Youtuber bombou no campo progressista porque não ameaça a fragmentação crônica, por Carolina Maria Ruy

Esta defesa de fachada da frente ampla, empunhada por sectários crônicos, porém disfarçados, é perigosa porque esconde os sintomas da doença da fragmentação e da intolerância.

Youtuber bombou no campo progressista porque não ameaça a fragmentação crônica

por Carolina Maria Ruy

Frente ampla é o movimento que resulta de um grande diálogo político entre partidos e movimentos sociais de esquerda, centro esquerda, centro e até setores da centro direita em torno do compromisso de um programa em comum.

Um exemplo de ação ampla bem sucedida foi a realização do Primeiro De Maio Unitário das Centrais Sindicais neste ano. No artigo “A construção da unidade no 1º de Maio das centrais sindicais” publicado logo após o evento, dia 5 de maio, os sindicalistas Wagner Gomes (CTB), Álvaro Egea (CSB) e João Carlos Juruna (Força Sindical), afirmaram que construir o evento foi trabalhoso, mas perfeitamente possível. Eles disseram que:

“Embora seja fundamental, esta soma de forças não foi, e não é, fácil. Sentimos na pele que a política ampla e unitária não se faz apenas de palavras e intenções. Ela resulta de toda uma trajetória de diálogos, demonstrações de confiança, concessões e tolerância”.

E que:

“Precisamos, nós sindicalistas das mais diversas tendências, que nos aprofundar no esforço de compreender que a verdadeira unidade não deve ser apenas entre quem comunga das mesmas ideologias. A unidade que queremos deve ser fortemente representativa e deve contemplar visões diferentes para além dos nossos tradicionais grupos. Ela é o contrário do sectarismo e do hegemonismo, que são formas de autoritarismo”.

Os sindicalistas deram um exemplo de construção e humildade. Bom para os trabalhadores.

Mas, infelizmente, quando se trata do debate eleitoral e partidário, esse é um ideal em um horizonte distante.

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Estamos ainda presos ao esquema divisionista que demoliu a esquerda nas eleições de 2018, com a diferença que agora parecemos obcecados por uma ideia fetichista de frente ampla. O termo, que virou chavão entre os grupos de oposição ao governo, surge mais como um mea-culpa envergonhado pela vacilação que pavimentou a vitória de um presidente de tão baixo nível como o Jair Bolsonaro, do que como uma proposta concreta.

Esta defesa de fachada da frente ampla, empunhada por sectários crônicos, porém disfarçados, é perigosa porque esconde os sintomas da doença da fragmentação e da intolerância.

Isso tornou-se particularmente agudo na repercussão da entrevista do Youtuber Felipe Neto no programa de entrevistas da TV Cultura, Roda Vida. Não cabe aqui uma crítica ao Youtuber, nem há interesse em fazê-la. O que liga o sinal de alerta é que sua defesa em parte do campo progressista contrasta com o comportamento de gueto verificado quando se trata de dialogar com políticos de partidos que não rezam pela mesma cartilha.

Ações políticas e de movimentos sociais que apontam para um diálogo amplo, caem no limbo da guerra da polarização, sem a merecida repercussão entre a mesma parte do campo progressista que bajulou o jovem Youtuber de forma histriônica e constrangedora.

“Mas ele tem tantos milhões de seguidores”, dizem. Ora, não faz muito tempo que quem elegia seus ídolos com base no número seguidores ou expectadores era chamado de alienado. Havia radicalismo e sectarismo. Mas havia massa crítica, discernimento e noção do que é importante. Hoje há o radicalismo e sectarismo de sempre, mas se perdeu o senso crítico, a noção da realidade, a vergonha na cara…

Depreendo disso, pegando o exemplo recente do Youtuber Felipe Neto, que ele “bombou” no nosso campo mais por não ameaçar o divisionismo do que por propor amplitude.

