Yalu: A beira da terceira guerra mundial, por Fábio de Oliveira Ribeiro

 

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

 

A julgar pelos comentários postados à margem do texto Trump e o Holocausto Nuclear, a esmagadora maioria dos brasileiros não tem uma noção clara do que a ameaça norte-americana representa para a Coreia do Norte. O grande público não só ignora o que ocorreu durante a Guerra da Coreia, como parece ter seu imaginário construído por filmes com Team America: World Police (2004) e A Entrevista (2014). O primeiro foi feito para ridicularizar Kim Jong-il (pai do atual líder norte-coreano), o outro para sacanear Kim Jong-un.

É evidente que os norte-coreanos não fazem a mesma imagem da Guerra da Coreia que nós. Os avós deles sofreram na carne os horrores da guerra. Nós apenas rimos dos filmes norte-americanos que ridicularizam a Coreia do Norte. Os filmes norte-coreanos sobre aquele conflito não chegam ao público brasileiro.

Há informações relevantes sobre a Guerra da Coreia na internet https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_da_Coreia. Mas ela está muito mais distante dos brasileiros com mais de 50 anos do que a Guerra do Vietnã, primeiro conflito a ser intensamente coberto pelos telejornais no Brasil. Entre ambas há um abismo na internet: enquanto a Guerra da Coreia tem 340.000 resultados no Google, a Guerra do Vietnã é mencionada em 659.000 websites. A discrepância em inglês é ainda maior Korean War é citada 18.500.000 vezes enquanto Vietnan War em 30.300.000 resultados.

Ulrapassar a ignorância sobre um assunto tão distante que se torna algo importante neste momento. Afinal, a continuação da Guerra da Coreia tem tudo para provocar uma catástrofe mundial. O melhor livro lançado no Brasil sobre o conflito entre norte-americanos e norte-coreanos foi escrito pelo alemão Jörg Friedrich. Lançado em 2011 pela editora Record, “Yalu – A beira da terceira guerra mundial” tem 559 páginas e foi o resultado de uma extensa pesquisa histórica realizada pelo seu autor.

Nos primeiros capítulos Jörg Friedrich traça um panorama da II Guerra Mundial e das consequencias da utilização de bombas atômicas no Japão pelos norte-americanos. “A sensação de estar indefeso cresceu após Hiroshima e Nagazaki. A construção da bomba atômica russa era vista pelos que nela trabalhavam como uma fuga à rendição. O monstruoso poder, contudo, haveria de encontrar seus limites na própria vulnerabilidade. Somente esta vulnerabilidade seria capaz de conter o desumano e transformá-lo em humano. Os vivos temem a morte e, por terem essa característica, costumam, ocasionalmente, deixar uns aos outros em paz. A paz decorre do equilíbrio. Pacíficos são todos aqueles que podemos matar; a filosofia da construção da bomba era a mesma em qualquer lugar”. (p.  107)

Após a URSS testar com sucesso sua primeira bomba atômica os estrategistas norte-americanos ficaram apavorados e “Quando Washington se viu obrigada a admitir que avaliara incorretamente o potencial da Rússia, decidiu-se não incorrer no mesmo erro pela segunda vez. Para não ser, um dia, o mais fraco, a única solução era ser o mais forte.” (p. 115). A lógica da Guerra Fria havia dominado as relações internacionais e não podemos dizer que ela deixou de operar após a queda da URSS. Afinal, cada potência nuclear teme a destruição que a potência nuclear rival pode impor às suas tropas ou à sua população civil.

Esta é a lógica que rege o conflito atual entre EUA e Coreia do Norte. Muito embora tenha mais bombas nucleares à sua disposição, os militares de Trump sabe que Kim Jong-un está em condições de usar bombas nucleares para devastar as bases norte-americanas na Coreia do Sul, no Japão e afundar a frota enviada para ao Mar da China.

Antes de mergulhar na Guerra da Coreia, Jörg Friedrich narra os desdobramentos da II Guerra Mundial na Ásia, dando especial atenção à revolução comunista na China (que antecedeu à revolução comunista norte-coreana). “Via de regra, o êxito gera a tolice e o prejuízo a esperteza. Mao Zedong foi amplamente favorecido, desde o início, pois seus prejuízos atingiam proporções deprimentes. Portanto, viu-se obrigado a investigar as causas, enquanto Chiang, o vencedor, acreditou que fazia o certo, e que só precisava seguir adiante. Nesses termos, estava condenado a derrota, por se recusar a entender sua vitória, isto é, que sua força provinha da fraqueza do adversário.” (p. 162) Estas palavras podem muito bem servir de uma advertência, para os EUA. O sucesso no Iraque e no Afeganistão pode estar criando nos norte-americanos a falsa impressão de que podem repetir o mesmo resultado na Coréia do Norte.

