Diário da Peste 36: três pesadelos e uma emoção incômoda

    Eis aqui alguns pesadelos interessantes. Eles ocorreram nas últimas semanas separados por intervalos irregulares.

    “Preciso instalar três cabos de energia entre a casa em que estou e a que existe na frente. 

    Um deles já está instalado no poste de concreto desproporcionalmente grosso. Esse cabo de energia é tão resistente que posso andar sobre ele para ir e voltar entre as duas edificações. 

    Quando termino de instalar o terceiro cabo e retorno me equilibrando à casa do fundo sou advertido. Alguém que se apresenta como meu ajudante diz que a conexão do primeiro cabo poderia ter ficado comprometida. 

    Antes que eu faça algo para reparar o problema o cabo com a conexão supostamente danificada é cortado pelo ajudante. O problema é que agora aquele cabo terá que ser reinstalado com uma emenda, mas não tenho fita isolante. 

    Sou informado que na casa da frente tem uma pessoa pode conseguir o que eu preciso. Vou até o local falar com o especialista. Ele diz que não tem fita isolante e se compromete a comprar o produto. 

    Ao retornar à casa do fundo noto que o poste foi arrancado do lugar onde estava. Pergunto ao ajudante porque isso foi feito. Ele diz que assim ficará mais fácil instalar o cabo com a emenda. Fico furioso pois é evidente que seria menos difícil emendar o cabo e o instalar no poste já fixado no chão.

    Peço ajuda para colocar o poste no lugar, o ajudante apenas sorri. Levanto o poste pesado com muita dificuldade. Ao recolocá-lo na posição original noto que o buraco em que ele estava instalado foi aterrado e concretado. 

    Começo a xingar aquele ajudante que só está me atrapalhando. Ele dá de ombros e diz que não poderia deixar de resolver o problema do piso depois de tirar o poste do lugar.” 

    Desperto.  

    Durmo

    “O animal definitivamente se parece um trilobite, mas ao contrário do artrópode que viveu no Paleozóico ele não é marinho e sim terrestre e urbano. Quando se estica e levanta sob as últimas pernas mostrando os ferrões provavelmente venenosos ele fica com a altura de uma criança.

    Esse animal asqueroso tem um odor desagradável de podridão. Prefere lugares escuros aos iluminados e tem um aspecto desagradável. Uso meu celular para iluminá-lo e espantá-lo de sua toca. Ele ameaça e foge, sempre procurando se esconder numa fresta entre os prédios, embaixo de uma escada úmida, no porão de um casarão em ruínas abandonado.

    Quando se agarra a uma superfície qualquer no escuro, o animal encolhia e ficava rijo com aparência de fossilizado. Ao ser iluminado ele imediatamente se estica, volta a se esgueirar. Às vezes ele se volta e ameaça atacar e só não faz isso porque é extremamente sensível à luz.    

    Uma multidão acompanhava atenta à perseguição. Algumas pessoas queriam que o animal fosse deixado em paz. Sabendo que ele poderia ferir alguém mortalmente ou até mesmo imobilizar e devorar uma criança descuidada que resolvesse brincar num lugar escuro, eu não desistia de caça-lo.” 

    Acordei cansado. Meu corpo estava tenso e minha cabeça pesada, o trilobite onírico escapou novamente. Já sonhei com esse animal desagradável várias vezes. Ele sempre escapa de mim quando acordo.”

    Durmo.

    “Numa sala cheia de militares sentados em carteiras escolares antigas, um general arengava a tropa fazendo-a cantar um monótono hino evanjegue:

    ‘Nós pertencemos exército de Deus
    Para livrar o país de comunas ateus’

    Hipnotizados e sincronizados pelo canto, os soldados pareciam robôs fazendo o download de um software macabro. Me aproximo do general e digo a ele:

    – Você sabe o que está fazendo? O país será destruído por essa canção. 

    Olhando para o vazio ele continua a repetir o mantra. Observo a cena por algum tempo e vou embora. Não há nada que aquela escola possa me ensinar.”

    O tema do primeiro pesadelo é a impossibilidade de concluir uma tarefa quando algo ou alguém está em condições de impedir sua conclusão. O do segundo é a dificuldade de sobrepujar uma presa arredia cuja principal característica é ter se adaptado à existência num mundo impenetrável aos nossos olhos. A temática do terceiro pesadelo é a banalidade da pedagogia do terror num ambiente em que, por força da repetição e da sincronização, o conteúdo de um mantra irracional é automatizado até suprimir qualquer autonomia emocional e intelectual de comandantes e comandados. 

    A emoção que predomina nos três pesadelos parece ser a mesma: a frustração. Nos sonhos ela é provocada pela tarefa interrompida, a caçada que não pode ser concluída e o sistema que ensina os militares a odiar uma parcela da população. Todavia, me parece evidente que o sentimento em questão não é causado pelos pesadelos e sim a causa deles.

    É realmente frustrante ficar em casa. Também causa frustação ver “maus militares” utilizando nossas instituições democráticas para reconstruir uma ditadura racista e brutal. Mais frustrante ainda é olhar pela janela e ver que algumas pessoas fazem de conta que a pandemia acabou. Ela não acabou e nem acabará porque estamos frustrados. Quem conseguir lidar melhor com a frustração terá mais chances de sobreviver ao inexorável aumento da letalidade do COVID-19 até que todos tenham sido vacinados.