Um país desgovernado pelo algoritmo


    Principal beneficiário do golpe “com o Supremo com tudo”, que foi urdido pela Embaixada dos EUA, orquestrado pelos barões da mídia e consumado pelos deputados e senadores corruptos procurados pela Justiça, Jair Bolsonaro chegou ao poder imitando dois norte-americanos, um negro e um racista.

    A campanha de Bolsonaro fez uso intensivo das redes sociais. Essa novidade foi introduzida nos EUA por Barack Obama, último presidente dos EUA que conseguiu ser eleito apelando para o racionalismo pragmático. A tonalidade do discurso do candidato do PSL foi fornecida por Donald Trump. A irracionalidade e o ódio foram capazes de mobilizar mais gente nos EUA e no Brasil do que a esperança e a racionalidade.

    “No embalo da positivação da sociedade, o indivíduo vai se desonerando sempre mais da negatividade do outro. Sua liberdade se conforma à liberdade do outro, que acaba se convertendo em autorrelação, com elevado índice de patologia. Com isso, vai perdendo cada vez mais a relação com o exterior, com o objeto, com o mundo, sendo que os novos meios e formas de comunicação reforçam ainda mais esse fenômeno. Também o espaço virtual em que navega oferece pouquíssima resistência vinda de um outro. Ele se presta, antes como um espaço de projeção no qual o indivíduo pós-moderno encontra principalmente a si mesmo.” (Topologia da violência, Byung-Shul Han, editora Vozes, Petrópolis, 2017, P. 100)

    Durante o processo eleitoral, a autorrelação patológica de Jair Bolsonaro conseguiu se projetar na maioria dos eleitores. Ele conseguiu provar que um perfil de Facebook e de Twitter alavancado por milhares de robôs podem ganhar a disputa eleitoral num país imenso como o nosso. Se o Brasil fosse uma rede social, Bolsonaro não teria problemas para governar. O drama pessoal dele – e por extensão o nosso – começou justamente porque o país não é e nunca irá funcionar como uma rede social.

    Os problemas internos e externos do Brasil são reais. As limitações impostas pela arena política só podem ser contornadas através de negociações pacíficas e demoradas. As soluções consensuais que forem encontradas demandam a adoção de políticas públicas de duração longa. Entretanto, capturado pela dinâmica das redes sociais, o presidente do Brasil age como tudo dependesse de feedbacks positivos e negativos no Facebook e no Twitter.

    “Quando um algoritmo proporciona experiências a alguém, a aleatoriedade que facilita a adaptação algorítmica pode alimentar também o vício humano. O algoritmo tenta capturar os parâmetros perfeitos para manipular o cérebro, que, por sua vez, muda em resposta aos experimentos do algoritmo para buscar significados mais profundos; é um jogo de fato e rato baseado em pura matemática. Como os estímulos do algoritmo não significam nada e são verdadeiramente aleatórios, o cérebro não está se adaptando a nada real, mas a uma ficção. Esse processo – de ser fisgado por uma miragem imprecisa – é o vício. Enquanto o algoritmo tenta escapar da rotina, a mente humana fica presa em outra.” (Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, Jaron Lanier, editora Intrínseca, Rio de Janeiro, 2018, p. 26)

    Em seu último artigo publicado no Libéracion, Márcia Tiburi e Rubens Casara refletem sobre o processo de desdemocratização do Brasil https://www.liberation.fr/debats/2019/04/14/nous-qui-au-bresil-voyons-la-democratie-mourir_1721295. Alain Touraine disse que Bolsonaro é um fenômeno, “mas ele mesmo não tem nenhuma força política, nem nenhuma intenção, nenhum programa de governo” https://www.revistaforum.com.br/bolsonaro-comemorou-golpe-de-64-para-dar-recado-se-nao-conseguir-governar-chamarei-os-militares/. Suponho que é preciso ultrapassar os limites da análise tradicional.

    Bolsonaro não é apenas um fenômeno político e sociológico, como presumem de Márcia Tiburi, Rubens Casara e Alain Touraine. Ele é um fenômeno matemático, algorítmico.

