A estratégia de Lula é a correta, por Gustavo Conde

    A estratégia de Lula é a correta

    Por Gustavo Conde

    Pedagógico. O ex-executivo da Nissan, Carlos Ghosn, fugiu para o Líbano para escapar da justiça do Japão, onde aguardava julgamento (ele é acusado de “apropriação indébita financeira”).

    É uma fuga clássica, chancelada pela maioria dos veículos de imprensa internacionais.

    Mas com o jornalismo brasileiro é diferente. O título da notícia no Globo ficou: “‘Não fugi da justiça, me libertei da injustiça e da perseguição política’, diz Carlos Ghosn”.

    Eles dão a Ghosn (nem tão branco assim, mas dotado de solene e simbólica branquitude no que diz respeito à fortuna pessoal) a palavra e a doce presunção de inocência que jamais deram a Lula.

    Só para efeito de comparação: se Lula saísse do Brasil antes da prisão política para “se libertar da perseguição”, a manchete d’O Globo seria “Lula admite culpa e foge da justiça” (ou qualquer coisa nessa linha).

    O episódio Ghosn é emblemático.

    A direita e o poder econômico associado ao jornalismo convencional brasileiro são tão destituídos de qualquer espécie de caráter, que eles usarão Lula como salvaguarda para criminosos do sistema financeiro. Estes alegarão “perseguição política” (popularizada no mundo agora – à revelia do que propagou esta mesma imprensa tradicional brasileira) aludindo transversalmente – indiretamente, narrativamente – à violência judicial contra Lula.

    Eles expropriam, por assim dizer, a experiência vivida por Lula, para acentuar ainda mais a sua “inexistência” em suas teses editoriais. É mais uma faceta do modus operandi discursivo do jornalismo de guerra.

    Os veículos de comunicação brasileiros usam, portanto, o pressuposto conectado à realidade que eles tanto combateram e espancaram (o pressuposto de que Lula sempre foi inocente e sofria perseguição política) para proteger os agentes verdadeiramente corruptos do mercado financeiro e das mega empresas que lavam dinheiro na cara de todo e qualquer sistema judicial deste planeta.

    Talvez, seja por isso que Lula não parta para o confronto direto com este jornalismo, senão por estocadas pontuais que apenas confirmam sua estratégia minimalista. É se rebaixar demais polemizar com o varejo da notícia somado ao egoísmo corrupto do empresariado (para não falar da polarização com um governo que é sinônimo de toda a podridão que a espécie humana já foi capaz de produzir).

    Lula prefere lutar na trincheira da história e da linguagem. Ele esculpe sentidos, semeia direções, dialoga com as expectativas, transita soberano e pleno de humanidade sobre os escombros morais dos maus perdedores aflitos e imediatistas.

    Recentemente, um intelectual do ódio afirmou que Bolsonaro venceu as eleições mas que quem governa é Haddad. O enunciado é tosco e paranoico, mas cifras de verdade escorrem de sua apodrecida intenção retórica.

    E a explicação é: os valores que dizem respeito à possibilidade de país e de futuro estão com a esquerda e com o PT (e, fatalmente, com Haddad e com Lula).

    O que o guru do terror não diz é que “quem governa” não é o cidadão Haddad, mas a “ideia Haddad”. E ela governa não o executivo, mas o conjunto de forças politicas que ora vai se reorganizando (ela governa o sentido).

    E ele não diz isso porque sua tarefa ideológica de gerar ódio e violência não permite que se diga algo de natureza esclarecedora.

    Mas há leitores e leitores. A direta ultra conservadora e mentirosa vai produzindo uma quantidade tal de enunciados autoexplicativos que eles acabam por migrar da codificação autoconfirmatória para a codificação crítica.

    Ou seja: são enunciados que passam a ser evidências do fracasso de seus enunciadores e ao mesmo tempo (e por isso mesmo), pequenas pílulas com valor de verdade – só que com o sinal trocado.

    Esse fenômeno do discurso é um clássico na história das ideias do comentário crítico. Agressões conceituais a inovações estéticas que depois se consagram são a regra. Impressionismo, cubismo e classicismo foram batizados por seus algozes conceituais mais raivosos para depois debutar nos dicionários de arte como revoluções estéticas.

    A engrenagem da produção de discurso felizmente não é dominada por esses ideólogos do apocalipse mental, como Steve Bannon e Olavo de Carvalho. Ela é espontânea, estrutural, histórica, sistêmica, apenas delicadamente visível para quem tem a humildade e a paciência de se debruçar sobre os movimentos empíricos da palavra.

    É essa luta travada em estruturas mais profundas da experiência política que deve ser levada a sério. É uma forma muito mais estratégica de conceber a disputa pela soberania intelectual e pelo exercício desta soberania coletiva dos povos, do que a rinha tecnológica da produção de fake news e operacionalização de usuários de rede.

    Esta última não deve ser ignorada, mas tampouco deve ser superdimensionada. O que a estrutura são os sentidos das linguagem humana, ainda.

    A linguagem humana em toda a sua complexidade dos afetos, dos imensos deslocamentos ideológicos disparados pelas condições reais da economia e do trabalho.

    A minha mensagem de ano novo é essa: ainda há uma humanidade e uma linguagem real para darmos conta.

    Com a delicadeza da resistência política investida de serenidade e inteligência e com a característica cultural irrefreável do povo trabalhador brasileiro em continuar a busca por sua libertação, o ano de 2020 pode ser o estopim para a reconstrução subjetiva deste país momentaneamente arrasado pelos facilitadores de ódio, preguiçosos da ideia e oportunistas de mercado.

    Que venha um 2020 complexo e pouco afeito a soluções fáceis. O mundo da complexidade, da linguagem e do humano é hostil aos intolerantes e fanáticos.

    Façamos do mundo um mundo mais próximo de nossa disposição à luta profunda, ramificada e ampla, para assim afastarmos a parasitagem sub intelectual que insiste em puxar esse mesmo mundo para baixo.

    Feliz ano novo.