Ecologia do poder


    O mundo como teatro de replicadores

    Qualquer objeto pode ser descrito por diversos ângulos alternativos. Sob certo olhar, as coisas em geral podem ser vistas como replicadores e a energia consumida por elas atribuída ao propósito de replicação dessas coisas, meta de todos os replicadores.

    Sob tal perspectiva, os produtos à venda em um supermercado, por exemplo, podem ser encarados como replicadores empenhados na própria replicação, e os artefatos em geral tratados como criaturas que consomem uma parte considerável de toda a energia produzida no planeta.

    Certa estranheza gerada por essa abordagem decorre do fato de que em nosso modo usual encaramos os artefatos como criaturas inertes que, por isso, não consumiriam energia, nem tampouco agiriam ativamente, empenhando-se na própria replicação, por exemplo.

    Objeções idênticas se aplicariam aos vírus, minúsculos cristais, seres inanimados que, a exemplo dos artefatos, apesar de inertes, produzem efeitos no organismo de seus hospedeiros que, de um modo ou outro, acabam induzindo a replicação das criaturas.

    Basicamente, um vírus consiste em uma receita para sua autoconstrução, encapsulada em um invólucro protetor. Uma vez introduzido em um hospedeiro, o vírus continua inerte, embora as instruções para sua replicação – os vírus se resumem basicamente a tais instruções, consistem apenas nisso –, possam ser confundidas com instruções necessárias ao funcionamento do hospedeiro que, ludibriado por tal semelhança, é levado a produzir cópias do vírus, que por sua vez induzem o hospedeiro a fazer mais cópias que, desse modo, se multiplicam fartamente. Eventualmente, também ocorre que, em conjunto, as miríades de vírus acabam gerando algo como um acúmulo de líquido no pulmão do hospedeiro, induzindo-o a espirrar e, desse modo, espargir uma infinidade de réplicas da criatura inerte ao redor, que ocasionalmente são inaladas por um novo hospedeiro, reiniciando o ciclo.

    Assim, embora o vírus seja completamente inerte – não faça absolutamente nada –, pode-se descrever seu “ciclo de vida” como um conjunto de ações tendentes à própria replicação.

    De modo análogo, pode-se descrever o ciclo de vida de um artefato qualquer, como um bombom, que, sob tal descrição, ao ser vendido é capaz de ativar toda a cadeia de eventos que resulta em sua replicação. Tal dinâmica permite que se infira adicionalmente o surgimento de novos tipos variantes do original, na forma de bombons de outros sabores, outras marcas, ou produtos assemelhados, mas distintos dos bombons – processos correspondentes ao desenvolvimento de uma árvore evolutiva.

    Sob esse modo de descrição que atribui propósitos e ações virtuais aos artefatos, o consumo de energia necessário para a produção de tais criaturas pode ser atribuído a elas próprias, considerando-se que se trate de energia consumida pelos replicadores com o propósito de autorreplicação.

    Tomando-se o consumo de energia como medida do poder de uma entidade qualquer, e atribuindo-se a cada replicador a responsabilidade pelo consumo de energia necessária para sua própria replicação, é possível imaginar uma representação do poder das personagens envolvidas na imensa trama que enlaça todos os seres em atividade no planeta – incluindo nisso a “atividade” inerte de vírus e artefatos.

    Ecologia do poder

    O aparente absurdo propicia, desse modo, a descrição de uma surpreendente e reveladora ecologia dos bens materiais competindo pelo consumo de energia de modo análogo ao que os seres vivos o fazem, permitindo que o arsenal teórico desenvolvido para análises ecológicas seja transposto diretamente para análises das interações entre os artefatos, enquanto a quantificação da energia sugerida pela abordagem facilita uma análise do poder.

    Formas de parasitismo artefatual

    As embalagens plásticas aderidas a inúmeros artefatos com o propósito de facilitar suas vendas podem ser vistas como parasitas das criaturas. Embora inúteis, as embalagens podem perdurar muitíssimo mais que o produto que elas envolvem. Uma garrafa de água, por exemplo, tende a perdurar por milhares de anos depois que o líquido é ingerido – a percepção do disparate, e o acúmulo de montanhas de garrafas, levou os perpetradores do crime ambiental a organizar campanhas de feições benévolas com o intuito de destruir as provas do crime, transformando as garrafas em fibras que ocultam a identidade dos responsáveis pelo lixo virtualmente indestrutível. Esse modo de destruição das provas do crime ambiental tem sido chamado eufemisticamente “reciclagem”.

    O parágrafo acima sugere nova inversão de pontos de vista: analisar a garrafa, a criatura persistente, como protagonista do ser colonial água/garrafa, atribuindo à água o status de acessório para a garrafa.