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Em bases como esta, resta claro que a frente ampla não é pra agora. Ainda vamos bater muito a cabeça por aí. Por ora estamos condenados à polarização e ao fisiologismo de sempre. Deslumbrados com as redes sociais, reféns dos likes, engolidos pela miséria intelectual e cultural.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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4 comentários

  1. Prezada Carolina, bom dia!!!

    Não sabia da existência do mencionado youtuber, todavia ao assistir ao programa Roda Viva, achei que, em momentos históricos pelo qual estamos atravessando, político, social, sanitário, etc. com uma juventude alienada, quando não fascista, o Felipe Neto mostrou-se com uma capacidade muito boa em difundir à sociedade os valores democráticos, inclusive ao fazer uma revisão de seu posicionamento a respeito do golpe sofrido por Dilma. Me parece, me desculpe, que você sim, se mostra sectária e abrindo o flanco para uma direito que sempre segurou o osso. Caso eu esteja errado em minha análise, por favor, seja mais clara.

  2. “E agora, quem irá nos defender? Tcharam! eu, o Influencer!

    Brasil, segunda-feira, 22 horas. Começa na TV Cultura mais um programa Roda Viva. Não tenho TV, em nov/2019 cancelei a SKY (moro na roça) porque nos últimos 18 meses a TV não havia sido ligada, 150 contos jogados fora mensalmente.

    Não adianta não ter TV, na timeline pululam expressões de espanto com

  3. “E agora, quem irá nos defender? Tcharam! Eu, o Influencer!

    Brasil, 18 de maio de 2020, segunda-feira, 22 horas. Começa na TV Cultura mais um programa Roda Viva. Não tenho TV, em nov/2019 cancelei a SKY (moro na roça) porque nos últimos 18 meses a TV não havia sido ligada uma única vez, 150 contos jogados fora mensalmente.

    Não adianta não ter TV, na timeline pululam expressões de espanto com entrevistado, O Influencer. quando termina, começa o show de constrangimento. Passa da meia-noite, e a vontade é entrar debaixo da mesa de vergonha alheia. Duas lembranças me vem a mente:

    1) aquela cena do filme 2001 Uma Odisséia (não adianta corretor, vou acentuar Odisséia) no Espaço, com os macacos em volta do monólito (https://www.youtube.com/watch?v=espEgDUkUIE)

    2) os bons tempos das transmissões de futebol, TV Tupi, anos 60/70, preto e branco, quando o serviço de som do Maracanã anunciava: “A ADEG informa: SAI: Luís Nassif, Janio de Freitas, Mino Carta, Bob Fernandes, Fernando Morais, Maria Inês Nassif, etc, etc, etc. ENTRA: O Influencer, 32 anos, cabelo roxo e amarelo.

    Não é possível, não é admissível, não é sensato que um assessor de governador com status de secretário estadual caia de quatro diante da “colocação” do Influencer sobre a necessidade de uma Frente Ampla. Na minha timeline, alta madrugada (troquei o dia pela noite), dezenas de comentários “…vc viu, ele falou em Frente Ampla”, como se fosse a quintessência da sagacidade política. Não é possível que chegamos a esse ponto. Deve ser o efeito da quarentena.

    Espaço Selvagem é uma livraria que fica em Taubaté, o dono é o amigo santareno Nicodemos Sena. Naquele exíguo espaço de 30 m2 ele promove saraus, encontros, debates, lançamentos de livros. Em 24.10.2019, trouxe o Frei Betto. Bombou, caixa de som pra fora, na calçada, consegui sentar porque cheguei cedo. Após 40 minutos de palestra, a pergunta da noite: frei Betto, uma Frente ampla é possível no Brasil? Antes de terminar a pergunta frei Betto fulminou: “Impossível, sem chance, esqueça, não conte com isso”. Nossa, mas por que o frei Betto disse isso? Porque ele conhece as entranhas da “impossibilidade”, sabe onde está o nó.

