SP para a realização da pesquisa “As novas tecnologias de informação na ação política no Brasil e na Espanha”, com colaboração de pesquisadores da Universidad Rey Juan Carlos II, de Madri, tal projeto era pioneiro, daqueles que se inserem nas chamadas fronteiras do conhecimento, dado ao fato de haver pouca pesquisa na área e ser na época uma inovação o próprio uso de tais tecnologias no processo político brasileiro. Analisávamos a estruturação de informações em sites dos principais partidos políticos brasileiros e o início da interação com eleitores através de blogs. Até aquele momento as sondagens dos grandes institutos de pesquisa de opinião ainda eram o principal termômetro do ânimo popular com a política e fonte para balizar as campanhas.

Se objetivamente não faz tanto tempo assim, reconhecer a radicalidade das mudanças ocorridas nesses pouco mais de dez anos nos põe em alerta sobre a gravidade do presente e os riscos do descompasso entre a capacidade política e social de controle desses processos e a velocidade e autonomia com que se desenvolvem e se instalam na realidade das sociedades.

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É comum apontarmos como a primeira campanha política que fez uso massivo das mídias digitais aquela que em 2008 levou Barack Obama à presidência dos EUA. Mas para a reflexão aqui proposta vale resgatar um acontecimento político singular ocorrido em 2004 na Espanha e que terminou por dar sinais das potencialidades das novas tecnologias digitais na ação política.

O atentado a bomba a quatro trens da periferia de  Madri em 11 de março de 2004, que matou 191 pessoas e feriu quase 2 mil, às vésperas de eleição nacional cujas pesquisas indicavam folgada vitória do candidato do então primeiro ministro José Maria Aznar (PP) provocou além da comoção nacional uma reviravolta política que passou a ser tratada como o 14-M e no qual as novas tecnologias tiveram papel de destaque.

Após a oportunista tentativa de manipulação da opinião pública pela equipe de Aznar usando veículos tradicionais de imprensa (jornais e canais de TV) na divulgação irresponsável do atentado como ato do grupo separatista basco ETA, posteriormente negado pelas investigações da polícia e por um comunicado do grupo terrorista Al Qaeda reivindicando a autoria do atentado como represália ao apoio do governo liberal de Aznar ao governo americano de George W. Bush na guerra ao Iraque, desencadeou  manifestações por todo o país. Através de chamadas por telefone móvel e mensagens de texto as pessoas foram instadas a se reunirem em praças e ruas. Em 13 de março, véspera da eleição, as manifestações reuniram em Madri 2,5 milhões de pessoas e outras 11 milhões em todo o país.

O resultado foi a vitória do candidato oposicionista do PSOE, José Luís Zapatero com presença recorde de eleitores nas urnas.De lá para cá muita coisa aconteceu, mas se no caso espanhol do 14-M viu-se o potencial das novas tecnologias na convocação e mobilização da cidadania contra os abusos do poder, a percepção que hoje predomina no mundo é a do descomunal poder dos algoritmos usados para a conformação de comportamentos e alteração de padrões de relações político-sociais a partir de desígnios nada transparentes das grandes corporações de tecnologia.

Um dos casos emblemáticos desse estado de coisas foi a campanha em 2016 para o referendo popular no Reino Unido que culminou com a vitória da chapa “Vote Leave” conduzida pelo estrategista Dominic Cummings que utilizou dos algoritmos e de táticas de apelo emocional apoiadas em análises estatísticas aleatórias e na exploração de temas sensíveis. O uso de perfis dos usuários de redes sociais foi um recurso decisivo para o bombardeio de mensagens customizadas aos eleitores, invocando inclusive ressentimentos e rancores. Likes, cliques e compartilhamentos se tornaram fontes para a adaptação de mensagens segmentadas em tempo real. Só na última semana da campanha para o referendo a equipe de Cummings e seu aparato tecnológico disparou um bilhão de mensagens destinadas a eleitores.

Ficou conhecida a decisiva assessoria da obscura empresa canadense de tecnologia AggregateIQ na campanha e da entrada da Cambridge Analytica (especializada em traçar perfis psicológicos e buscar eleitores) provocando posteriores investigações, processos e multas milionárias. Mas se hoje todos sabem quem venceu o referendo no Reino Unido ainda são poucos os que sabem como isso aconteceu.

