Economista prevê aumento da renda das famílias chinesas

Jornal GGN – Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, concorda com as previsões de que China não vai manter o ritmo de crescimento de 7% ao ano, mas acredita que o que importa é que a renda das famílias chinesas deve aumentar em torno de 5% a 6%, maior que o crescimento médio previsto para o país para a próxima década de 4%.

De acordo com Pettis, o aumento da renda dos chineses é algo desejado por muitos países, e que o consumo será mais importante que o investimento. Isso encerrará o ciclo de altos preços de commodities, mas pode ser benefíco para o mercado de alimentos e também para a indústria de países em desenvolvimento.

Em entrevista ao Valor, ele critica o Brasil por ter voltado a concentrar seus esforços na exportação de commodities. “Preço das commodities em alta é como cocaína”, afirma.

Do Valor

“Preço alto das commodities é como cocaína” , diz Pettis

Por Flavia Lima e Marta Watanabe

O mundo todo está focado nas previsões de que a China não vai crescer mais 7% ao ano, percepção que para o consultor e professor da Universidade de Pequim, Michael Pettis, está correta. Para ele, o crescimento médio na próxima década será de, no máximo, 4%. Mas o que importa, diz ele, é que a renda das famílias chinesas vai crescer acima disso -­ entre 5% e 6% – ­, algo “desejado por muitos países”.

Implementado o profundo ajuste pelo qual precisa passar a economia chinesa, diz Pettis, o consumo vai passar a dar as cartas no lugar do investimento. Isso coloca um ponto final nos tempos de preços de commodities metálicas nas alturas, mas pode significar uma boa notícia não só ao mercado de alimentos, como também para a indústria de países em desenvolvimento.

O economista, porém, não poupa críticas ao Brasil, ao dizer que o país não fez a coisa certa ao voltar a concentrar esforços na exportação de commodities. “O preço das commodities em alta é como cocaína”, diz. “Hoje, há um grande realinhamento de preços e acredito que a estratégia vai se provar um erro”. Para Pettis, a Índia poderá ajudar a aliviar as pressões que pesam sobre o resto do mundo. “Mas eu não vejo que outro país possa ter esse papel”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: O senhor parece pessimista com os desdobramentos da economia chinesa e o impacto disso sobre países como o Brasil. É isso?

Michael Pettis: Tenho a mesma visão sobre a China desde 2006, 2007. Ela está envolvida em um modelo de crescimento orientado por investimentos com o qual temos grande familiaridade. Por exemplo, o Brasil no fim da década de 1960 e início dos anos 1970 teve o mesmo modelo. Um dos aspectos desse modelo é que em seus estágios finais, sem exceção, há um crescimento insustentável da dívida seguido de um ajuste bastante difícil. Por anos, as pessoas acharam que eu era muito pessimista sobre a China, mas agora veem que é exatamente isso que está acontecendo. Os receios acerca da China estão se tornando tão grandes que já há quem diga que o país vai passar por uma crise econômica.

Valor: O que o sr. acha?

Pettis: Acho até possível, mas bastante improvável. Meu cenário básico para a China é que nos dez anos de governo do presidente Xi Jinping, ou seja, de 2013 a 2023, o país não vai crescer mais do que 3% ou 4%, o que seria consistente com os precedentes históricos. Quando se olha para outros ajustes, é difícil concordar com números mais altos. Mas não é isso que importa, o que interessa são outros fatores. Se a China se ajustar e o PIB crescer 3% ou 4%, a renda das famílias chinesas deve crescer mais rápido do que isso ­ é isso o que esse ajuste significa. Logo, a China só vai crescer 3% ou 4%, mas a renda das famílias comuns chinesas ainda vai crescer 5% ou 6%, o que é realmente bom. Muitos países adorariam ter esse cenário. A única dificuldade é que, por muitos anos, a renda das famílias cresceu abaixo do PIB e a grande beneficiária disso foi a elite. Mudar isso significa um problema político e não econômico e essa é a razão dos ajustes estarem se provando tão difíceis. É também o motivo pelo qual os primeiros passos do presidente terem sido centralizar o poder para implementar as reformas necessárias. Desde 2007, quando o governante anterior começou o processo de ajuste (e falhou), se reconhece que a dificuldade de impor as reformas se deve à oposição de quem tem interesses contrariados.

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