Freud e o ato falho neoliberal


    Qual é a finalidade da vida humana? Existem várias respostas para essa pergunta.

    Um economista neoliberal dirá que a finalidade da vida é a acumulação de riqueza e que somente o dinheiro é capaz de comprar a dignidade humana. Um político certamente dará ênfase na conquista e na preservação do poder. Para o cientista a vida não tem sentido se o conhecimento não for metodicamente perseguido e sistematicamente preservado e compartilhado. A glória eterna decorrente de ter predominado num campo de batalha alimenta os sonhos pueris dos militares.  

    Sem a produção, circulação e desfrute do que é belo a existência humana não tem qualquer finalidade, dirá o artista. A perpetuação da própria vida para o médico é a mais importante do que qualquer outra coisa. Os juristas acreditam que a existência humana está fadada a provocar conflitos e que eles devem ser resolvidos da maneira mais adequada possível. Cada religião dá à vida humana um significado e interpreta o seu fim de uma maneira peculiar. 

    A principal característica do neoliberalismo, segundo Bourdieu, é sua capacidade de submeter todos aspectos da vida ao princípio da mercantilização e da acumulação financeira. Numa reunião ministerial em que se debatia a liberalização do jogo, Paulo Guedes foi gravado dizendo “Deixa cada um se foder do jeito que quiser” a Damares Alves. As palavras dele confirmam a avaliação de Bourdieu mencionada por Laval “não há pior adversário científico, que os adversários teoricamente frágeis e socialmente fortes.” (Foucault, Bourdieu e a questão neoliberal, Christian Laval, Editora Elefante, São Paulo, 2020, p. 224).

    O neoliberalismo não é forte porque consegue se impor através de sua fraqueza teórica e sim porque produziu uma transformação histórica. “Essa transformação histórica, em que consiste o neoliberalismo, Bourdieu não hesita em qualificá-la como ‘mudança de civilização’, até de ‘destruição da civilização’. Para retomar seu léxico conceitual, trata-se de uma revolução simbólica, que não afeta apenas o campo da economia, mas o conjunto dos campos.” (Foucault, Bourdieu e a questão neoliberal, Christian Laval, Editora Elefante, São Paulo, 2020, p. 232). No centro dessa revolução reina absoluto um ato falho descrito por Freud. 

    “Um propósito é um impulso a uma ação que já recebeu o consentimento do sujeito, mas cuja execução foi adiada para determinada ocasião. Nesse intervalo que separa a concepção do propósito de sua execução, pode sobrevir alguma alteração nos motivos de tal modo que o propósito não se execute, sem que contudo seja esquecido: ele simplesmente é modificado ou suprimido. No que diz respeito ao esquecimento de propósitos, ato falho que se produz diariamente e em todas as situações que se possa imaginar, longe de explicá-lo por alguma alteração no equilíbrio dos motivos, nós simplesmente o deixamos sem explicação – ou então, contentamo-nos em dizer que, ao chegar o momento de sua execução, a atenção, que a ação exigia, falhou: essa mesma atenção que era condição indispensável desde que o propósito foi concebido e que, naquele momento teria sido suficiente para assegurar sua realização. A observação de nossa atitude normal em relação a nossos propósitos mostra tudo quanto essa tentativa de explicação tem de arbitrária.” (Sobre a psicopatologia da vida cotidiana, Sigmund Freud, Lafonte, São Paulo, 2014, p. 160)

    A forma mais eficaz de combater o neoliberalismo – essa é apenas uma hipótese que gostaria de submeter ao debate – é não esquecer que a vida tem ou pode ter mais de um propósito ou finalidade para cada homem. 

    Quando somos crianças somos atraídos pelas brincadeiras infantis. Na adolescência e na vida adulta somos possuídos pelos jogos afetivos. A maturidade faz o homem concentrar seus esforços na conquista e no desfrute daquilo que ele considerar mais importante (poder, prestígio, dinheiro, conhecimento, etc…). Além de possibilitar o acúmulo privado de riqueza, a gestão econômica tem uma finalidade pública importante:  garantir o desenvolvimento de todos os potenciais de uma sociedade com o reconhecimento da dignidade humana de todos os cidadãos. 

    Qualquer que seja a finalidade da vida que um homem considere mais importante para si mesmo uma dose de humildade será sempre necessária. Não importa o que possa ser feito, os seres humanos são inevitavelmente mortais. Nenhum médico, cientista, general ou religioso conseguirá evitar o fim de sua própria existência. 

    O torpor que o neoliberalismo está produzindo na sociedade brasileira é semelhante ao canto da sereia. Precisamos lembrar a todo momento que “Deixa cada um se foder do jeito que quiser” não deveria ser o mantra econômico de um país cuja constituição estabelece como objetivos fundamentais a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza e da marginalização, a redução as desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º , da CF/88).

    Riqueza, poder, conhecimento, fama, santidade, etc… são instrumentos e não fins em si mesmos. A finalidade existência humana certamente não pode ser o esquecimento dos propósitos que cada ser humano estabelece para si mesmo.