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O ex Primeiro Ministro inglês David Cameron que após o resultado do referendo renunciou, referiu-se ao estrategista Dominic Cummings, numa entrevista, como um “sociopata de carreira”. Esse estrategista depois se tornou assessor especial de Boris Johnson, Primeiro Ministro britânico.

No mesmo ano de 2016 a violenta e suja campanha que levou Donald Trump à presidência dos Estados Unidos pôs em operação as mesmas estratégias e recursos utilizados no referendo britânico, mas desta vez sob o comando do agitador Steve Bannon. Outra vez a Cambridge Analytica (utilizando dados de usuários do Facebook) se fez presente, desencadeando posteriormente novas investigações. Na campanha norte-americana a novidade ficou por conta de serviços de hackers russos contribuindo com a produção de fake news, teorias conspiratórias e campanhas de difamação contra opositores, com foco na candidata Hillary Clinton.

Ao cataclisma da eleição de Trump se seguiram pelo mundo a chegada de Marine Le Pen da extrema direita francesa ao inédito segundo turno das eleições presidenciais, a ascensão de Matteo Salvini com sua Liga de extrema direita ao governo da Itália em 2018, a vitória de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil, abusando de fake news, disparos em massa de propaganda por whatsapp burlando a legislação eleitoral, e as milícias digitais envenenando o debate nacional e inviabilizando consensos.

Embora seja bem-vindo o documentário “O Dilema das Redes Sociais” dado ao seu potencial alcance e repercussão, ele não trouxe propriamente nenhuma grande revelação, nem tampouco propostas para domar o monstro criado. Nesse cenário, é cada vez mais importante a publicação de pesquisas como a do cientista político ítalo-suiço Giuliano Da Empoli consubstanciada no livro “Os engenheiros do caos” (Ed. Vestígio, 2019) que expõe em detalhes “como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições”. Estruturado em seis capítulos, em um deles o autor esmiúça o processo de criação do Movimento 5 Estrelas – que hoje compõe a coalizão que governa a Itália – proporcionando ao leitor o conhecimento de como se deu a constituição do primeiro “partido digital”. Já através do capítulo “Os ‘físicos’ e os dados” compreendemos que “em termos políticos, a chegada do Big Data poderia ser comparada à invenção do microscópio. […] o objetivo passa a ser identificar os temas que contam para cada um, e em seguida explorá-lo através de uma campanha de comunicação individualizada. A ciência dos físicos de dados permite que campanhas contraditórias coexistam em paz, sem nunca se encontrarem, até o momento do voto. No novo mundo, portanto, a política é centrífuga. Não se trata mais de unir eleitores em torno do denominador comum, mas, ao contrário, de inflamar as paixões do maior número possível de grupelhos para, em seguida, adicioná-los – mesmo à revelia deles”.

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Voltando ao documentário “O Dilema das Redes” algumas análises têm apontado como seu principal defeito a apresentação dos usuários das redes sociais como atores passivos diante de mecanismos de manipulação. De fato, essa visão não dá conta da realidade.

Ações para a reversão dos problemas que o documentário explicita e que outros trabalhos como o de Giuliano Da Empoli já vinham revelando, demanda uma sensibilidade e responsabilidade para além da de usuário. Não bastará que cada um, conscientizado da lógica das redes sociais, faça um “uso moderado” delas. Os danos produzidos não são apenas a usuários individuais, mas sim à sociedade como um todo, às formas de sociabilidade e à cidadania.

Sabemos que a evolução das sociedades humanas pode ser contada a partir do domínio da técnica, de cada avanço tecnológico, das mudanças econômicas, políticas e sociais provocadas e de como foram apropriados os seus resultados. Para que possamos continuar no comando de nossa história, precisamos manter a clareza diante da tecnologia, de quem é o criador e quem é a criatura. E sobretudo não podemos nos esquivar da responsabilidade de responder com ações à pergunta: para onde queremos ir?

As gerações presentes e as futuras dependem dessa resposta.

Arnaldo Cardoso, cientista político

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