Para os EUA, Assad é um mal menor comparado aos jihadistas

Enviado por Paulo F.

Do Diário de Notícias de Lisboa

Confirma-se: ditador Assad voltou a ser frequentável

por LEONÍDIO PAULO FERREIRA 

Bashar al-Assad tem de sair, não tem é de ser já. É esta agora a posição dos Estados Unidos no conflito na Síria, com prioridade absoluta para a destruição do Estado Islâmico.

E quem a deixou clara foi John Kerry, o chefe da diplomacia americana, que acabara de falar com o homólogo britânico, Phillip Hammond, o que torna evidente que entre os aliados da NATO se forma um consenso sobre Assad ser um mal menor face aos jihadistas. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Rui Machete, o tinha deixado expresso numa entrevista ao DN, alertando, porém, para as reticências dos franceses, obcecados com o derrube do regime.

Com a crise dos refugiados na Europa a mostrar que a perpetuação da guerra na Síria ameaça tornar-se um problema que vai além do Médio Oriente, a vontade de agir cresce entre as potências. E mesmo a França fala da intensificação dos bombardeamentos aéreos, ainda que o ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, em conversa com o Le Monde, faça questão de ressalvar que “atacar o Daesh não significa favorecer Assad”.

Antiga potência colonial e com fortes laços com a Síria, a França tem uma palavra importante a dizer sobre o conflito, mas não é evidente que seja a final. Sobretudo quando os Estados Unidos, a um ano do fim da presidência de Barack Obama, dão sinais de querer resolver o caos na Síria e no Iraque, que já afeta a Turquia e ameaça desestabilizar o Líbano e a Jordânia.

Ora, os Estados Unidos não escondem que uma cooperação com a Rússia é decisiva para derrotar o Estado Islâmico, ou Daesh (acrónimo árabe preferido por algumas diplomacias).

Num momento em que se fala do reforço da presença militar russa na Síria, aliada do Kremlin desde a era soviética, houve já um contacto telefónico entre o secretário da Defesa americano Ash Carter e o ministro russo Sergei Shoigu para coordenar ações. E entretanto Kerry sublinhou que Estados Unidos e Rússia partilham o desejo de destruir o Estado Islâmico.

Há seis meses, neste espaço, publiquei sob o título “É lógico: o ditador Assad voltou a ser frequentável” uma análise sobre a mudança de estratégia americana, baseada numa entrevista de Kerry à CBS em que admitia dialogar com Assad. Agora confirma-se. E não é que tenham desaparecido as razões que justificavam o apoio à revolta popular de 2011 – Assad matava opositores, apoiava-se numa minoria religiosa e fez da família dona do país. O problema é que em vez de se combater na Síria por uma democracia se passou a combater por um califado, com perseguição às minorias, atrocidades várias, ameaças terroristas ao Ocidente e crise dos refugiados.

Se estiver unida, a Europa pode liderar a reação global ao Estado Islâmico, até porque é quem sofre mais as consequências. Mas precisa do peso militar americano e da ajuda da Rússia. Já se percebeu que Assad é um problema para resolver mais tarde. Até a França acabará por o admitir.

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