    Mas agora, tudo mudou, segundo o assessor do governador com status de secretário, temos o Influencer, ainda que mal saído dos cueiros. Ele e seus cabelos roxo e amarelo, mais os 38 trilhões de seguidores irão nos redimir, igual o Chapolin Colorado. Frente Ampla? chama o Influencer!

    Quando tudo isso passar, sobrará vergonha alheia. Mas o Google estará aí, implacável.

  4. Quando comecei a ler esse artigo já comecei a desconfiar, quando chegou a definição de frente ampla bem sucedida a palhaçada que fizeram no Primeiro De Maio Unitário onde as figuras mais reacionárias possíveis foram misturadas com elementos vinculados a esquerda, aí foi demais, porém a Internet é a nossa memória estendida e fui pesquisar quem é essa senhora Carolina Maria Ruy e não deu outra, ela é coordenadora de uma entidade capitaneada pelo Paulinho da Farsa (ou da Força Sindical, para quem não entendeu a ironia).
    Definir frente ampla com uma verdadeira “suruba” entre forças de “entre partidos e movimentos sociais de esquerda, centro esquerda, centro e até setores da centro direita em torno do compromisso de um programa em comum.” Chega ser um deboche, pois nada há em comum entre movimentos sociais de esquerda e setores de centro direita (ou mesmo de centro), logo não chegando nem a termos sociológicos, mas ao bom senso se vê que a articulista está fazendo tudo para enganar. Vamos aos motivos mais claros:
    No Brasil praticamente nenhum partido ou movimento social tem um programa, logo fazer um programa comum é simplesmente juntar o nada com qualquer coisa, porém na prática, que indica o “programa” se vê claramente que enquanto os movimentos sociais querem mais participação nas decisões a direita não quer somente não dar participação a estes mas sim eliminá-los.
    As esquerdas e os movimentos sociais querem mais renda aos trabalhadores, o centro a centro direita e a direita querem é mais lucro e para isso devem retirar direitos dos trabalhadores para reduzirem seus salários, logo estabelecer um programa comum entre quem quer algo e outros que querem exatamente ao contrário é daquelas impossibilidades impossíveis de superar.
    Poderia seguir adiante no seu texto, porém como todos sabem os inícios dos textos são as partes que balizam o resto, ou seja, partir de um início que sempre é o mais bem pensado e que revela as intenções de quem escreve que se revela o substantivo, mas mesmo assim vamos a uma crítica em diagonal do resto de seu texto.
    Primeira coisa, a esquerda não se dividiu nas eleições de 2018, mas a autora diz isso porque ela supõe talvez que Ciro Gomes é alguém da esquerda, ou seja, ou ela não sabe o que é esquerda ou simplesmente esqueceu que no primeiro turno os únicos candidatos que poderiam ser chamados de esquerda (PSOL e PSTU) tiveram somados menos que 1% dos votos, ou seja, NÃO HOUVE DIVISÃO NA ESQUERDA, já o coroné do Ceará….
    Mas o que leva essa senhora a propor tamanha despautério e citar como grande frente ampla uma palhaçada que a própria CUT entrou fazendo uma união com sindicatos que no passado eram chamado de pelegos e hoje em dia nem mais pelegos de governos nacionalistas são, tornaram-se meros coadjuvantes da extrema direita que usam garfo e faca para comer.
    O que mais intriga nesse artigo é que ele pendula ao longo do seu texto, primeiro beatificando uma excrecência que foi o ato de primeiro de maio, que além de contar com todas as centrais sindicais contou com a presença de FHC e do neoliberal gaúcho Gov. Eduardo Leite e por pouco não convidaram mais outros líderes do centrão (na verdade direitão), numa das mais patéticas apresentações da CUT e de Lula, que se sujeitaram a limpar o passado de figuras totalmente contrárias. Ou seja, quem acha isso uma maravilha, ficar criticando pessoas que simplesmente ficaram surpresas pela entrada de um YouTuber que fez pelo menos uma autocrítica muito parcial, mas que chamou o golpe de golpe.
    Ou seja, o que assusta essa senhora.

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