Uma nota sobre o anarquismo, hoje

    A etimologia da palavra “anarquismo”, “sem governo” sugere ser esse o inimigo: Hay govierno? Soy contra! – reza o mote.

    O foco central, no entanto, nunca foram os governos, mas o opressor, frequentemente representado pela figura dos governantes.

    Até o século XX, sempre foi esse o caso, uma vez que o poder central e a origem da opressão encarnava-se nos governos.

    Nesse tempo, no entanto, o grande capital acabou por engolir os governos tornando-se uma fonte de dominação hegemônica que controla quase todo o planeta, transformando governos locais em seus asseclas, manipulados através dos meios de comunicação e demais formas de controle de massas, especialmente através dos meios ditos democráticos, embora mantidos sob controle do capital.

    Uma dentre as múltiplas formas de dominação do capital consiste em ressignificar palavras, dando-lhes novos sentidos, frequentemente antagônicos ao original. A palavra “liberdade”, por exemplo, deve ser usada como atributo de indivíduos. Tem sido utilizada, quase sempre, no entanto, como “liberdade” para que as grandes empresas façam o que quiserem, como quiserem, permitindo serem usadas como fortíssimos instrumentos de dominação, de modo que a defesa da liberdade das empresas corresponde à defesa da opressão aos indivíduos.

    Contrariamente a isso, a liberdade exige o cerceamento do capital, não dos indivíduos, como fica sempre implícito no discurso veiculado pelos meios de comunicação bancados pelo capital.

    O nacionalismo de resistência no Brasil e nos países periféricos

    O nacionalismo foi frequentemente utilizado como instrumento de dominação dos países imperialistas, sobretudo nas diversas formas de colonialismo. Um dos efeitos da colonização sobre o povo brasileiro, do qual ainda não nos libertamos, consiste na visão depreciativa de nós mesmos. Sob tal olhar, somos tupiniquins e o máximo que podemos fazer são versões tupiniquins dos originais, nada que preste, por conseguinte. Desse modo, depreciamos, de antemão, tudo o que tenha sido feito por um brasileiro, mesmo antes de conhecer o feito. Como exceção à regra, permitimos que brasileiros sejam exímios futebolistas, campo no qual atribuamos provavelmente até um excesso de confiança não mais justificado. Mas grandes jogadores de futebol podemos ser, não grandes cientistas, filósofos, pensadores, ou demais protagonistas da criação de modos de ver o mundo. Desqualificamo-nos a nós mesmos, obrigando-nos, todos a ver o mundo sob o que imaginamos ser a visão de estrangeiros, transformando-os nos modelos que almejamos seguir.

    Tentamos impedir, a todo custo, desse modo, que brasileiros construamos histórias que permitam vermos o mundo sob nossa própria visão, autêntica. Exceção pífia consiste nas novelas de TV, narrativas sobre vidinhas reles recheadas por intrigas. (Desculpe-me, leitor, é o que suponho serem as novelas, embora desconheça esse entretenimento que sempre considerei irritante – ainda que eu possa estar fazendo o mesmo que estou a criticar).

    A visão autodepreciativa cultivada por nós permite, entre outras coisas, que uma estranha forma de fascismo antinacionalista seja plantada no país com o propósito de depreciar-nos ainda mais, justificando o roubo de nossas riquezas naturais, e nossa exploração por culturas fundadas na glutoneria insaciável, garantindo através da depreciação que merecemos tal destino.

    O histrião plantado na presidência do país e ali incitado a alardear suas ideias ridículas – alvo de indignação e escárnio pelo mundo inteiro –, tem se tornado a imagem do brasileiro aos olhos do mundo. É esse bufão ridículo que nos representa, que determina nossa imagem aos olhos de todo o planeta. Não admira, por isso, que se permita que povo tão indigno seja aviltado das mais diversas formas.

    Lembremos que o biruliro foi plantado na presidência após um golpe que derrubou a presidente eleita; lembremos também a prisão do candidato que seria escolhido para substituí-la, seu amordaçamento, a farsa da facada que justificou o silêncio de biruliro e seu desconhecimento por parte da população, e a campanha ultramassiva de manipulação nas redes sociais direcionada a sua eleição.

    A criatura torpe tem-se prestado ao papel de se tornar o protótipo do político indesejável, da criatura nojenta que se transformará no alvo de execração de toda a classe política e de sua substituição pelas grandes empresas sob a utilização de milícias como instrumento de dominação. Encontra-se em curso o processo de implementação de um sistema neo-feudal no país, e de institucionalização das milícias, essa poderosíssima facção criminosa.

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