É impossível compreender atualmente as relações delicadas entre EUA, Coréia do Norte e Rússia sem dar a devida atenção ao fato mais importante do século XX na Ásia: o sucesso da revolução comandada por Mao Zedong. Apesar de manter um low profile a China ocupa hoje como no passado um papel central na Guerra da Coréia.

O autor afirma que vitória de Mao Zedong não foi bem recebida nem nos EUA, nem na URSS. “O movimento visando a destituição de Chiang tomou feições epidêmicas, contagiando Truman e Stalin, que constrangidos, assistiam à ascensão de uma China totalmente comunista. Enquanto os EUA, anestesiados pelo fracasso dos seus planos para o Pacífico, se perdiam em monótonas discussões sobre se Mao seria comunista ou pseudocomunista, nacionalista ou instrumento dos soviéticos, digno ou indigno de aceitação, Stalin via o incômodo vencedor como um fato consumado que afetaria o mundo inteiro, cumprimentado-o pelas incríveis vitórias e desculpando-se pela sua insignificante contribuição. Ao mesmo tempo, enviou à China um membro do Politburo, Anastas Mikoyan, em missão de reconhecimento, com a tarefa de obter respostas para duas perguntas: Mao respeitaria o pacto firmado com Chiang? Mao o reconheceria ou renegaria como líder mundial do comunismo?” (p. 171)

Após fazer uma extensa recapitulação dos fatos que antecedem a Guerra da Coreia, Jörg Friedrich começa a narrar o conflito dizendo o seguinte: “No chamado ‘gargalo da Coreia’, ao norte, entre a foz do Chonchon, no mar Amarelo, e Hugnam, no mar do Japão, onde no final de novembro de 1950, a briosa 2a. Divisão de Infantaria dos EUA perdeu, em quatro dias de combate 80% dos seus efetivos e quase todas suas peças de artilharia, a língua de terra tem 130 quilometros de largura. Ali, durante a guerra de 1950 a 1953, a mais humilhante derrota da história norte-americana selou o destino da Coreia. Este conflito é chamado de ‘Guerra da Coreia’, mas foi um confronto entre a América e a China.” (p. 175)

Antes do aumento da tensão entre Trump e Kim Jong-un, um novo conflito entre a América e a China estava ocorrendo no Mar da China. A supremacia naval norte-americana na Ásia está sendo contestada pelos chineses. Os japoneses, aliados dos norte-americanos, também estão determinados a garantir seus direitos de pesca e petrolíferos na região. Nesse contexto, o reinício da guerra da  Coreia do Norte não será apenas um conflito entre norte-americanos e norte-coreanos. A guerra pode envolver a China, o Japão, a Coreia do Norte, a Coreia do Sul e se espalhar por toda a Ásia e pode chegar até mesmo ao território norte-americano.

As vitórias chinesas na Guerra da Coreia, relatadas por Jörg Friedrich e ignoradas do grande público brasileiro, certamente condicionam a forma como os militares dos dois países encaram aquele conflito. O desejo de uma revanche parece animar ambos os lados. Assim como, embalados pelas vitórias recentes no Iraque e no Afeganistão, os norte-americanos usam a tensão com a Coreia do Norte para reafirmar sua supremacia militar na região, a China terá que flexionar seus músculos para mostrar ao mundo que não é apenas uma potência econômica e tecnológica de segunda categoria.

A divisão da Coreia entre capitalistas e comunistas não foi tranquila. O regime instalado no sul pelo comandante militar norte-americano da Coreia do Sul (John R. Hodge) era mais despótico e violento do que aquele que havia surgido no norte do país. O comandante do XXIV Corpo  de Exército e do X Exército dos EUA não fazia questão de fazer amigos. De fato,  “Hodge só conseguiu novos inimigos. Insistindo em manter nos quadros da polícia 8 mil colaboracionistas restantes, atraiu toda sorte de hostilidade. Os torturadores e os integrantes de esquadrões da morte, que até bem pouco tempo haviam sido um dos braços do domínio estrangeiro [japonês], estavam de volta, circulando pelas ruas com armamento norte-americano, radiotransmissores e jipes.” (p. 188)

Nos anos 1950 o racismo ainda dominava as relações entre japoneses, coreanos e norte-americanos. Mesmo derrotados, os japoneses acreditavam que eram superiores aos seus ex-vassalos coreanos. Pelo lado coreano, “O ódio aos japoneses era incomensurável, porém irreprimível. O país tinha pessoal qualificado para os cargos da alta administração, mas a opinião pública exigia que os japoneses fossem mandados embora, e sentia-se altamente frustrada ao ver que nada disso acontecia.” (p. 184).

