Amazônia: o Brasil e o agronegócio pagarão a conta do ecocídio

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    A crise aberta pelas queimadas na Amazônia foi precedida por muitos anúncios do governo Bolsonaro, que excluem perante qualquer observador objetivo a mínima hipótese de casualidade.

    Para ficar apenas nos fatos mais emblemáticos, poderíamos citar:

    a.    O desmonte do Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade (ICMBio). A instituição é uma autarquia ligada ao Ministério do Meio Ambiente, reconhecida pela ONU e titular de renomados prêmios como o “Global 500” por sua competente ação de controle ambiental. “Conforme a Wikipedia (o site oficial perdeu credibilidade e não tem atualmente nem sequer uma notícia sobre a tragédia que se abate sobre a Amazônia) o instituto é responsável por “propor, implantar, gerir, proteger, fiscalizar e monitorar as unidades de conservação federais, além de fomentar e executar programas de pesquisa, proteção, preservação e conservação da biodiversidade e exercer o poder de polícia ambiental para a proteção da biodiversidade em todo o Brasil. Surgiu de uma reestruturação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), anteriormente responsável por tais atribuições.” Inúmeros profissionais de elevada competência técnica deixaram o instituto dada a agressão à dignidade do seu papel institucional.

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    b.    A demonização do IBAMA desde a campanha eleitoral e seu desmonte (as multas caíram) por seu trabalho na área de proteção ao meio ambiente. A instituição, em lugar de ser entendida como estratégica para a legitimidade da posição brasileira no que toca ao meio ambiente, posição que viabiliza e dá credibilidade ao Comércio Exterior nos termos em que se dá hoje, foi pintada como um estorvo ao produtor rural.

    c.    A percepção beligerante das populações tratadas ao longo de toda a campanha eleitoral como um verdadeiro empecilho ao bom desenvolvimento do agronegócio populações a quem nada seria destinado, nem mais um centímetro de terras.

    d.    O desrespeito difuso ao meio ambiente, que pode ser identificado,por exemplo na cruel transferência de um renomado especialista em golfinhos o pesquisador José Martins da Silva Júnior, pelo diretor local do Instituto Chico Mendes de Proteção ao Meio Ambiente nos dias que se seguiram à visita local do do próprio Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. O pesquisador, um oceanógrafo, foi transferido sumariamente de sua base em Fernando de Noronha para o bioma caatinga. Isso ainda não se materializou porque a justiça, num rompante de bom senso, o acudiu suspendendo a transferência. Essa desumanidade, aliás, que arruinaria a vida de um profissional sério, deve ter sido motivo de gargalhadas federais, pois a isso também serve.

    e.    No mais imediato da crise o governo demitiu o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, o físico Ricardo Galvão, precisamente por informar sem meias palavras sobre um problema que já à época e numa análise retrospectiva, anterior portanto à crise atual, evidenciava aumento da destruição da floresta amazônica pelo desmatamento.

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    f.     O corte dos fundos financiadores do controle da floresta amazônica pela Alemanha e Noruega, em lugar de ser motivo de preocupação para a própria manutenção do acordo do MercoSul com a União Europeia foi respondido com chacotas pelo governo que aconselhou o seu uso para reflorestar a Alemanha…

    g.    A isso devemos acrescentar a opção presidencial pelo barbeiro, em lugar de fazer-se presente na reunião agendada com o ministro francês das Relações Exteriores país com quem formalmente Bolsonaro havia se comprometido com a preservação do meio ambiente. Fato que se seguiu, durante a crise atual de ofensas pessoais por parte do Ministro do Meio Ambiente que chamou o presidente francês de Micron.

    É nesse contexto que eclodem as queimadas que não podem, portanto, ser consideradas casuais, cíclicas ou aleatórias, pois são o resultado de uma política proposital, temerária, insensível e irresponsável com os interesses do país e com o sofrimento das populações tradicionais das florestas e de um dos mais nobres  ecossistemas do planeta, razão porque, não sem motivo o “ecocídio” esteja sendo aventado como muito plausível interpretação jurídica para o que está em curso no Brasil.

    O ecocídio, aliás, que é a destruição proposital de um ecossistema, figura como um dos crimes contra a humanidade.

    Portanto é nesse contexto que ocorrerão, um deles está ocorrendo, três fatos muito próximos: o encontro do G7 nesse fim de semana, na França, a Assembleia Geral das Nações Unidas, normalmente aberta pelo Brasil, em setembro, e o Sínodo dos Bispos que tratará sobre a Amazônia em outubro (e há que se analisar se o que ocorre não está sendo perpetrado para afrontar a Igreja e o Papa Francisco, vistos com maus olhos pelo governo).

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    A reação espasmódica e às pressas da fala do presidente na TV e o envio do Exército e da Força Nacional, é será assim vista, no senso direto e no figurado, figuram realmente apenas como uma operação “apaga incêndios”.

    Não há como antever qualquer cenário de bonança. O governo, de aprendizes de feiticeiros, colherá o que plantou e arruinará por longos anos a imagem do Brasil, nos envergonhando a todos, a economia nacional como um todo e o agronegócio em particular.

    Tudo isso é tenebroso porque estamos talvez às vésperas de uma pesada recessão mundial. Momento em que a reputação dos países e sua responsabilidade são cruciais para a manutenção dos mercados.

    Mas não vimos tudo. Não esqueçamos que além das decisões de governo, a Europa, o Canadá e os Estados Unidos têm todos eles poderosas organizações de consumidores que decidem por si mesmas e, vejam só, ainda não começaram a falar.