‘Wokexploitation’ e tautismo são ciladas do BBB21 na guerra semiótica, por Wilson Ferreira

Mas o que foi fracasso vira oportunidade na versão midiática do experimento: a “ecologia maléfica” vira “wokexploitation”: saem baratas e entram as mazelas sociais e humanas como show.

‘Wokexploitation’ e tautismo são ciladas do BBB21 na guerra semiótica

por Wilson Ferreira

Poucos lembram que o reality show “Big Brother” foi inspirado num experimento científico mal sucedido de 1992 chamado Biosfera 2: oito “tripulantes” confinados numa estrutura isolada do exterior monitorados 24 horas por câmeras, tendo que retirar ar e alimentos dos animais e vegetais daquele meio ambiente simulado. Porém, baratas (muitas baratas!) e ervas daninhas acabaram com tudo. Mas o que foi fracasso vira oportunidade na versão midiática do experimento: a “ecologia maléfica” vira “wokexploitation”: saem baratas e entram as mazelas sociais e humanas como show. Todos os lados do espectro político tentam tirar alguma lição das eliminações (como a rejeição recorde de Karol Konká). Porém o BBB é mais bem sucedido do que foi o Biosfera 2: criou um sistema tautista (tautologia + autismo midiático) onde nenhuma máscara cai ou lição moral é ensinada, tornando-se apenas um dispositivo de sequestro de pauta para, principalmente, a esquerda cair. A única coisa real no BBB é a ecologia maléfica colocada a serviço da guerra semiótica.

Embora o reality show “Big Brother”, idealizado pela empresa de entretenimento Endemol, faça alusão à distopia de George Orwell “1984”, na verdade o show foi explicitamente inspirado na experiência científica Biosfera 2 de trinta anos atrás: quatro homens e quatro mulheres entraram numa gigantesca estrutura geodésica de vidro e metal com 12.000 metros quadrados, em Tucson, Arizona, em pleno deserto, para ali ficarem trancafiados por dois anos. 

A enorme estrutura abrigava 3.800 espécies animais e vegetais e simulações dos cinco principais biomas do planeta Terra , com o propósito de entender como a biosfera planetária funciona e como o ser humano interage com os ecossistemas. Os reclusos participantes do projeto foram monitorados por dois mil sensores eletrônicos, centenas de câmeras, e assistidos por 600 mil pagantes em todo o mundo – público restrito a cientistas e acadêmicos.

O projeto foi um fracasso científico – ácaros e gafanhotos devoraram as plantações; das 25 espécies de vertebrados, somente seis sobreviveram e os únicos organismos que prosperaram foram ervas daninhas, formigas e baratas… muitas baratas!

Porém, foi um sucesso midiático: além da repercussão na impressa mundial, dois anos depois inspirou o reality show da MTV “Real World” (“Na Real”, no Brasil) e, mais tarde, o próprio John De Mol, arquiteto do reality Big Brother.

Certa vez o pensador Jean Baudrillard chamou essa reverberação de um experimento científico no campo do show midiático de “ecologia maléfica”: se na Biosfera 2 a presença do Mal assombrou a utopia tecnocientífica de um suposto equilíbrio benigno nos ecossistemas (assim como os liberais acreditam num equilíbrio do mercado sustentado por uma “mão invisível”), da mesma forma seres humanos confinados em um estúdio que pretende emular o ecossistema humano somente terá como resultado um ambiente predado pela intolerância, preconceito, violência, estupidez e crueldade – leia BAUDRILLARD, Jean “A Ecologia Maléfica”, In: IDEM, A Ilusão do Fim ou a Greve dos Acontecimentos, Lisboa: Terramar, 1992.

A diferença é que para a mídia esse é o resultado esperado e lucrativo: o “wokexploitation”, transformar em show voyeurístico as mazelas sociais e do “demasiado humano” – de “woke” termo político afro-americano para se referir a questões relativas à justiça racial e social.  

Do moralismo de Bial ao jogo de Leifert

Mas esse espírito “exploitation” nunca era admitido pelos produtores desse gênero televisivo. Por exemplo, na era Pedro Bial do “Big Brother Brasil” (BBB), era visível o esforço não só da edição como também do apresentador em tentar enquadrar as situações vividas pelos participantes às longas crônicas moralizantes declamadas antes da eliminação cada jogador. A cada declaração politicamente incorreta de um participante, Bial intervinha para diluir o impacto.

Até então, o grande desafio para o BBB era confinar tamanha “biodiversidade” (gordos, atléticos, homossexuais, transsexuais, ricos, pobres, homofóbicos, heteros, emos… ) e transformar suas relações explosivamente maléficas em lições de moral, assim como no projeto Biosfera 2 onde o sexo entre os tripulantes era proibido. Tentava-se exorcizar, ou pelo menos ocultar, o Mal e manter um ambiente asséptico entre os “brothers”.

Com a era Tiago Leifert, isso acabou. O BBB passou a ser assumido apenas como um jogo, sem mais pretensões moralizantes ou motivacionais. Quem sabe, porque o atual apresentador seja um entusiasta dos games de computador e introdutor do jogo como evento esportivo no jornalismo esportivo da emissora.

wokesploitation é a própria natureza do reality show desde que foi para além do campo científico – de baratas ao bullying. Mas no Brasil ganha um sentido político: transformar em entretenimento mórbido e sensacionalista o ativismo identitário como homossexualidade, feminismo, racismo, transsexualidade etc. 

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