A Capitã Marvel nunca será uma G-Girl

    Regiamente pagos para promover qualquer produto cinematográfico “made in USA”, os jornais e blogues fazem imensos elogios ao filme Capitã Marvel. Alguns jornalistas falaram até mesmo em empoderamento feminino. A personagem Vers/Carol Danvers é tratada como se pudesse ser considerada um símbolo da mulher moderna.

    O que podemos ver no filme, entretanto, é algo muito diferente. Carol Danvers é uma inexperiente máquina de matar treinada pela Força Aérea. Após sofrer um acidente ela ganha super poderes e um novo nome (Vers). Rapidamente ela se torna uma experiente máquina de matar Scrulls. Com ajuda de Nick Fury e do líder Scrull, Vers consegue recuperar sua identidade de Carol Denvers. Quando descobre que os Krees mataram sua amiga, ela se torna uma máquina de matar Krees.

    Carol Denvers/Vers não pode ser considerado um símbolo feminino. No máximo ela é um símbolo masculino vestindo um corpo de mulher. A Capitã Marvel é apenas um soldado, uma máquina de matar. Todas as transformações que a personagem sofre durante o filme são incapazes de fazer com que ela se transforme numa mulher. A lenta e trabalhosa conquista pela mulher da liberdade de ser mais do que uma representação dos desejos e projeções masculinas (Simone de Beauvoir) não é e não poderia ser considerado objeto de um filme em que a personagem adquire e preserva as qualidades de um macho militar dominador.

    Carol Denvers/Vers não tem qualquer sexualidade, pois  “A burguesia conservadora continua a ver na emancipação da mulher um perigo que lhe ameaça a moral e os interesses. Certos homens temem a concorrência feminina.” https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2015/01/07/introducao-ao-segundo-sexo-i-fatos-e-mitos-simone-de-beauvoir/

    Capitã Marvel é muito pior do que My Super Ex-Girlfriend (2006) https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Minha_Super_Ex-Namorada, comédia romântica em que os super poderes adquirído pela heroína também reforçam alguns esteriótipos femininos: insegurança afetiva, ciúmes patológico e tendência a se vingar do ex-namorado de maneira espalhafatosa. Abandonada por Matt Saunders, Jenny Johnson/G-Girl grava a palavra “pinto” (Dick em inglês) na testa do namorado, coloca o carro dele em órbita e deixa ele nu durante uma importante reunião de trabalho. A cena mais engraçada e feminina do filme, entretanto, é aquela em que G-Girl joga um tubarão pela janela do apartamento da nova namorada de Matt Saunders.

    Jenny Johnson/G-Girl é uma máquina de fazer amor. Ela quebra a cama ao transar com o namorado e é capaz de se apaixonar pelo seu arqui- inimigo Barry Edward Lambert/Professor Bedlam ao descobrir que ele nunca deixou de amá-la. A protagonista de My Super Ex-Girlfriend está em condições de fazer mais pela causa feminina do que a super masculinizada/militarizada Carol Denvers/Vers.

    Devidamente apresentada ao respeitável público, a Capitã Marvel passou imediatamente a ser utilizada para a promoção de um novo filme http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-146808/. A obsolescência programada do filme Capitã Marvel é evidente e lucrativa. O respeitável público não precisa pensar sobre a condição feminina ao sair do cinema, deve apenas continuar consumindo produtos cinematográficos “made in USA”.

    Leia também:  Diário da Peste 36: três pesadelos e uma emoção incômoda