    “Um grande volume de pesquisas acadêmicas compara a força dos feedbacks positivo e negativo, mas essa não é a questão-chave para a criação de plataformas de mídia social comerciais, que estão preocupadas sobretudo em reduzir custos e aumentar o desempenho, de modo a maximizar o lucro. Mesmo que o feedback positivo possa ser teoricamente mais eficiente em certos casos, o negativo acaba sendo o feedback da barganha, a melhor escolha para negócios. É por isso que ele aparece com mais frequência nas redes sociais.
    Emoções negativas, como medo e raiva, vêm a tona mais facilmente e permanecem em nós por mais tempo do que as emoções positivas. Leva-se mais tempo para construir confiança do que para perdê-la. Reações de ‘luta e fuga’ ocorrem em questão de segundos, e pode levar horas até que a pessoa volte ao estado de relaxamento.
    Isso já é verdade na vida real, e mais ainda à luz dos algoritmos.
    Não existe nenhum gênio maligno sentado em um cubículo de uma empresa de mídia social calculando e concluindo que fazer mal às pessoas é mais ‘engajador’ e, portanto, mais lucrativo do que fazê-las se sentirem bem. Pelo menos nunca conheci ou ouvi falar dessa pessoa.
    A diretriz principal de geral engajamento se retroalimenta, e ninguém percebe que as emoções negativas são mais amplificadas do que as positivas. O engajamento não tem o objetivo de servir a nenhum outro propósito particular além de ser do próprio aprimoramento, e ainda assim o resultado é uma amplificação global e anômala das emoções ‘fáceis’, que por acaso são as negativas.”
    (Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, Jaron Lanier, editora Intrínseca, Rio de Janeiro, 2018, p. 29/30)

    Num dia Jair Bolsonaro se solidariza com os judeus, no outro ele perdoa os genocidas nazistas. A reação dos judeus fez Bolsonaro se distanciar do nazismo, mas então os nazistas é que demonstrarão seu ódio contra o presidente do Brasil colocando o governo em estado de alerta máximo por causa de uma realidade irreal. O mercado exige a liberação do preço dos combustíveis, Bolsonaro diz que sim. Quando os caminhoneiros ameaçam parar o país, ele proíbe o aumento do óleo diesel e os apóstolos e robôs do mercado começam a atacá-lo aumentando a angustia e o desespero no Palácio do Planalto.

    “As pessoas se agrupam e formam uma comunidade porque, sozinhas, sofrem de carência. Uma comunidade política sempre surge a partir de um sentimento de falta, e não a partir da vontade de alcançar o poder e domínio; as pessoas decidem viver com as outras para afastar o sentimento de carência. É bem verdade que a política surgiu por causa do viver e do sobreviver, mas é só a preocupação pelo ‘bem-viver’ que faz com que ela seja o que ela é realmente.” (Topologia da violência, Byung-Shul Han, editora Vozes, Petrópolis, 2017, p. 122/123)

    A negatividade de Bolsonaro retroalimentada pela pelo algoritmo das redes sociais que reforça as emoções negativas expressadas pelos seguidores do presidente brasileiro estão produzindo o caos e não o bem-estar da nossa comunidade política ou o bem-viver de cada cidadão. Entre likes e dislikes o país vai ficando paralisado. Bolsonaro não consegue tomar uma decisão da qual se sinta obrigado a voltar atrás. O algoritmo que foi projetado para maximizar o lucro da mídia social está causando prejuízos a segmentos inteiros da economia brasileira.

    Se quiser salvar seu governo, Bolsonaro terá que abandonar definitivamente as redes sociais. Não só isso. Ele terá que parar de medir sua popularidade por likes e dislikes. Em se tratando de eleições, o algorítimo usado pelas redes sociais é útil. Mas me parece evidente que o que foi projetado para viciar os usuários e reforçar suas emoções negativas num ambiente virtual não será capaz de governar o mundo real. O Brasil não está sendo apenas desdemocratizado, ele está sendo algorítmizado por um presidente que age como se fosse um autômato.

    Num momento inspirado, Hannah Arendt rejeitou o governo mundial com o seguinte argumento:

    “O fato de nenhum indivíduo – nenhum déspota, per se – poder ser identificado nesse governo mundial não mudaria de forma alguma o seu caráter despótico. O governo burocrático, o governo anônimo do burocrata, não é menos despótico porque ‘ninguém’ o exerce. Ao contrário, é ainda mais assustador porque não se pode dirigir a palavra a esse ‘ninguém’ nem reivindicar o que quer que seja.” (A promessa da política, Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 149)

    A burocracia é um instrumento público de governança. O algoritmo é um instrumento matemático de segmentação do mercado. Assim como não podemos ser governados exclusivamente por burocratas (Hannah Arendt), não deveríamos ficar sob o poder dos algoritmos e/ou de um presidente que se tornou prisioneiro dos hábitos mentais que eles criam (Jaron Lanier e Byung-Shul Han).

    Pode a política interna e externa de um país (duas coisas que deveriam ser pensadas com calma e estruturadas de maneira metódica para ter longa duração) ficar condicionadas às mudanças instantâneas de humor provocadas pelo desejo de aceitação de um governante? Essa é a pergunta que merece ser feita e respondida nesse momento pelos especialistas em política, sociologia, psicologia e filosofia. Se eu fosse deputado, apresentaria imediatamente um Projeto de Lei proibindo governadores, prefeitos e presidentes de usar as redes sociais. O contato entre o governo e os cidadãos não pode ser mediado ou medido por algoritmos.