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Versos de luta, músicas de um país que sangra, por Carlos Motta

Foto de Guilherme Carvalho

Versos de luta, músicas de um país que sangra

por Carlos Motta

"Mordaça", um hino de resistência à ditadura militar que sufocava a nação, foi lançada no LP "O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva", mesmo título do show que reuniu os dois autores da música - Eduardo Gudin, melodia, e Paulo César Pinheiro, letra, além da cantora Márcia.

Os versos do poeta Paulo César Pinheiro são magistrais:

Tudo o que mais nos uniu separou

Tudo o que tudo exigiu renegou

Da mesma forma que quis recusou

O que torna essa luta impossível e passiva

O mesmo alento que nos conduziu debandou

Tudo o que tudo assumiu desandou

Tudo que se construiu desabou

O que faz invencível a ação negativa

É provável que o tempo faça a ilusão recuar

Pois tudo é instável e irregular

E de repente o furor volta

O interior todo se revolta

E faz nossa força se agigantar

Mas só se a vida fluir sem se opor

Mas só se o tempo seguir sem se impor

Mas só se for seja lá como for

O importante é que a nossa emoção sobreviva

E a felicidade amordace essa dor secular

Pois tudo no fundo é tão singular

É resistir ao inexorável

O coração fica insuperável

E pode em vida imortalizar 


Muitos anos depois, em plena democracia, Paulo César Pinheiro se encontrou com Wilson das Neves, baterista, percussionista, compositor e cantor temporão, um dos músicos populares essenciais do país, morto em agosto deste ano, e juntos fizeram "O Dia Em Que o Morro Descer e Não For Carnaval", uma visão apocalíptica de um país dividido entre miseráveis e pobres - muitos, milhões - e ricos - poucos, mas donos do poder e responsáveis pela manutenção da maior desigualdade social do planeta.

Novamente, Paulo César Pinheiro produziu versos que fazem sangrar os corações mais empedernidos.

E que provam, de maneira inequívoca, que apesar de tudo, a arte popular não só retrata o seu tempo, mas sempre foi - e sempre será -  uma voz de resistência contra as injustiças, o autoritarismo e as trevas.

Fala, poeta!

O dia em que o morro descer e não for carnaval

ninguém vai ficar pra assistir o desfile final

na entrada rajada de fogos pra quem nunca viu

vai ser de escopeta, metralha, granada e fuzil

(é a guerra civil)

No dia em que o morro descer e não for carnaval

não vai nem dar tempo de ter o ensaio geral

e cada uma ala da escola será uma quadrilha

a evolução já vai ser de guerrilha

e a alegoria um tremendo arsenal

o tema do enredo vai ser a cidade partida

no dia em que o couro comer na avenida

se o morro descer e não for carnaval

O povo virá de cortiço, alagado e favela

mostrando a miséria sobre a passarela

sem a fantasia que sai no jornal

vai ser uma única escola, uma só bateria

quem vai ser jurado? Ninguém gostaria

que desfile assim não vai ter nada igual

Não tem órgão oficial, nem governo, nem Liga

nem autoridade que compre essa briga

ninguém sabe a força desse pessoal

melhor é o poder devolver à esse povo a alegria

senão todo mundo vai sambar no dia

em que o morro descer e não for carnaval

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rev

https://youtu.be/MFWRUKpgTO4

https://youtu.be/MFWRUKpgTO4

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Contigo comigo no seu carnaval

Paulo Cesar Pinheiro é parceiro de Tapajós em "Agora é Portela 74". A canção diz "conte comigo no seu caranaval/estou me guardando contra o mesmo mal", referência à canção de Chico Buarque, "Quando o caranaval Chegar". Gênios conversando. 

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Valmir Gôngora

A importância da nossa emoção

Eu coloco esse LP entre os cinco melhores da MPB. Bela lembrança. Dentro dessa linha de luta ainda tem Pesadelo em parceria com Mauricio Tapajós. https://www.youtube.com/watch?v=9-xahNyJbQg

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jVicente

Excelente lembrança

Excelente lembrança

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