Os norte-americanos, vitoriosos contra o Japão, também eram racistas.  Eles também estimulavam o racismo dos japoneses e coreanos. “Ainda que vissem japoneses e coreanos como indivíduos pertencentes a uma só raça, as tropas [norte-americanas] de ocupação desdenhavam os coreanos chamando-os de ‘gooks’. No entanto, demonstravam respeito pelos oficiais japoneses, nos quais viam um inimigo derrotado, mas corajoso. Conforme Hodge constatou, em dezembro, a Coreia também contava em termos de poder militar.” (p. 184)

Na atualidade, as teorias raciais parecem ter caído em desuso na Ásia. Em geral, as rivalidades políticas e econômicas entre coreanos, japoneses e chineses não é expressa em termos raciais. Os japoneses investem na Coreia do Sul e consomem produtos sul-coreanos. Apesar das feridas abertas antes e  durante a ocupação japonesa da Manchúria (II Guerra Mundial), China e Japão procuram coexistir pacificamente.

Todavia, o racismo voltou a se tornar uma força política relevante nos EUA. Trump foi eleito com um discurso marcadamente racista voltado para um público que acredita na superioridade do homem branco norte-americano. O principal assessor do atual presidente dos EUA é um racista declarado. Portanto, do lado norte-americano a hostilidade contra a China e a Coreia do Norte é em grande medida alimentada pela mesma irracionalidade que animava as tropas dos EUA que ocuparam a Coreia do Sul nos anos 1950. Este dado importante não tem sido levado em consideração como deveria.

A Guerra da Coreia começou oficialmente quando o Norte invadiu o Sul. Jörg Friedrich assevera que “…não havia lógica que justificasse um golpe militar de Kim Il Sung. Se ele realmente quisesse anexar o sul, teria como fazê-lo de uma forma absolutamente segura, conforme ajuizou, muito tempo depois uma alta patente sulista. Não precisaria fazer coisa alguma além de esperar. ‘Seu grande erro foi nos ter atacado.’ Com uma pequena dose de subversão, a cleptocracia de Rhee estaria acabada dentro de poucos anos. Porém foi salva pela ofensiva de Kim. A ONU se deixou levar pela ideia de que aquele sórdido castelo de cartas era uma vítima de agressão, derramando rios de sangue em sua defesa.” (p. 192)

Muito embora tenha sido uma guerra entre EUA e China como disse Jörg Friedrich, a Guerra da Coréia iniciada pelo avô de Kim Jong-un foi em grande medida planejada pela Rússia de Stalin. Por isto, o autor do livro afirma que o “… envolvimento político da China encerrava um mistério. Curiosamente, entregava-se a decisão da guerra a uma potência que não conhecia nem devia conhecer o planejamento, a hora, os meios e a supervisão do ataque. Em 13 de maio, 42 dias antes da invasão, Kim desembarcou em Beijing com o inusitado propósito de obter ajuda para uma guerra já totalmente planejada pela Rússia. À noite, sem o seu conhecimento, Chu En-lai entrou em contato com Moscou, a fim de confirmar a estranha missão. Stalin respondeu na manhã seguinte. ‘A Coreia do Norte pode passar à ação.’ Tal questão, entretanto, deveria ‘ser discutida pessoalmente, com o camarada Mao’.” (p.  205)

Um mistério semelhante envolve o reinício das hostilidades na Coreia. Quem movimenta a mão de Trump? Alguns dizem que é Putin, outros suspeitam dos fabricantes de armamentos norte-americanos ou do Japão. Apesar de manter um low profile, a China certamente tem sido consultada por Kim Jong-un.

O livro “Yalu – A beira da terceira guerra mundial” narra em detalhes a derrota militar dos EUA para a China na Coreia. O papel da URSS e de Stalin no início e no fim do conflito foi bem delineado e documentado. O livro é uma leitura essencial para quem quiser entender aquele confronto militar que quase se transformou em guerra nuclear e que está recomeçando nesta páscoa.  

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