Ter tempo de mãe nos tempos de hoje, por Dora Incontri

    Ontem foi dia das mães. Um dia que alguns consideram comercial (minha própria mãe considerava), mas a maioria comemora com as mães ou lembra delas e as redes sociais ficam cheias de fotos, homenagens, poesias e recordações, quando elas não estão mais aqui.

    Mas vale uma reflexão sobre o ser mãe – embora já haja tantas, rasas ou profundas, feitas por homens, e por incrível que pareça, apenas muito recentemente na história, por mulheres, que são mães ou não.

    Há mães de todos os tipos, como há seres humanos que vão da escala da bestialidade à integridade: as que abandonam, as que espancam, as que humilham ou competem com os filhos, as que não queriam ser mães, mas foram, e consideram os filhos um estorvo, há aquelas que são cúmplices de pais abusadores ou violentos e todas essas mães deixam feridas psíquicas quase incuráveis nos filhos, que sentem para sempre a ausência de um colo protetor.

    Mas a maioria das mães ama, cuida, se dedica, se entrega, protege, luta como leoa para dar o melhor para os filhos e muitas e muitas fazem isso sozinhas, porque há mais pais que abandonam e esquecem, que se omitem ou somem, do que mães que façam isso. E é claro, que mesmo essas mães que agem com maternidade devotada e amorosa, erram, porque são humanas. O problema é que os erros maternos (e paternos) de mães relativamente saudáveis, também provocam feridas psíquicas nos filhos, como uma frase mal posta e repetida muitas vezes; como uma expectativa exagerada ou um perfeccionismo excessivo; como uma projeção dos próprios sonhos nos filhos ou uma repressão sexual descabida. Por isso, todo mundo precisaria fazer terapia. É claro que a vontade de acerto, o amor sincero, o afeto partilhado e o exemplo honrado se sobrepõem a esses desacertos humanos. Errar, sempre erraremos em tudo, porque estamos no domínio da imperfeição.

    Mas há também que se pensar que ser mãe se dá sempre num contexto, social, histórico, político… a maternidade é muito idealizada, homenageada, mas nunca foi suficientemente valorizada, apoiada, cercada de cuidado com a própria mãe, para que ela pudesse cumprir a tarefa materna com tranquilidade, com descanso, com saúde física e psíquica.

    No mundo contemporâneo, ser mãe é quase um ato de heroísmo, pelo menos para a maioria das mulheres, que precisam trabalhar para sobreviver. É uma batalha sem fim, para trabalhar, cuidar dos filhos, cuidar da casa, organizar a vida, e ainda ter um pingo de tempo para si. 

    O mundo do capital não valoriza a maternidade (e nem a paternidade), porque mulheres e homens precisam estar sempre disponíveis para o trabalho, o tempo todo conectados. A escravidão dos empregos (e no Brasil, isso tende a piorar com o neoliberalismo galopante e a proteção ao trabalhador minguando), mais o tempo que se perde para chegar e voltar (quando não se trabalha remotamente), mais as necessidades básicas do cotidiano… tudo deixa pouco ou nenhum tempo para a mãe olhar o filho, ter o gosto de beijá-lo, de estar junto, de brincar, de passear. E quando sobra qualquer réstia de tempo, a exaustão diminui a disposição e o prazer.

    De modo que em nossa sociedade, o cuidar (seja de crianças, doentes e velhos) está quase sempre terceirizado, com mão de obra barata ou mais especializada, dependendo das condições econômicas, e todo o cuidar fica mais esvaziado de afeto, de ternura, de olhos nos olhos. Embora, claro, muitos profissionais do cuidado terceirizado possam aliar afetividade ao trabalho remunerado. Mas alguém pode substituir a mãe? Não interessa se a mãe é biológica ou não – interessa o vínculo profundo, permanente, incondicional e que não vai se quebrar de jeito nenhum. Todo profissional é descartável numa relação capitalista de trabalho, portanto o cuidado de alguém que é pago para cuidar é um cuidado que será rotativo e haverá sempre a grande possiblidade de ruptura. É um cuidado de aluguel, mesmo que tenha um afeto.

    Mas a julgar por todas as declarações de saudade, amor e gratidão nas redes sociais, embora saibamos que no Facebook e no Instragram tudo parece um conto de fadas, todo mundo gosta é de colo de mãe, todo mundo anseia por ele e gostaria de voltar para aquele lugar seguro e aconchegante do seio materno e, mais, do ventre materno.

    Entretanto, além dos obstáculos sociais, para a vivência da maternidade – porque o certo e o melhor seria termos dois anos de licença-maternidade, como se dá em alguns países do chamado primeiro mundo – há os condicionamentos internos. Nossa sociedade é violentamente narcísica e individualista – ora não há nada que nos mova mais de nosso egoísmo do que a maternidade (e deveria ser também assim para a paternidade). O bebê é um ser totalmente dependente, precisa de 24 horas de cuidado, afeto e atenção. Por isso a mobilização de amor e renúncia de si é absolutamente necessária, pelo menos nos primeiros meses. Mas, por toda a vida, filhos exigem, esperam e precisam de amor e de doação. Essa necessidade básica, que até em animais se vê, é claro, por um período muito menor de tempo, está em oposição total ao mundo do trabalho, ao mundo do entretenimento, à velocidade avassaladora do ritmo contemporâneo e sobretudo à pregação constante de autoajuda: “ame primeiro a você mesma (o)”. Não, diante de um bebê, há que se esquecer de si mesmo por um tempo, porque ali o amor pelo outro tem que ser visceral. E há muitas mulheres e muito mais homens que simplesmente não desenvolveram a maturidade para saírem de seu mundo narcísico, de seu individualismo feroz. Por isso, vemos muitas crianças negligenciadas e abandonadas dentro de sua própria casa. O abandono afetivo é tão grave quanto a violência e o abuso. Cria-se um vazio interno, uma sede de afeto insaciável, que muitas vezes vai buscar preenchimento na droga ou vai desembocar na automutilação ou no suicídio.

    Por tudo isso, precisamos sim valorizar a maternidade, a maternagem, a mãe dos olhos nos olhos, a mãe que faz um bolo, pelo menos de vez em quando, a mãe que conversa, a mãe que toca e beija, a mãe que acompanha e usa sua intuição para perceber o que vai no coração do filho. 

    Como visão reencarnacionista, o espiritismo nos propõe a ideia de que os espíritos não têm sexo e podem reencarnar como homens e mulheres. E sim, todos teremos algum dia, na estrada do tempo, de ter a experiência de sermos mães, para termos a oportunidade de fazer brotar em nós e desenvolver esse amor materno, que cuida e se entrega, que acolhe e  protege. E mais, embora sejamos espíritos velhos, já vividos muitas vezes e em muitas paragens, retornamos todas as vezes, no corpo tenro de um bebê, para zerarmos os traumas e os desajustes do passado, e reaprendermos a cada nova vida, a ternura e aconchego, o amor e o respeito. Quando mães e pais deixam de cumprir esse combinado de dedicação e educação, seja porque não querem, sejam porque não sabem, seja porque não podem, há prejuízos para aquela vida que se reinicia num novo corpo. Por tudo isso, a sociedade deve caminhar no sentido de permitir que a maternidade e a paternidade sejam exercidas plenamente e não aos trancos de um trabalho desenfreado e aos barrancos da irresponsabilidade narcísica.

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