O que Gandhi e Sócrates podem ensinar às vítimas preferenciais do bolsonarismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

    Aqui mesmo no GGN fiz algumas considerações sobre a pedagogia do assassinato. Volto ao assunto por causa desta notícia aqui.

    Durante o período colonial os conflitos entre índios e colonos e entre escravos e senhores de escravos também se tornavam objeto de conflitos entre os jesuítas e os colonos. O projeto de salvação pela catequese (a educação religiosa ocupava uma posição central na ideologia da Companhia de Jesus) se opunha ao extermínio dos indígenas. Não foram pequenos ou insignificantes os sucessos dessa ideologia. Várias tribos assimiladas pelos jesuítas se tornaram extremamente produtivas https://pt.wikipedia.org/wiki/Companhia_de_Jesus. Em razão disso, não era incomum os colonos maliciosos atiçarem os índios contra os jesuítas para terem um pretexto para exterminá-los.

    O mesmo tipo de lógica pode estar sendo empregada por Jair Bolsonaro para sobrepujar a inclinação pacífica do MST e envolvê-lo numa espiral de violência que acarretará um verdadeiro genocídio de sem-terras. Ao liberar a importação de fuzis e a aquisição de milhares de cartuchos por cidadão, o pedagogo do assassinato estimula a ambição dos ruralistas de organizar milícias. O medo levaria o MST ou parte dele a criar sua própria milícia. Isso permitiria ao Estado exercer seu direito de escolher qual grupo armado será tratado como “organização terrorista”.

    Num Estado de Direito a violência legítima decorre da aplicação impessoal da Lei dentro dos limites impostos pelo legislador. Num Estado de Exceção estruturado com base na pedagogia do assassinato, o tirano pode escolher onde, quando e contra quem a violência aparentemente legítima será empregada. Sempre que esteve nas mãos da extrema direita, o Estado brasileiro não exitou em proteger os seus grupos de extermínio e esquadrões da morte e de autorizar o uso de letalidade extrema contra qualquer grupo que ousasse empunhar armas para se defender.

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    A adesão do MST à violência armada não vai salvar o movimento dos sem-terra. Ela apenas dará a Jair Bolsonaro a oportunidade que ele está esperando para usar as PMs e o Exército a fim de esmagar os adversários políticos do latifúndio improdutivo. O maior desafio das lideranças de esquerda neste momento é rejeitar a pedagogia do assassinato. A única lição verdadeiramente valiosa é aquela de Gandhi: nunca desistir de agir de forma não violenta.

    O ato não violento irrita, mas ele não legitima o uso legítimo da força. Sempre que recorre à violência extrema contra cidadãos desarmados o Estado autoritário comete um erro mortal.

    No século IV a.C. Sócrates já dizia ser preferível sofrer uma injustiça do que agir de maneira injusta. Mesmo que fique impune, aquele que comete um crime será obrigado a conviver com sua consciência criminosa. Se os sem-terra aderirem à pedagogia do assassinato eles farão exatamente o que Bolsonaro deseja. Aqueles que não morrerem nos conflitos que já devem estar sendo planejados pelos comandantes das PMs e do Exército serão obrigados a carregar dentro de si mesmos as sementes malignas que plantaram a loucura na mente do presidente brasileiro.

    Jair Bolsonaro não quer apenas colher cadáveres. Ele também deseja a coroa de louros em virtude de uma vitória aparentemente legítima e, portanto, digna de um triunfo (como aquele que foi outorgado a Júlio César em razão dele ter espalhado a destruição e a morte por toda a Gália).

    Para conseguir o que deseja, o presidente amalucado precisa transformar vítimas inocentes desarmadas em perigosos criminosos armados até os dentes. A mim parece que ninguém precisa dar ao tirano genocida o direito de cometer atos extremos que uma parcela da população e da imprensa considerarão absolutamente justos e até louváveis.