Alteridade, a prática de um conceito amoroso, por Mariana Nassif

Alteridade, a prática de um conceito amoroso, por Mariana Nassif

A vida é mesmo uma passagem interessante, ainda mais pra quem se dá. 

Há algumas semanas um movimento esquisito reapareceu por aqui e, então, lá fui eu buscar sabedorias pra enfrentar e crescer, uma vez que é isso o que acho que deve ser feito, abrindo o parêntese que em qualquer olhar sob qualquer espectro, religioso ou não, a evolução dos seres é premissa básica – ainda que no Arcadismo com seu carpe diem, a intenção é o distanciamento dos excessos e predicados trabalhados durante o período barroco, mesmo que vez ou outra a impressão seja a de somente ir com a maré. Pesquisas literárias fora, mesmo que as adore e faça viagens para dentro de cada uma delas, a questão é que um conceito pipocou por aqui enquanto eu procurava evolução pro meu ser. 

Sem dúvida alguma você já ouviu falar em empatia, aquele conceito que solicita que a gente abra mão de quem é e caiba no sapato do outro. Ah, não me diga que em plena era do coach-interpessoal-haribo-master-plus-em-busca-de-que-papel-eu-represento você ainda não se deparou com questões empáticas, seja em pedidos lúcidos e profundos, quem sabe até mesmo provenientes de quem tem lugar de fala para exercitar empatia, seja no discurso ambivalente “estou te pedindo um pouco de empatia como mulher/homem/gay/mãe/pai/irmão/etc” onde tudo bem agredir o outro com as mãos em prece. Olha, inspira, expira, mentaliza Oxalá curando… e dá-lhe banho de canjica! Empatia, gente, é um dos conceitos mais profundos e descolados da realidade dos seres comuns porque, por definição, pede que a gente saia do nosso lugar e se coloque no do outro. Desconsiderar nossas próprias experiências em prol de outro ser, para tentarmos entender a situação/sensação que ele vivencia me parece deveras impossível, além de um pouco burro: não quero de forma alguma deixar minhas experiências passadas, estas que trouxeram algum aprendizado emocional por aqui, para viver as de quem mal conheço, eu heim… 

Prefiro agir com educação, limites e, de pouco tempo pra cá, tenho utilizado uma técnica bacaninha, aprendida nos cursos terapêuticos da vida, que é a de tirar uma foto de um tempo no futuro com a pessoa com quem interajo e, com detalhes, pensar no que desejo sentir naquele encontro onde, tomara deus, a raiva e os impulsos do momento atual já não estejam presentes. Tenho encontrado uma predileção por sentir orgulho de quem eu sou e, então, promover diálogos mais saudáveis, evitando agressões que irão de deixar envergonhada de quem eu fui, mesmo que entenda que evoluções passem por maus momentos. Já sou bem grandinha pra tomar conta das minhas rédeas e não gosto de pensar que as palavras e emoções saem de mim induzidas pela maldade de outros, enfim. Travesseiro e consciência todo mundo tem – dorme bem quem usa. 

Bem, empatia desmistificada, tô liberada de ter que ser monja antes de respeitar o limite do outro sem sair do meu, o exercício ao que venho me propondo por aqui é o de praticar alteridade. Alteridade, resumindo bem, mas bem mesmo, dá conta de alguns fatores tão bonitos e bem mais simples de serem praticados, como o aceite das diferenças e o reconhecimento de que o outro é só o outro, dando espaço para que este se manifeste em suas próprias dores, se assim quiser, enquanto se protege e cuida do próprio espaço vital, não identificando qualquer palavra como um ataque, retirando o outro do papel de inimigo, colocando em movimento a premissa de que “entender e respeitar a visão do outro não me torna responsável pela forma como ele enxerga os cenários”.

É o des-envolvimento propriamente dito. 

Claro, pressupõe o exercício do não julgamento, e este ainda anda apimentado por aqui – não consigo me libertar do trabalho de analisar gente chata, existe uma tendência enorme em mim em querer atender as pessoas em terapia e este é o próximo passo a ser dado para que eu, enfim, consiga, além de evoluir, descansar. 

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