    O obsoletismo planejado enquanto modo de parasitismo

    Se levássemos em conta apenas nossos próprios desejos e avaliações, tenderíamos a nos afeiçoar a objetos antigos que nos acompanhassem durante décadas e a valorizar os mais duráveis entre eles, atribuindo-lhes não apenas seus valores de uso, mas valores adicionais acrescentados por lembranças afetivas que os envolvessem. Marcas de uso nos objetos seriam vistas como cicatrizes a evidenciar os elos entre nós e nossos pertences. A manipulação de parasitas sobre nossas mentes, no entanto, nos induz constantemente a descartar tudo o que temos, em parte devido ao adestramento prévio a que temos sido submetidos em decorrência do obsoletismo planejado que faz com que os produtos, em geral, durem por um tempo muitíssimo inferior ao do lixo que eles geram. Manipulados por parasitas, então, jogamos fora nossas lembranças, o sumo de nossas vidas. Desse modo, compramos produtos programados para não ultrapassar determinada vida útil, mas que, em contrapartida, perdurarão por milênios enquanto lixo – tanto o produto quanto sua embalagem eventualmente maior que ele próprio. Atentemos que enquanto a vida útil dos artefatos é planejada para não durar, a longevidade do lixo que os acompanha continua crescente.

    Assim, o obsoletismo planejado propicia a reprodução desmedida do lixo parasitário em uma escala muito maior que a do produto que supostamente seria o alvo central do consumo.

    Essa reinversão no modo de ver o mundo, revelando-nos enquanto marionetes do lixo, embora humilhante, resulta incomodamente realista ao atribuir o protagonismo da ação ao produto mais perene resultante do processo de consumo, o lixo, que no caso dos plásticos tende a permanecer por milhares de anos. Sob esse desagradável ponto de vista, é o lixo que nos governa compelindo-nos a replicá-lo, produzindo cada vez mais lixo.

    Uma explicação absurda para um mundo completamente absurdo

    O que o teatro dos replicadores nos traz à mente é o próprio absurdo. Impossível negar o contrassenso inerente ao modo de análise que inverte a visão comum de mundo. Poder-se-ia objetar contra a análise acima, que, sob o uso de óculos absurdos, só poderíamos descrever um mundo absurdo, sugerindo com isso ser o contrassenso exposto resultante apenas de um modo de análise equivocado. Ocorre que o que se pretende descrever é exatamente o absurdo, o que torna bastante justificável o uso de óculos absurdos que se moldem a tal mundo para descrevê-lo. Ou se poderá negar que as montanhas de lixo virtualmente indestrutível – que perdurará por milênios –, que tão fútil quanto laboriosamente nos empenhamos em produzir constitua absurdo descomunal?

    Um dos ensinamentos mais imediatos que o teatro dos replicadores nos propicia é que o lixo que geramos controla quase toda a energia gerada no planeta, utilizada para a replicação das criaturas que povoam as montanhas de lixo. Também nos revela que propostas de gerenciamento do lixo tão amplamente disseminadas – como falsas reciclagens que transformam o lixo sem verdadeiramente incorporá-lo a um ciclo –, decorre da manipulação efetuada por tais criaturas.

    Imperioso encarar o desconforto de assumir que nossas mentes estão parasitadas por lixo, que tenhamos sido transformados em agentes das criaturas repulsivas e que o absurdo de nossas ações seja explicado pressupondo-o resultado de manipulação por parte das desagradáveis criaturas.

    Nota: prolegômenos às ações ecológicas futuras

    Ao se buscar qualquer solução para problema ecológico existente, deve-se focar nas causas do problema e sustá-las, e não nas consequências, como fazem, via de regra, os causadores de tais problemas.

    Assim, não se deve tentar buscar uma solução mágica para a eliminação dos plásticos destruindo-os, ação que gerará resíduo igualmente problemático, apenas transferindo o problema, e provavelmente tornando-o pior que é. A solução tão simples quanto efetiva de problemas desse tipo consiste na redução drástica ou cessamento de produção do agente poluidor. Na melhor das hipóteses, todo o plástico que for produzido se acumulará em montanhas de lixo; destinos alternativos, como o fundo dos mares, ou sua queima, são ainda piores. As montanhas de garrafas plásticas descartáveis, no entanto, essa verdadeira ode ao absurdo, continuarão lutando pela própria replicação, compelindo-nos a fabricar mais e mais delas.

    .
    Adendo 1: reprodução sexual e obsoletismo planejado

    Há certo paralelismo entre a reprodução sexual e o obsoletismo planejado, podendo-se encarar o primeiro como uma antecipação natural do segundo.

