A vida é bela

    Tenho observado minha vida como uma história que estivesse sendo escrita – uma história real, literalmente! Foi assim que acabei por descobrir tratar-se, minha própria vida, de uma comédia. A constatação encerra dureza tal que seria avassaladora, suspeito, sobre qualquer outra alma que não a de um comediante. Almas cômicas, no entanto, acabam por rir-se do destino irônico a que se fazem atar inexoravelmente.

    Do mesmo modo, almas trágicas submetem-se e adequam-se às sinas trágicas que constroem, e todos os outros tipos tecem destinos aos quais não só se amoldam, mas se resignam sob a mais completa naturalidade, não admitindo qualquer outro fado para si.

    Note que a inexorabilidade da constatação não impede que os trágicos sofram seus tormentos, mas, longe disso, propicia que tais criaturas sorvam seus sofrimentos e os saboreiem tão atenta quanto amargamente. De modo análogo, longe de impedir que os cômicos atuem como bufões eventualmente ridículos, a comicidade intrínseca a tais criaturas permite-lhes que se riam até dos destinos mais burlescos protagonizados por eles.

    Quanto a mim, imagino-me personagem tragicômico, não por opção, mas por destino. Creio, aliás, ter recebido recentemente concessão do destino para me livrar da sina de criaturas nobilíssimas e heroicas da estirpe de D. Quixote ou Brancaleone, torcendo agora para que minh’alma mostre contornos mais leves, assemelhados à de Guido Orefice, personagem vivido por Roberto Benigni em “A vida é bela”. Tendo me despojado da altivez excessiva de heróis de tempos passados, alegra-me apresentar como um arlequim contemporâneo, capaz de transpor as mais amargas agruras ostentando o plácido sorriso certificador de um estado de satisfação quase permanente, pontuado pelo som do próprio riso a descarregar eventuais gargalhadas sobre as peças pregadas a mim mesmo pelo destino, esse pândego!

     

    Épico

    Contam-nos os gregos, que Midas, tendo podido escolher uma dádiva qualquer, pediu que tudo o que tocasse virasse ouro, desejo tolo do qual muito se arrependeu.     

     Já Caetano Veloso, em seu Épico, vangloriou-se com justeza de façanha muito mais invejável:

    “Botei todos os fracassos nas paradas de sucesso”

    Fosse-me dada a benesse de escolher um qualquer dom, e me inspiraria em Caetano requerendo a capacidade triunfal de transformar fracassos em sucessos. Como, por outro lado, mais convém empenharmo-nos na busca dos méritos que esperar que mercês nos caiam dos céus, trato, eu mesmo, de tentar reverter meus fracassos, transmutando-os, o quanto possível, em reverberantes sucessos.

    Conduzido por tal sabedoria, e em vista de uns dissabores recentes, tratei de cavar justificativa para, de maneira quase descarada, propagandear a mim mesmo, elogiando-me despudoradamente dada a completa ausência de qualquer outro que o faça, e da necessidade imperiosa de tal mister – que só o próprio peralta consegue ver, ressalte-se. Cumpro assim meu destino tragicômico de ter eu mesmo que elogiar minhas próprias ideias que, não tenho dúvidas, um dia serão aceitas por todos.

    Permita em consequência, leitor, que a egotrip que apresentarei a seguir seja recebida com a mesma simpatia que se espera oferecida ao quase esquecido Batata, decantado outrora pela Blitz*.

     

    Uma digressão necessária

    Dentre os brasileiros há, sabidamente, vários jogadores de futebol aclamados entre os mais ilustres do planeta, o mesmo ocorrendo, em menor número, em diversos esportes. Em outras áreas, no entanto, especialmente naquelas em que se exigem dotes intelectuais, poucos brasileiros são reconhecidos entre os maiores do mundo. Eu citaria Santos Dumont e torço para ser minha falta de memória a responsável por não reconhecer mais nenhum de nós no topo, entre os grandes, em qualquer área intelectual que seja.

    Artur Avila, o matemático, foi agraciado com a Medalha Fields, prêmio que não é distribuído sem mais, atestando certamente grande mérito. A impossibilidade de compreensão de seus feitos, no entanto – exceto por um contingente reduzidíssimo e seleto de especialistas –, afasta sua façanha tão astronomicamente do entendimento comum que impossibilita a quase todos qualquer vislumbre até dos propósitos de suas elucubrações, tornando seus méritos refratários a virtualmente todos nós, razão pela qual é quase desconhecido no país.

