O lugar de fala de Lula, por Gustavo Conde

     

    O lugar de fala de Lula

    Por Gustavo Conde

     

    Usp apenas com 2% de docentes negros.

    Há um (1) indígena.

    Sempre foi assim e até pior. O fato é que o discurso de combate ao racismo tomou corpo e agora é tarde para voltar ao mascaramento do racismo tão caro à nossa elite branca.

    Quem concretizou essa discussão foram os governos do PT, que estabeleceram políticas anti-racistas robustas pela primeira vez no país.

    Nem a Folha de S. Paulo, no turbilhão de suas contradições, consegue mais ignorar o tema.

    Por isso, as pautas identitárias são essenciais. Brancos falando de racismo e fazendo a autocrítica histórica que lhes cabe são bem-vindos.

    Mas só brancos falando de racismo?

    O conceito de ‘lugar de fala’ foi uma resposta a esse exclusivismo crítico da elite intelectual branca.

    Se um pesquisador branco quer fazer sua autocrítica com relação ao racismo estrutural que lhe caracteriza, ótimo. Mas jamais ele poderá sentir o que sente um negro diante da sociedade mais racista do mundo, que é a brasileira.

    E, portanto, ele deve ter respeito (e respeitar o ‘lugar de fala’, que lhe tira da zona de conforto do eterno dizer afiançado pela cor).

    A cor – intelectuais brancos têm profunda dificuldade em entender isso e eu sou um deles -, no debate sobre racismo, não é uma experiência cromática. É um vetor contrastivo, metafórico, simbólico, atravessado por inúmeros complicadores sociais e históricos.

    O branco, nessa estrutura racista, é neutro, não é branco. O preto é o “marcado”, o “ruim”. A batalha técnica é também semântica e é desta semente crítica que pode nascer uma visão minimamente nova de sociedade.

    Leia também:  O caso de amor entre Bolsonaro e o jornalismo, por Gustavo Conde

    Mais uma vitória dos governos democráticos e legítimos do PT que, junto da sociedade, dos movimentos sociais e da compreensão do que significam as pautas identitárias, pôde romper com a tradição escravocrata que ainda domina o mundo do trabalho e, em grande medida, como vimos acima, o mundo da pesquisa e da docência.

    Mas o reconhecimento do povo negro como protagonista da história brasileira enseja mais ações e mais presença institucional.

    Urge um partido político para os negros brasileiros, que são maioria da população. Não há razão técnica (oriunda da lógica branca) para temer essa representatividade.

    A lógica branca, ainda presente em muitos nichos de esquerda, é um horror. É precária, rudimentar, ofensiva e racista. Eles temem a “divisão da sociedade”. A sociedade, já está dividida, caras pálidas (e foram vocês que dividiram, séculos atrás).

    Comparar a causa negra com uma “causa imaginária branca” é uma catástrofe mental, a armadilha mais elementar da linguagem, quase uma piada de péssimo gosto (que revela a precariedade do pensamento risível e instrumentalizado pelo conceito de neutralidade).

    Brancos são sinônimo de poder. O poder não precisa se “organizar” para fazer valer os seus direitos – embora ele também o faça espontaneamente através de Lucianos Hucks, Dorias e Bolsonaros.

    A branquitude já tem o sistema a seu serviço, isso faz parte da semântica de “branco”. Soa infantil demais pessoas autoidentificadas como brancos quererem se autoafirmar racialmente como os negros. É uma falácia, uma ideia falsa de reciprocidade.

    É a mesma discussão sobre o feminismo, que os bolsonaristas não entendem: o contrário de feminismo não é machismo, é burrice.

    O Brasil é a maior nação negra do mundo, fora da África. Não há mais como adiar esse encontro do Brasil consigo mesmo, com o protagonismo politico do povo negro.

    Leia também:  Caso Wajngarten: se a Folha elogiou o PT, a coisa é grave, por Gustavo Conde

    Lula é uma inspiração para esta reparação histórica, mais uma vez, tão à frente de seu tempo e tão conhecedor das demandas do povo negro.

    Para isso, basta ver a empatia das comunidades negras com Lula. Explica-se. Pobres e negros têm muito mais em comum do que brancos pobres e brancos ricos.

    Lula participa desse lugar de fala que caracteriza as pautas identitárias porque ele é também negro na inteireza de seu dizer – já discutimos que o debate sobre racismo não se reduz à pigmentações de pele.

    Lula organizou o discurso sobre todas as demandas identitárias do país. Mais que isso: ele concretizou políticas públicas para que negros, índios, mulheres, gays e todas as minorias tivessem acesso à cidadania plena.

    O lugar de fala de Lula é o lugar de fala mais poderoso da nossa cenografia histórica. Lula “deu voz” é o que mais se diz por aí.

    Aos pobres, aos negros, às mulheres, aos índios, aos gays, às crianças, os idosos, aos portadores de hanseníase, aos catadores de papel, aos portadores de “deficiência”, a todos que foram historicamente tutelados em seus respectivos direitos de “dizer”. Tutelados pela lógica da branquitude, essa famigerada organizadora de sentidos que visa apenas a própria perpetuação.

    Lula tirou uma massa imensa de brasileiros da tutela do Estado – e a lógica mesquinha e branca impõe a visão exatamente oposta, dentro da sua expertise em distorcer a realidade.

    O bolsa-família é libertador, não o contrário.

    Poder-se-ia dizer à direita branca: não meça as ações de teu adversário político com sua régua egocêntrica e oportunista.

    Leia também:  Governo destrói o Enem na cara dos brasileiros, por Gustavo Conde

    Lula ainda é responsável pelo maior gesto de reparação histórica aos povos negros: ele pediu desculpas oficiais ao povo africano em solo africano, pelo holocausto da escravidão, palavras que lhe fizeram chorar e lhe renderam a eterna admiração dos povos daquele continente.

    ‘Isso’ é um lugar de fala.

    Esta semente plantada por Lula e pelos movimentos negros espalhados pelo Brasil – a semente da liberdade real de se discutir os destinos das políticas públicas voltadas ao povo negro – é a nossa chance de responder a esse fascismo branco que tomou conta de nossas vidas.

    Nós estamos diante de um governo explicitamente racista.

    A resposta deve ser dada à altura.

    Não é a toa que Marielle Franco, negra, mulher e LGBT, foi assassinada por milícias ligadas a este governo. Não é toa que Ághata, assassinada pela polícia de Witzel, era uma menina negra. Não é à toa que, dos nove adolescentes assassinados pela polícia de Doria, oito eram negros (e todos eram pobres).

    Não e à toa que índios, mulheres, gays e, sobretudo, negros, continuam sendo assassinados nas periferias deste país.

    É hora de dar um basta a tudo isso, de mãos dadas contra a intolerância, contra o racismo e contra a lógica de moer carne negra da elite branca deste país.

    Lula é sempre o vetor máximo de afirmação da democracia. Mas talvez seja chegada a hora de o trabalhador negro impor o seu talento político para fazer girar as políticas públicas oriundas diretamente deu seu lugar máximo de direito, de seu lugar máximo de fala, de lugar máximo de vida.