    O mecanismo primevo original de replicação foi a cissiparidade, processo que dividiu em duas a célula original, a precursora de todas as outras, inciando a imensa série de divisões que continua a ocorrer até hoje, sucedendo todas as vezes em que uma célula qualquer se duplica. Todas as células existentes constituem divisões de divisões de divisões… da célula original. Essa consideração evidencia o fato de que as células são virtualmente imortais, constituindo a divisão, e não a morte, o destino esperado para cada célula.

    Ocorre, no entanto, que a duplicação celular gera um crescimento exponencial da população em questão, de modo que em algum momento a explosão populacional resultante de tal crescimento chega a um limite no qual “não cabem” mais células, seja onde for. É essa limitação que impõe a seleção natural, ao favorecer a sobrevivência de determinadas linhagens em detrimento de outras.

    De qualquer modo, podemos considerar qualquer célula existente hoje como “a célula original”, que tem se dividido seguidamente, sem nunca envelhecer, consideração que evidencia o fato de que o envelhecimento não constitui o destino inexorável das células, mas um efeito colateral da reprodução sexual.

    Imagine nossos antepassados remotos, logo após o surgimento da reprodução sexual, que nunca envelheciam, mas que mantinham a mesma jovialidade eterna com as quais suas células atravessavam as eras. Tais seres se mantinham sob as rédeas de determinado ciclo de vida que impunha certas restrições a seu crescimento, desenvolvimento e amadurecimento sexual. O surgimento de seres que, em certo sentido, quebravam as regras, amadurecendo sexualmente antes do tempo, permitindo que as apressadas criaturas se reproduzissem mais rapidamente que as outras, embora levando-as ao desgaste a que chamamos envelhecimento, acabava por conduzi-las à morte, após ter produzido apressadamente vasta prole de criaturas igualmente apressadas.

    Teria sido implementado, assim, pela primeira vez, um modo de obsoletismo planejado, um processo causador de desgaste da criatura e de seu descarte subsequente. A morte em consequência do envelhecimento, de qualquer modo, abre espaço para a experimentação de variações das criaturas existentes em cada tempo.

    Essa dinâmica acabará resultando no obsoletismo e substituição da própria humanidade.

    Adendo 2: Crenças parasitárias

    Costumamos acreditar que boas práticas e crenças prevaleçam sobre as ruins, que nosso modo de vida, nossos costumes, se impuseram sobre outros por serem melhores que eles. Tendemos a acreditar, por exemplo, que a sociedade ocidental se impôs sobre outras, e as engoliu, por ser superior a elas, constituindo tal constatação a própria confirmação da crença.

    Penso não haver justificativa para tal crença e que toda a cultura seja moldada mais por considerações parasitárias que por outras. Penso que a sociedade ocidental tenha sido infectada por vasto conjunto de parasitas oriundos das diversas culturas com as quais os ocidentais fizeram contato, e que tais infecções se alastraram por todo o ocidente de modo análogo a infecções zumbis nas ficções.

    Penso que a sociedade de consumo e produção de lixo corresponda a uma espécie de sociedade vampira que, tendo sido vampirizada após contato com alguma sociedade isolada, passou a vampirizar todas as sociedades que encontrava. Não creio, portanto, que seja alguma superioridade de nossa sociedade o que faz com que ela se imponha sobre outras, mas o fato de ter sido infectada, um dia.

    Tal infecção nos leva a crer que nossos hábitos sejam melhores que outros, razão pela qual os cultivamos, aprimoramos e disseminamos. Assim, é por estarmos parasitados e governados pelas criaturas que constituem o lixo que nos transformamos em seus lacaios, vivendo para reproduzi-lo em altíssima escala, sendo essa a causa de constituirmos a sociedade de consumo e produção de lixo.

    Se analisarmos nossos próprios desejos perceberemos que uma imensa parte deles resultará na produção de mais lixo. Dentre todos os desejos, o mais comum talvez seja o de enriquecer e aumentar nosso padrão de consumo e produção de lixo. Tendemos fortemente a achar que isso seja bom, razão pela qual o desejamos. Sob visão alternativa, no entanto, o desejo compulsivo de aumentar nosso nível de consumo e produção de lixo consiste, de fato, em uma imposição dos parasitas que controlam nossas mentes.

    Inclinamo-nos, naturalmente, a nos afeiçoar por objetos que nos acompanham a longo tempo, tendência desfavorável à produção de lixo e, por conseguinte, aos parasitas que nos controlam, razão pela qual eles nos impingem o desejo fútil por novidades e a necessidade de troca imediata de qualquer objeto que apresente sinais de uso.

    Leia também:

    https://blog.movimentozeitgeist.com.br/sobre-o-absurdo/

    https://jornalggn.com.br/cinema/a-historia-do-mundo-a-serie-por-gustavo-gollo/

    https://jornalggn.com.br/artigos/de-volta-a-singularidade/