    Penso que a ausência de reconhecimento de intelectual brasileiro mundialmente renomado constitua para nós entrave considerável, rebaixando-nos a nossos próprios olhos. Ouse, por exemplo, um cientista brasileiro fazer seu papel – o de propor belas e arrojadas teorias científicas –, e seus pronunciamentos serão recebidos com descrença: – ah, isso é coisa de brasileiro. Temos a nós mesmos como intelectuais de segunda categoria, tendendo quase sempre a menosprezar qualquer brasileiro que em atividade intelectual demonstre confiança, audácia e demais méritos que eventualmente possibilitem seu realce ao topo em qualquer realização intelectual. Pressupomos o descrédito ante qualquer tentativa de um de nós de apresentar realização mental grandiosa.

    A barreira imposta por tal atitude tende, por si mesma, a autoalimentar-se e fortalecer-se, acachapando a autoestima do brasileiro relativa a méritos intelectuais. Creio que só o reconhecimento de um grande intelectual ou cientista brasileiro, romperá o forte entrave tendente à perpetuação de tal mazela.

     

    De volta ao tema

    Retorno à história que vou compondo a cada ação que pratico e que, creio, será em algum tempo acessada e revivida por outras criaturas que não eu mesmo – se não é o que está a ocorrer nesse momento, tendo essa vida já sido composta pelo eu original que nesse momento revivo –, crença que me levou ao reconhecimento de minha sina cômica.

    Contarei o final da história, piada que, para coroar fado tão inusitado, não terá a menor graça, desvelando o absurdo de uma comédia da qual não se ri, mas cuja falta de nexo atordoante impõe seja vista como inequívoca burla.

    Uns brevíssimos prolegômenos são ainda necessários para esclarecer os fatos.

    Ao terminar um problema, ou demonstração, matemática, tendo sido conferidos e refeitos todos os passos, tem-se muito nítida a sensação de êxito, do mesmo modo que ao se terminar a composição de um quebra-cabeças e se encaixar nele a última peça, percebe-se claramente a conclusão da tarefa, saltando aos olhos qualquer equívoco que eventualmente tenha sido cometido. Do mesmo modo a conclusão exitosa de variadas montagens acaba coroada com um clique final atestando a exatidão do feito.

     

    A vida é bela

    Tenho proposto umas teorias explicativas de vários fundamentos da evolução das espécies e apresentado, em consequência, diversas definições e redefinições de conceitos básicos que alicerçam essa teoria.

    Minha mais vistosa contribuição ao conhecimento, no entanto, e, creio também, a mais excitante, consiste na explicação do surgimento e manutenção da reprodução sexual. Ainda que obviamente suspeito para tratar do tema apaixonante, sinto-me absolutamente confiante para alardear sem falsa modéstia esse gol de placa que eu recomendo ao leitor conferir em texto e vídeo.

    A introdução ao problema aparece em texto e vídeo curtos,

    https://www.academia.edu/39990541/O_paradoxo_da_reprodu%C3%A7%C3%A3o_sexual

    Vídeo

    Leia também:   Considerações sobre uma nazicomédia

    https://www.youtube.com/watch?v=Qw_S3T25pBc

    A continuação, também em texto e vídeo, esclarece a trama principal.

    https://jornalggn.com.br/blog/gustavo-gollo/a-teoria-da-origem-parasitaria-da-reproducao-sexuale-do-espermatozoide-por-gustavo-gollo/

    Desde já me desculpo pelo descarado autoelogio cujo despudor se justifica amplamente pela beleza do gol mostrado, confira! Ê ô, êêô…

     

    E que o fracasso motivador do episódio em curso da vida que escrevo seja assim retumbantemente transformado em sucesso.

    A vida é bela!

     

    *Egotrip

    … sou eu princesa, o Batata

    – Batata, a essa hora

      Ah! Desculpe, princesa, mas tinha que ser agora.

    Sabe o que é, princesa, hoje eu encontrei a pessoa que eu procuro.

    – Jura?

    – Bom se isso te satisfaz eu juro, juro, já disse que juro!

    – Oh! Batata

    (…)

    Eu, eu sinto isso também!

    – E essa pessoa princesa

    – Diz, diz!

    – Essa pessoa …

    – Diz!

    Sou eu!

    https://www.youtube.com/watch?v=YRroz4wQ9uY